Ayn Rand, essa sereia…

Como sequer levar em consideração qualquer coisa se o ponto de partida é errôneo, impreciso, enganador, apelativo e falacioso?

A primeira vez que vi esta foto foi há pelo menos cinco anos. Talvez uns dez, mas minha memória frágil associada à minha ridícula noção de tempo não me permitem precisar exatamente quando. Bem, se eu lembro de ter visto/lido, isso para mim já é uma vitória.

Lê-se:

“Frase da filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrando uma visão com conhecimento de causa”.

Já temos um problema logo de saída. A Revolução Russa foi em 1917. Se ela chegou aos EUA na metade da década de 1920, então o que aconteceu? Ela ficou, sei lá, uns oito anos fugindo? Acho que devemos, então, apresentar Ayn Rand de maneira apropriada.

Sim, Rand é de uma família judia — uma família judia burguesa. Tinha 12 anos em 1917 e, como qualquer adolescente burguês que se preza, tinha mais simpatias a Kerensky do que ao Czar, até porque Kerensky era bonitão. Ou seja, se fosse hoje, Ayn Rand também seria uma “Revolucionária de Facebook”.

A família “fugiu” para a Crimeia, forçados pela Revolução que, de fato, confiscou os negócios de seu pai (o fato de serem judeus deixou tudo mais fácil para os Bolcheviques). Foi naquela época que Rand decidiu-se pelo ateísmo e que deveria valorizar a razão sobre qualquer outra virtude humana (e não o dinheiro, como veremos mais a frente).

Depois que se formou no equivalente ao nosso Ensino Médio aos 16 anos, nossa heroína não fugiu para os EUA — voltou com a família para São Petersburgo (renomeada na época Petrogrado), claro que em condições piores, o que poderia colaborar para um certo ressentimento com relação àqueles que tungaram sua família. Começou seus estudos na Universidade de Petrogrado, então aberta a mulheres. Mesmo ainda sofrendo perseguições pelo fato de, apesar dos pesares, ser considera uma aluna burguesa, Rand terminou seus estudos e chegou a passar um ano em Leningrado para estudos artísticos — ela se tornaria “filósofa” bem mais tarde. Naquela época, e por um bom tempo depois, ela fazia parte do grupo de “artistas e intelectuais”.

Agora sim: “na metade da década de 1920”, mais precisamente em 1925, Ayn Rand obteve visto para visitar parentes americanos, gente bem de vida, viagem que ela só fez em janeiro de 1926. A maioria dos perseguidos na então URSS, como se sabe, obtinha “vistos” para os campos do Gulag. Deslumbrada com Nova York, ela resolveu ficar e perseguir a carreira na indústria cinematográfica americana. Afinal, quem não gostaria de fazer o mesmo naqueles anos? De qualquer forma, o termo fugitiva me soa meio, sei lá, forçado.

Meu ponto até aqui é que “Frase da filósofa russo-americana Ayn Rand (judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920), mostrando uma visão com conhecimento de causa” é, no mínimo, dúbia, enganosa, duvidosa. Digo enganosa no melhor sentido da palavra, no sentido de misleading, e não deceiving. Pense em “propaganda enganosa”: enganar de propósito é deceive. Enganar sem querer é mislead. Não me ocorre agora palavras melhores em português, mas acho que dá para entender o que eu quero dizer.

O título (ora direi, o apelo) “Cem anos depois… parece verdadeira?”, é outro problema. O trecho foi extraído do livro Atlas Shrugged, escrito 1957. A frase portanto, não é de 1920. Ayn Rand era uma escritora tentando, a meu ver, dar seus pulinhos em filosofia. (Ah, esses “artistas e intelectuais”…) Mas não vou julgar seus méritos artísticos ou acadêmicos. Em todo caso, temos aí, sei lá, 60 anos (e não 100), caso minhas habilidades matemáticas ainda não estejam deploráveis como minha noção de tempo.

Agora eu pergunto: como sequer levar em consideração qualquer coisa se o ponto de partida é errôneo, impreciso, enganador (não dá para saber se intencionalmente enganador ou não, mais isso não vem ao caso), apelativo e falacioso? Em todo caso, pós-verdades à parte, o trecho parece bom. Ei-lo:

“When you see that in order to produce, you need to obtain permission from men who produce nothing — when you see that men get richer by graft and by pull than by work, and your laws don’t protect you against them, but protect them against you — when you see corruption being rewarded and honesty becoming a self-sacrifice — you may know that your society is doomed.”

