Agradar

Você já se deparou pelo menos cinquenta milhões de vezes por semana com “Dez dicas para agradar/seduzir/conquistar/manter os homens”. E quer você veja isso como a epítome do machismo ou não, o fato é que é tosco. E não fica nada melhor quando invertem e dão dicas pra agradar/seduzir/et cetera as mulheres.
Inúmeras vezes já abri um desses links (por pura procrastinação. Após passar dos 14 anos, pelo menos) e olhei pros itens com reações similares a
“ugh, quem gosta disso?”
“nossa, em que planeta isso agrada as mulheres?”
e “mas isso é o mínimo necessário pra um ser humano como animal social”.
A não ser que você nunca tenha interagido com outro ser humano na vida ou não tome banho há um mês, você tem o mínimo necessário pra potencialmente agradar alguém, então essa leitura costuma ser desnecessária.
“Agradar os homens” e “agradar as mulheres” são conceitos estúpidos para o romance. A boa notícia é que se você estiver com um certo desespero pra conseguir um parceiro casual, é possível que algumas entre 100 tentativas de “amiga, encare-o por dois segundos, mexa no cabelo e então desvie o olhar” e “pague a conta sem nem perguntar” sejam bem-sucedidas.
Mas se você está num relacionamento ou apaixonado por alguém com quem pretenda estar, é porque essa pessoa é única e especial. Qualquer outra mulher ou homem não seria o mesmo. Então por que tratá-la como você trataria qualquer outra pessoa de anatomia ginecológica similar que aceitasse sair com você? Seguir essas regrinhas genéricas só denota desleixo e falta de interesse nas particularidades que fizeram com que seu sentimento fosse por essa pessoa, e não por qualquer outra. A única maravilha do ser humano é que ele é diferente de todos os outros. Tratar alguém especial de forma genérica significa que seria a mesma coisa com qualquer outra pessoa na mesma situação, e isso não se parece muito com amor.
Além disso, não se muda a personalidade por alguém. É impossível ser feliz se tornando outra pessoa só pra agradar.
Mas é possível agradar com pequenas ações, pequenos esforços. Dê uma chance a ouvir algo que nunca ouviu, comer algo que nunca comeu, tenha experiências enriquecedoras com o outro. Seja flexível no que se sentir à vontade para ser flexível. Mas não finja ou queira ser outra pessoa.
É difícil. Muitas vezes é sutil a diferença entre fazer algo fora da caixa e fazer algo com que não se sente à vontade, algo que não condiz com você. Mas não cabe a um texto adaptado da revista Nova dos anos 70 (como são todos os textos desse tipo) definir isso, só a você.
Temos em nós um pouco de cada um que foi importante na nossa vida, mas essa parte não pode lhe ser forçada num relacionamento maduro e saudável, nada pode. E o conceito de maduro e saudável parece assustador, mas é simples na teoria. Requer atenção com o outro, mas nunca sacrifícios. Requer que ambos estejam lá um pelo outro e se importem. E tecnicamente é só isso, cada casal precisa descobrir seu jeito particular de dar certo e de dar felicidade ao outro.
Não agrade os homens, agrade a pessoa que você ama, sendo você mesma desde o início e alocando espaço na sua vida pra algumas das experiências e gostos que ele tem. Não dê chocolate à sua namorada na TPM e saia correndo, pergunte a ela, observe-a, aprenda sobre seu temperamento e o melhor modo de agir. Talvez ela realmente prefira só comer um chocolate e ficar em paz, mas talvez ela lide com isso de outro modo. Compreenda.
Conheça seu parceiro e deixe que ele te conheça também. Temos medo de mostrar nossas fragilidades e isso é normal, leva tempo; mas mostre suas preferências, mostre sua história, mostre quem você é e não tenha medo de crescer, sozinho e juntos. É recompensador.

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