Verdade.exe

É preciso sempre nomear aquilo que enxergamos. É sobretudo sempre preciso — e ainda mais difícil — enxergar aquilo que enxergamos.
 — Péguy.¹

Na última entrada, eu defendi que a polarização do discurso público tem uma origem além da política e se relaciona, antes, com a visibilidade radical que caracteriza a Internet. Portanto, assim como a Internet, a polarização é a nova regra, não a exceção.

Vou expandir o argumento. O problema da política não é a política, mas a tecnologia, e estamos apenas no começo de um processo que estamos longe de entender — para que o possamos limitar.


No final de 2015, antes que Temer assumisse a autoria da carta pessoal que enviou a Dilma Rousseff, a posição das pessoas foi, por algum tempo, de ceticismo.

Não só pelo modo teatral, quase caricato do começo da comunicação (Verba volant, scripta manent), mas porque estamos mais preparados para desconfiar da palavra escrita. Ela está conosco há milênios e sabemos como é fácil passar-se por alguém num documento escrito, forjar uma assinatura.

Não foi sempre assim. Milhões de pessoas leram os Protocolos dos Sábios de Sião em 1903 e acreditaram no que liam, afinal de contas eram folhetins impressos! Ainda hoje, a maior parte das pessoas acredita no que lê sem muitas reservas.

Nossas defesas são ainda mais baixas com tecnologias mais sofisticadas.


Deep Fake é o nome da tecnologia que vai permitir criar um discurso inteiro, com áudio e vídeo, de políticos dizendo o que nunca disseram.

Um modelo do Donald Trump imita um ator.

Com reconhecimento facial e aprendizagem profunda, em breve qualquer um poderá criar a própria voz².

Primeiro, será mais fácil criar discursos de políticos ou de quem já tiver sido muito capturado em câmeras. Mas tudo indica que a tecnologia vai se espalhar e se desenvolver mais depressa do que o Photoshop, e em poucos anos será tão difícil descobrir se um vídeo é falso quanto é, hoje, descobrir se uma assinatura é falsa. Já há até aplicativos para popularizar o Deep Fake.

Até aqui, os políticos só se depararam com a informação potencialmente falsa e veiculada por escrito. Num raciocínio linear, concluíram que, assim como a polícia impede fraudes, a ANP checa a gasolina e o INMETRO checa os produtos no comércio, precisamos de agências que certifiquem a veracidade das informações na Internet.

Como dizia H. L. Mencken, para todo problema complexo há uma solução clara, simples — e errada.

Fazemos troça de quem não consegue distingüir uma notícia falsa, mas meus amigos diplomados e poliglotas acreditaram quando mandei a eles uma foto tratada do Fernando Haddad segurando um enorme vibrador negro.

Nenhuma agência regulatória estatal conseguiria lidar com a avalanche que se avizinha. Todos nós, educados ou não, técnicos ou não, teremos dificuldade em dizer o que é real.


Dois anos atrás, meus pais quase caíram no golpe do presídio.

Criminosos ligaram dizendo que tinham seqüestrado minha irmã. Uma voz feminina chorava ao fundo do telefone. “Era igual”, minha mãe disse, “igual!”

Obviamente, não era. Uma mulher qualquer fingia que chorava, fingia que estava seqüestrada e com medo.

No calor da emoção, o ser humano não consegue distingüir nem a voz dos próprios filhos.

O caso contra tutelar ou censurar a informação não se apóia somente na enorme dificuldade tecnológica (Esperamos uma guerra armamentista: ferramentas de inteligência artificial que sejam um pouco mais capazes de revelar o Deep Fake do que de confeccioná-lo).

Há, também, a questão moral³ e, mais à mão, a possibilidade de que o tiro saia pela culatra.

O iPhone nos habituou a esperar que possamos acessar imediatamente qualquer informação. Em 2018, ficamos especialmente contrariados quando alguém decide que não estamos prontos para saber algo.

Uma causa inesperado na ascensão da direita populista é exatamente essa fraqueza do sistema liberal — o desconforto diante da possibilidade de que alguém tenha nos omitido algo.

Vários candidatos venceram depois de lançar no espaço público questões que ninguém mais queria nomear (a imigração hispânica, nos EUA, e islâmica, na Europa; o estado de Guerra não declarada, no Brasil) ou de citar fatos e estatísticas que divergiam dos fatos e das estatísticas oficiais. Alguns destacaram, por exemplo, que o Governo da Suécia não coleta dados étnicos nas suas pesquisas; outros, que os números de crimes eram muito maiores do que os oficiais.


C’est-vrai-qu’isme (“é-verdade-que-ismo”, numa tradução livre) é uma expressão que o escritor Renaud Camus cunhou para ilustrar um fenômeno: formadores de opinião que reivindicam a autoridade epistêmica sobre a realidade.

Ela revela não só o semi-analfabetismo de quem a usa (Em francês, o correto seria il est vrai que) mas também que quem a usa sabe sobre o que está falando e você, não.

“É verdade que os números aumentaram, mas” — seria idealismo achar que no passado era diferente ou melhor; ou: tal instituto de pesquisa oficial aponta que na verdade está tudo bem; ou, ainda: não é possível explicar os fatos com causas que seriam inconvenientes.

Por exemplo, “é verdade” que você viu, com seus próprios olhos, três assaltos na sua vizinhança nesta semana, mas você não viu o que você viu, na verdade é inútil uma política punitivista, é inútil abrir mais presídios⁴, eu, não você, sei do que estou falando.