Eu não tenho o livro em português (A Revolta de Atlas), então minha tradução do texto em inglês é a que segue:

“Quando vês que, para produzir, precisas obter permissão de homens que não produzem nada — quando vês que homens ficam mais ricos pelo poder e influência do que pelo trabalho, e tuas leis não te protegem contra eles, mas protegem-nos contra ti — quando vês a corrupção ser recompensada e a honestidade tornar-se abnegação — podes saber que tua sociedade está condenada”. (Itálico meu).

Um ponto me chama a atenção: “self-sacrifice” pode ser traduzido como abnegação, ou seja, desprendimento, altruísmo. Preferi traduzir assim a fazê-lo como [auto] sacrifício. Eis então o que, para mim, se esconde nas entrelinhas. A filosofia de Ayn Rand, conhecida como Objetivismo, prega justamente uma espécie de “egoísmo racional” como guia da busca da felicidade própria como sendo o propósito moral adequado ao homem, sendo o dinheiro a ferramenta para a empreitada.

Atlas Shrugged não é um texto filosófico por si, e sim uma distopia, onde os endinheirados preferem destruir suas fortunas em resposta a pesadas regulamentações governamentais. O livro é um “queridinho” entre libertários mais radicais que apregoam o Estado-zero e creem que os mercados vão dar conta do recado. É praticamente a Bíblia do empreendedorismo — este, por sinal, um assunto espinhoso. O trecho da foto é extraído de um discurso do personagem Francisco d’Anconia.

Chiquinho faz uma verdadeira apologia — não à razão (virtude máxima de nossa heroína quando adolescente), mas ao dinheiro. Ele responde à máxima que diz que “o dinheiro é a raiz de todo mal”. O parágrafo do qual o trecho foi retirado começa com:

“Do you wish to know whether that day is coming? Watch money. Money is the barometer of a society’s virtue. When you see that trading is done, not by consent, but by compulsion — when you see that in order to produce…”

“Desejas se esse dia está chegando? Observa o dinheiro. Dinheiro é o barômetro da virtude de uma sociedade. Quando vês que o comércio é feito, não por consentimento, mas pela força — quando vês que para produzir…” (Tradução e itálico meus).

Rand passou então da razão como virtude máxima ao dinheiro. Ou seja, de Aristóteles e Nietzsche para o dólar. O dia que estaria chegando seria o dia em que a ordem da sociedade regida pela lógica sem falhas do dinheiro seria subvertida e daria lugar ao caos promovido por aqueles que não conseguem, não podem, ou não querem ganhar dinheiro — criminosos, de colarinho branco ou não.

(Parênteses para a frase “…but by compulsion –…” Talvez uma melhor tradução, em consideração ao contexto e época, seja “… mas pela força”, mas “compulsão” também pode ser aquele desejo irresistível de se comportar de uma certa maneira. Nos dias de hoje, vemos que a manipulação (de nossas vontades, inclusive), é mais poderosa que o uso da força bruta, ao contrário de 60 anos atrás, quando o pau comia solto. Fecha parênteses).

Bem, trabalhador que sou, sinto um grande puxão gravitacional em direção à ideia, como um canto de sereia que me dá alento e me hipnotiza. Afinal, eu quero usufruir daquilo que meu dinheiro me proporciona sem que eu tenha que temer ser tungado pelos governos, bancos, e criminosos menos perigosos, como assaltantes e trombadinhas, nem ser recriminado ou ter que prestar contas do que eu ache por bem fazer com ele, o meu dinheiro. Daí a comprar a noção de que a virtude moral de uma sociedade gira em torno do dinheiro é, para mim particularmente, um salto muito, muito grande.

Em todo caso, trata-se de um discurso de um personagem de uma distopia, e não de um texto filosófico, como já mencionei, apesar de que a filosofia de Ayn Rand (o Objetivismo) já começa aí a ser desenhada. Não que haja algo intrinsecamente muito errado com isso. Afinal, se podemos extrair filosofias de utopias (como a República de Platão), por que não podemos fazê-lo a partir de distopias? Há que se ressaltar, porém, que ao contrário das utopias — que podem nos servir de balizas para o pensamento, sem jamais restringi-lo — as distopias deveriam nos servir mais como alertas.

Como todo canto de sereia, este também é ilusório, enganador, mal-intencionado. Em alto-mar, o poder hipnótico de tal canto é muito maior que o alerta dos outros marinheiros que, eventualmente, também serão tragados pelo torpor. Seja 100 ou 60 anos, a “atualidade” do trecho mostra, justamente, a inviabilidade do apelo moral do Objetivismo, ou de qualquer “ismo”, pois todos eles (verificações pendentes), pressupõem a adequação (ou conformidade) do Homem dentro de suas fronteiras racionais, a mais inglória das batalhas. “Atual”, “real”, porque mostra o que é o homem, meio deus, meio animal, mas incapaz de ser completamente racional.

