Sacola ao vento

uma reflexão sobre a vida das sacolas


Esses dias estava pensando: seriam as sacolas ao vento os seres mais solitários do mundo? Vagam por aí, ninguém sabe de onde vieram, para onde vão e, na verdade, ninguém parece se importar, pois de tanto seguirem na sua, acabam por fazer parte do cenário. Fazem ou não fazem?

Mas um dia elas já tiveram uma utilidade, um propósito e mais do que isso, tinham dono. Alguém que daria falta se elas saíssem voando por aí, alguém que via nelas um sentido, que enxergava um valor. Mas o tempo é cruel — mesmo com as sacolas.

Por um motivo ou outro, elas foram descartadas. De repente, não serviam mais. De repente? Talvez no fundo de toda sacola, ela saiba que sua passagem é efêmera e que sua ligação com aquela pessoa que lhe dá sentido talvez não dure para sempre.

E arrastada por uma corrente de ar — aquela mesma que às vezes bate e te dá frio na espinha, sabe? — ela pode ser levada a ruas por onde já passou e como toda sacola tem invejável memória, relembrar histórias, fatos e pessoas que carrega com si ao longo da vida.

Aquela vez que quase rasgou, tamanho era o peso que carregava, porém não queria decepcionar sua dona que vinha do mercado. Tudo lembra. Tudo lembra aquela sacola vazia, ao vento, que um dia ela entendia o porquê veio ao mundo, saída daquela fábrica de plástico — aliás, teria sido em sua outra encarnação uma imponente garrafa PET de 2l?

Às vezes acha que reclama por demais ao ver por aí, sendo carregada pelo vento, outras sacolas rasgadas, amassadas, esquecidas, cheias de lixo deixado pelo seu último dono. “Poderia ser pior”, pensa. Poderia?

O oposto também bate, ao ver por aí lindas sacolas sendo carregadas, de mãos dadas com alguém.

A sacola ao vento não tem muita escolha senão seguir em frente, porque o vento tal qual o tempo, está sempre empurrando ela para frente.

E a sacola vai. Vazia. Ao vento.

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