Em 2018, não é preciso desprovar um fato. Basta semear a dúvida e indicar que alguém não quer que você saiba de algo.

Já é cada vez mais difícil apreender a realidade. Remover fatos ou criar uma versão “oficial e confiável” dos acontecimentos só aumenta a impressão de que algo nos é omitido.

Imagine que estaríamos lutando, no futuro, contra narrativas construídas sobre gravações em alta qualidade cuja autenticidade não poderia ser confirmada nem com perícias técnicas.


Quando perguntaram ao Eduardo Jorge de onde vinha a atual polarização na política brasileira, ele pôs a culpa no Lula e seguiu com um truísmo: o PT passou mais de uma década jogando “nós” contra “eles”, e a retórica hoje tomou conta do país.

Pra quem só tem um martelo, todo problema é um prego. É natural que os políticos achem que o problema, como a solução, são políticos. Criar ou não criar agências para proteger a verdade, tirar ou não o Lula da cadeia.


Uma vez, na fila do restaurante para pagar o meu almoço, a caixa estava com problemas no seu computador. A tela estava congelada, e ela, se desculpando, conectava e desconectava o cabo de vídeo do monitor. Quanto tempo levaria para explicar a ela que o monitor era somente exibia dados que eram processados lá embaixo, na CPU, e que era preciso reiniciar o gabinete e não o monitor? E se eu explicasse, será que ela entenderia?

Como todo mundo, já me perguntei se o cidadão médio, que não dominou as tecnologias mais simples, precisará, no futuro, do ativismo estatal — ou jornalístico — para dizer o que é real.

Fico cada vez mais convencido de que não.

Como sempre aconteceu, vamos nos habituar gradual e organicamente às novas tecnologias e adotar, com o tempo, o ceticismo como regra. Quando exibiram pela primeira vez, em 1896, um filme mudo em que um trem avançava em direção à câmera⁵, alguns dos espectadores, confundindo ficção e realidade, entraram em pânico diante da possibilidade de que a locomotiva saltasse da tela e os esmagasse.

As novas tecnologias de comunicação são o trem em movimento da nossa geração.


Sempre que há uma mudança de paradigmas na distribuição de informações, há quem tente fazer parecer que o discurso civilizado acabou.

Em Brand Luther, Andrew Pettegree examina a Revolução Protestante sob uma ótica tecnológica. Uma série de coincidências beneficiou Lutero. A incipiente indústria gráfica da Alemanha era menos centralizada do que em outras partes da Europa e, portanto, mais difícil de censurar. Lutero e seus aliados entendiam melhor do que os Católicos os custos envolvidos no mercado de impressão e sabiam atrair leitores.

Os Flugschriften de Lutero, trabalhos curtos que contavam poucas páginas e que podiam ser lidos em dez minutos, eram baratos de imprimir e fáceis de transportar. Espalhavam-se com muito mais facilidade do que as réplicas da Igreja, longas e redigidas em latim. Em outras palavras, viralizavam. Havia uma simbiose entre a indústria e o Protestantismo: era mais lucrativo imprimir Lutero, que chegava a dividir seus livros em várias partes para facilitar a distribuição, do que qualquer outro autor.

À medida que os panfletos protestantes se espalhavam a partir de Wittenberg, e, mais tarde, a partir de Erfurt, Augsburg, Nuremberg, Estrasburgo e Leipzig, a Igreja, desconcertada como os jornalistas de hoje, amargurava um claro sentimento de que “modos antigos de conduzir os negócios, a linguagem e os procedimentos formais de disputa escolástica não satisfaziam mais as necessidades atuais”.

Passados quinhentos anos desde então, porém, quem defenderia que a disseminação da imprensa não refinou o discurso político?

A crescente dificuldade em distingüir o que é real e o que não é, se nos confunde agora, vai, no futuro, nos forçar a ser mais céticos e prudentes — e, talvez, a repensar instituições que hoje tomamos por dadas.

***

Notas:

¹ Tradução livre. No original, “Il faut toujours dire ce que l’on voit. Surtout il faut toujours, ce qui est plus difficile, voir ce que l’on voit.”

² No site da Lyrebird é possível criar áudios, em inglês, a partir de 25 trechos de voz que o usuário gravar na plataforma. Outras ferramentas mais sofisticadas são a Adobe Voco e a WaveNet.

³ Pessoalmente, eu não acredito que o debate deva ser moderado por um estamento burocrático cujos mais altos escalões são capitaneados por ministros que ainda não pararam de ouvir Legião Urbana ou que passam vergonha dançando como adolescentes. Essa gente vai decidir o que eu posso ler?

⁴ A questão do encarceramento é especialmente revoltante, porque não param de nos bombardear com o fato de que o Brasil tem um dos maiores números absolutos de presos do mundo. Mas o Brasil tem a 5ª maior população do mundo! Se fizessem qualquer pesquisa, por exemplo do número absoluto de canhotos do Brasil, ela estaria entre as maiores do mundo. Não vemos nenhum político defendendo que precisamos fazer algo contra o enorme número de canhotos. Este é só um tipo de manobra que desacredita a informação, e da qual os veículos de comunicação se utilizam constantemente. Nem se mencione o tratamento político dado pelos jornais a questões orçamentárias, ou de artigos que não se decidem entre descrever os fatos de forma neutra e prescrever uma solução.

⁵ O nome do filme é L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, e hoje se discute se houve quem realmente se lançasse no chão de tanto medo.

“There was a clear sense that the old ways of doing business, the language and formal procedures of disputation, no longer met the needs of the present situation.” Brand Luther, pp. 212.