Para que a distopia não se concretize, abnegados são necessários. Muito mais que, como quer Ayn Rand, egoístas racionais. Vale dizer que qualquer dos dois extremos (abnegação total ou Objetivismo puro) arruma o tabuleiro para um jogo muito perigoso.

Na Odisseia, Ulisses tapou os ouvidos de seus marinheiros ao passar pela ilha de Capri em sua jornada de volta para casa. O lugar era infestado de sereias com seu irresistível canto. Ulisses, no que eu vejo como aquela determinação de querer conhecer as coisas e aceitar o sofrimento advindo de tal busca — determinação que faço minha — não colocou cera nos próprios ouvidos, mas ordenou que o amarrassem no mastro do navio. Ele queria ouvir o canto das sereias, mas estava lúcido para o fato de que isso seria fatal. Tal lucidez é característica dos líderes. Homens podem ser liderados ou subjugados. Creio que nos faltam líderes do naipe de um Ulisses, mesmo com suas imperfeições, posto que humano, para que uma coisa perfeita como o dinheiro não nos subjugue (ou permita que os filhos empreendedores de Ayn Rand o façam).

Um pouco sobre a pós-verdade.

Antes mesmo de eu sequer ter ouvido a expressão, eu já pude notar o fenômeno da pós-verdade nos primórdios de minha incursão pelo mundo do Facebook. Certa feita, publiquei o seguinte post:

“Só lutamos por aquilo que amamos, só amamos aquilo que respeitamos e só respeitamos aquilo que conhecemos”.

Posts como esse são abundantes no Facebook — frases de efeito nem sempre corretamente atribuídas aos devidos autores, mas isso não faz diferença. Basta que seja Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Buda, Einstein, Wesley Safadão ou quem quer que seja a bola da vez. Publiquei, mas não atribuí a autoria da frase a ninguém. Obtive algumas “curtidas” e alguns comentários. Nenhum questionamento. Não fui desmascarado por ninguém! E por que deveria sê-lo?

Bem, por si só, a frase é até boa, considerando o QI médio no Livro das Faces, gente que lê livros de autoajuda, que gosta de mandar mensagens de bom fim de semana, essas coisas. Enfim, gente que gosta de compartilhar coisas, como se eu desse a mínima. Eu agi deliberadamente de má-fé. Queria tirar a prova dos nove daquela percepção que hoje é conhecida como pós-verdade. O autor da frase que eu postei é Adolf Hitler, menção a quem, imagino, me custaria todas as curtidas e os comentários não seriam, digamos, tão lisonjeiros.

A filosofia de Ayn Rand não é uma que eu endosse, mas a argumentação pode ser considerada até certo ponto válida e mesmo sólida. Filosofia é, afinal, o debate de ideias. Para mim, é moralmente abjeta, mas isso é minha opinião. Uma vez que não me lancei à tarefa filosófica de refutá-la, não me cabe questioná-la para além da esfera das opiniões, sendo a minha vale tanto quanto qualquer outra. Fato é que Ayn Rand conta hoje com um séquito de seguidores cujo pensamento é de um extremismo “de direita” preocupante. Então, com relação ao texto que a figura traz, o que me incomoda nem é tanto o conteúdo, mas sim a forma. Quem quer que seja o autor da montagem, a fez com “intenções”. Se boas ou ruins, não dá para ter certeza, mas que foi algo deliberado, disso eu não tenho dúvidas.

Outro fato impressionante: como eu disse no início, eu vi/li exatamente a mesma foto há muitos anos, bem antes de Donald Trump sequer ser um nome viável para a corrida presidencial americana ou de Jair Bolsonaro e João Doria o serem na corrida presidencial brasileira. Na época, o ataque era à vagabundagem de petistas, parasitas das mamas do Estado; hoje, o ataque é à corrupção dos petistas, destruidores deste mesmo Estado. Que esta constatação não sirva, por favor, de uma defesa do lulo-petismo, que de fato achou por bem destruir as tetas cansadas nas quais mamou, descontado o fato de que houve conivência e/ou cumplicidade de muita gente; mas que sirva para mostrar que qualquer conteúdo pode ser manipulado para servir a causas, sejam elas à direita ou à esquerda. Ou seja, a resposta para a pergunta “Anos depois… Parece verdadeira?” é um sonoro “Sim”. Como se isso fizesse diferença.

Mundo estranho esse em que vivemos, onde a forma diz mais que o conteúdo.