Dormida

OYOS
OYOS
Aug 25, 2017 · 2 min read

Tenho a sensação que o gostar de algumas músicas está muito relacionado ao afeto que se atribui a elas, isso acontece, por exemplo, quando nós nos prendemos a certas palavras, ou até mesmo ao que aquela letra remete em nossas vidas. Sejam lembranças, momentos e ou na maioria das vezes: pessoas. Ou também para fazer parte de algo, por ouvir determinado estilo musical.

Eu mesmo já tive minha fase de gostar de rock, quando não era bom gostar de funk, mas também anos depois já me apeguei ao funk pela sensação de liberdade de alguma maneira por poder me soltar de algumas amarras. Já me apeguei a letras… Letras políticas, letras de amor, letras de dor, até porque, convenhamos não é tão difícil se afetar por aquela música que deixa nossa ferida exposta.

Foi justamente pensando a respeito desse aspecto especifico da letra que eu acabei me perdendo no sentido das palavras, e me parece até meio bobo ter pensado nisso, mas foi ai que eu percebi o que me acontecia de tão mágico quando eu ouvia música eletrônica, o fato de eu não precisar me apegar a música pra saber que ela era boa, de não precisa necessariamente estabelecer uma relação com ela, a música não precisa me dizer coisas que eu quero ouvir pra que eu possa aprecia-la de forma intensa, e mesmo sem palavras eu me sinto no dever de para pra ouvir, de dançar e sentir tudo que aquilo pode me provocar.

Só agora eu entendo porque eu gosto tanto de você, mesmo faltando tantas palavras, mesmo faltando tanto dialogo. Eu nunca precisei necessariamente dirigir uma palavra de amor, de carinho, ou seja lá a coisa que eu queria ter te dito, mas não disse. Afinal, me parece, que a gente não tinha muito algo pra ser dito, apesar de saber sim, que deveríamos ter tido.

Mas é isso, assim como na música eletrônica, nunca foram as palavras (nunca ditas) que me fizeram sentir o que eu sinto, ainda hoje. Era sua presença, sua imagem, seu cheiro, seu canto, seus arquivos secretos sexualmente compartilhados, era também a sutileza das sensações. Teu gemido, teu toque, o sentimento inaudito, eram todas as vibrações pulsantes nas paredes do meu quarto, era o desejo acumulado, teu trago no cigarro na janela do meu quarto, era você… Nunca suas palavras

Você só me deixou lembranças sonoras, da sua música, não só as que eu te via ouvir, mas da que você penetrava por todo o meu corpo. Nunca da sua voz.

Lembranças sonoras não só das sensações provocados em nossos corpos, mas lembranças de todas as palavras que nunca foram ditas, mas deveríamos.

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OYOS

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Arte, magia e antropologia.

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