Para homens e mulheres, a pornografia é verdade absoluta sobre o sexo

O sexo, sabemos, é absolutamente diferente para homens e mulheres. É claro que isso tem raízes históricas, além de haver inúmeras disciplinas que contribuem para explicar com efeito o porquê dessa realidade. Mas sem me prender muito a essas raízes, proponho analisar, considerando tão somente nossa experiência cotidiana.

Da mesma forma que a menina se realiza (porque é estimulada para tal coisa) através dos contos de fada, idealizando seu companheiro, sempre embuído de amor, ternura, fazendo dele seu destino, assim o menino apreende com facilidade o sexo através, principalmente, da pornografia, que fundamenta o ato pelo desejo de posse, violência e degradação, além de reduzir a mulher a um simples objeto erótico.

Acredita que nela (na pornografia) há toda a objetividade sobre o sexo. É a verdade absoluta sobre isso. É ela, inclusive, quem exemplifica a lógica de obtenção ou conquista do mundo: a dominação.

Nela, o homem aprende que seu valor, expresso objetivamente na ereção do falo, se confirma pela autoridade exercida sobre o outro. Contudo, como toda relação humana conduz a uma comédia, sobrepujar-se a um ser apático, seria patético, sem valor, com importância mínima ou nula. Por isso, quase sempre se sugere uma disputa, onde a mulher se deixa seduzir e se envolver; ela é seduzida e, então, obedece ao comando.

Nisso, sugere-se alguma autenticidade no comportamento da mulher, na medida em que a atitude de receber o macho e de se sujeitar a ele com prazer pode ser encarada também como uma escolha legítima. Isso pra ele é um jogo, é excitante. Representa uma conquista de fato. A mulher que recebe o macho, tem uma atitude autêntica, e, assim argumentam algumas pessoas que tolamente defendem a pornografia. Esquecem-se, portanto, que este é o único grau de autenticidade concedido à mulher. Se é que podemos chamar de autêntico uma atitude forjada arbitrariamente com o objetivo de satisfazer ao anseio de uma casta em dano de outra.

Percebe-se, então, que a pornografia é estimulante porque compila os meios pra que isso aconteça; e, por assim ser, assume um papel educativo na vida dos homens e, por consequência, na vida das mulheres também. É simples concluir: as mulheres, se não são “educadas” sexualmente pela pornografia, são iniciadas por um homem cuja noção de sexo está definitivamente moldada por meio dela.

É, finalmente, a partir do sexo que a mulher entende as promessas que lhe são feitas pelo patriarcado. Ela aprende que fazendo tudo como eles querem, elas terão sempre a atenção masculina, serão sempre procuradas e desejadas; e isso, implica em alguma valorização. Ao passo que, a mulher frígida será desprezada, será trocada por outra, será a estranha, alvo de brincadeiras de mal gosto, será a megera, a mal comida, a mal amada, a chata, a mulher má.

E aí está o porque que tanto competimos umas com as outras. Porque queremos ser únicas, não queremos ser trocadas. Pra competir, tentamos reunir todas as preferências masculinas. São mais solicitadas aquelas que reúnem as características mais pontuadas. E nessa disputa nociva a nossa própria subjetividade, nos submetemos, nos deixamos ser conspurcadas e bestializadas.

Sofremos um dilema: não conseguindo negar uma realização própria, mas mutiladas subjetivamente pra alcançá-la em algo realmente valoroso, nos recuperamos no papel de presa. Muitas conseguem acreditar que esse gosto é natural da nossa carne, enquanto que isso é, na verdade, uma mácula de eras. Diametralmente oposto a isso, está o homem no auge de sua integridade humana e espiritual. É agente antes de se fazer objeto (quando se faz). É porque não é nisso que está a realização da sua existência. Sua realização está em seus projetos. Ele se atira e se realiza no seu futuro imprevisível e que só depende dele.

Desde cedo, a mulher aprende as lições da delicadeza. Se faz de boneca, aprende a se maquiar e a se vestir pra se oferecer e provocar os olhares. A pornografia, por sua vez, reafirma esses valores na vida adulta da mulher. Reforça-lhe que é necessário apresentar-se como esperam. A beleza é o seu principal empreendimento. Está morta em suas singularidades, porque não desenvolve nada de seu próprio gosto e de seu interesse. Está morta intelectualmente e doutrinada a acreditar que a beleza sempre foi sua verdadeira vocação. Ora, a beleza, é uma qualidade inerte que se conclui na visão do outro. Não tem vida, não cria nem modifica nada. É fria e quieta.

A mulher sempre estará dividida em suas tarefas. Nunca se dará totalmente a nenhuma delas porque o exercício da beleza lhe custa muito tempo.

Mas até mesmo aquelas que negam esse destino apático, se apresenta como presa em potencial, porque antes de qualquer coisa, é uma mulher e sua realidade biológica lhe compromete. O homem acha que é capaz de regular essa que nega um destino que há muito tempo lhe fora imputado. Se sente insultado quando uma mulher não se comporta como ele imagina que ela deveria. Acha que é falta de uma boa “trepada”.

Esse efeito se evidencia com maior contundência nas relações mais banais, como o assédio no trabalho, na rua ou em casa. Isso faz com que as mulheres tenham de se manter sempre atentas pra que não sejam violadas, já que todo ato de violência à mulher é intencionalmente erotizado.

É triste que nem todos enxerguem o estupro como um sintoma dessa cultura sexual degenerada sedimentada pela pornografia.

Outro ponto menos óbvio que podemos salientar dessa ilusão que a pornografia provoca é o impedimento de um desenvolvimento sexual verdadeiramente autônomo das mulheres. Uma sexualidade livre de qualquer influência ou interesse. Porque até o modo como as mulheres observam e exercitam sua sexualidade é absolutamente fálico, e não precisaria ser assim. Tudo paira sobre o sexo do homem, tudo se faz pra provocar o prazer dele e quase nenhuma importância ou altivez é reconhecida nela. Sabe-se muito bem, hoje em dia, que as mulheres possuem inúmeras possibilidades de orgasmo e satisfação erótica que, nem sempre, se realizam com a penetração.

É nesse sentido em que poderíamos ter desenvolvido uma maneira de fazer sexo onde a satisfação de ambos importassem no mesmo nível, onde pudéssemos nos dar, sem que isso significasse a subtração da nossa individualidade, reconhecendo cada ser como uma liberdade independente da nossa. Num mesmo movimento, um erotismo absoluto para o outro e para nós mesmos.

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