belo, belo, belo (ou a calha que se partiu)
havia um menino-peixe
o menino amava o rio
vivia no entanto, em aquário
e do tanque amava o córrego
amava peixes e torrente
as algas verdes via contente
certo dia uma calha botaram
sob o aquário do guri
o ralo sempre foi aberto
por décadas o guri viu verde
viu cinza e viu azul e viu branco
chorou pelos tons da correnteza
tinha certeza, era lá
que ele queria habitar
o sonho selvagem da vida solta
a vida sem lei, sem rei, sem pausa
viver vago, única causa
depois de tanto tempo então
o tempo a calha abriu sem dó
logo verteu água pelo ralo
nem ouviu calha se partir
o ruído mais triste do reino
nostalgia perversa remoeu
a vida vazante se perdeu
então o menino morreu
nada de peixe mais nele tinha
pra vida póstuma em ar passou
mas antes de morrer o tritão
seu flume ele viu e disse:
“ah… meu caminho não percorrido
como tu és tão belo, belo, belo”.
