Da criança Benigna para um número infinito de crianças.

Paulo Junior
Nov 7 · 3 min read

Pisar em Santana do Cariri, no interior do Ceará, é algo diferente. Ir à cidade em dias comuns já produz os afetamentos da observação, do ar de interior, de reunião na praça ou das conversas despretensiosas que se fazem nas calçadas. No entanto, em outubro, a cidade ganha tons ainda mais fortes, densos, singelos. É o mesmo lugar em outro lugar.

A Romaria de Benigna reformula a relação com as ruas, com a caminhada, com os passos que uma romaria exige. Ao chegar à Santana do Cariri, nesta época do ano, provavelmente, você irá se deparar com uma dezena de ônibus que trazem em seus lugares alguns dogmas da fé. Olhando um pouco mais, notar-se-á que o vermelho é sempre presente, ele ganha as ruas, povoa a cidade. Os romeiros descem de seus carros, muitos estão travestidos, são Benignas, são Benignos, são esperança.

Na caminhada as crianças surgem, nos colos de seus pais, aqueles que de tão pequenos vão em seus carrinhos, resguardados do mundo, mas já imersos nele. Benigna era/é uma criança, não tem uma imagem definida, mas possuí lembrança. A criança Benigna espelha outras crianças, elas são múltiplas, suas representações, variadas. Há a bebê no colo de seu pai, repousando no afeto da mãe, àquela que enfrenta o sol e segue rumo ao martírio da primeira. Outras, tantas, carregam a marca do vermelho, das bolinhas brancas. Da criança Benigna para um plural infinito de crianças.

A romaria segue, encerra-se na cacimba, a água é de banho, de cura, de solidariedade, é resistência, sofrimento, é dor. As crianças que ali passeiam transparecem essas sensações, elas são um adensamento de possibilidade, ou da ausência delas. Do olhar que segura a mão da mãe, ao olhar de exaustão, cansaço, do trabalho que começou e não tem fim. Há, ainda, os que cantam, que fazem pose diante da fotografia, todos envoltos no ar da menina Benigna, da criança primeira, envoltos no vermelho e em suas bolinhas.

Os ônibus que trazem os romeiros ficam estacionados a alguns metros do local das celebrações religiosas. Logo, todos precisam caminhar sob o sol, em direção ao ambiente reservado, no bairro Inhumas. Por volta das 10h30 da manhã chegou uma das diversas caravanas, como as outras, várias crianças acompanhadas de seus pais. No entanto, chamou a atenção o desprendimento de um grupo que seguiu a frente, quase que como líderes dos que os antecediam.
A maior parte das celebrações ocorre no bairro Inhumas, local que recupera o ambiente de martírio de Benigna. Algumas crianças brincavam em frente ao palco montado para celebrações eucarísticas, porém, a maioria estava nos braços de seus pais, dormiam, devido ao horário e as temperaturas. Assim como a criança da imagem, as demais mostravam-se, majoritariamente, vestidas com as cores ou com detalhes que remetiam a Benigna.
A presença das crianças na romaria é marcante de diversas formas, mas, a comercialização de produtos que não integram o arco maior da festa são um sinalizador importante. Produtos de um universo infantil já capitalizado aparecem de maneira forte em todos os espaços. O comerciante da imagem passou a manhã no bairro Inhumas e durante a tarde dirigia-se para a sede da cidade, encontrando um fluxo árduo de romeiros.
As celebrações realizadas na igreja matriz da cidade, contaram com a presença de um coral infantil. Este, era inteiro composto por meninas, clara referência a infância feminina representada na imagem de Benigna. A presença também se estendeu a outros momentos da missa, como as leituras bíblicas, algumas tendo sido realizadas por crianças, muito presentes em todo o processo, seja de modo formal, ou como brincantes, na rua e na igreja.
A fé em Benigna se renova perenemente. É um encontro de passado e futuro, do hoje com o amanhã. Durante a disposição de flores sobre o túmulo de Benigna, ao final da missa concretizada ao meio-dia, houve esse enlace. A senhora olha a câmera, após ter deixado suas flores, duas crianças fazem o mesmo. O olhar dela é vivo, o dos meninos também. Em meio ao tumulto que se fazia ela parou e, antes de encarar a câmera, olhou as crianças, como quem olha o amanhã.
As vestes da imagem difundida de Benigna tomam conta da cidade, adultos e crianças assumem o vermelho e as bolinhas brancas. Assim, no meio da cidade, em uma rua pacata, e com pouco movimento, estavam dispostos para comercialização os vestidinhos com suas marcas. Pendurados à espera de quem os levaria para festa, para caminhada, para o sol.
O início da tarde é marcado pela caminhada conjunta até o local do martírio de Benigna, a multidão de romeiros ajunta-se e segue para a cacimba. Na imagem a representação ideal da criança na romaria, levada pelos pais e ancorada por eles. A menina da fotografia aguardou, pacientemente, a mãe, que se ausentou do local por alguns minutos, até que ela regressou e seguiram juntas, olhando os detalhes, conversando sobre o que se via em volta, as pedras do caminho. Juntas, chegaram à cacimba.
Na romaria de fé, também há dor. Andar pelos espaços da cidade é deparar-se com a exaustão da criança, algumas, sozinhas. Expostas ao trabalho, acordaram cedo e carregam o peso dos isopores carregados de água, sorvete… Eles estão em toda parte, seus olhares representam Benigna, é um olhar de sofrimento. A caminho da cacimba este jovem parou, sentou-se nas pedras e observou todos passarem. A fitinha em seu braço, sua feição, seus pés, as pedras que tanto machucam. Ele parou e ficou olhando o romeiro passar, para alguns ele era invisível, nem fé nem água.
Travestida de Benigna, ela sorri para fotografia. Enquanto a maioria chegava à cacimba, ela já regressava, em suas mãos, trazia a água que é sagrada e, também, profanada. Agarrada as garrafas ela diz que vai guardar, levar para casa. A mãe estava ao lado.
Após o roteiro do martírio é preciso seguir atravessando por terras privadas, minas de pedra cariri. As pessoas seguem em grupo, neste momento surgem, de fato, muitas crianças, sempre ancorados pelos pais, devido a necessidade de transposição de cercas de arme farpado. Durante a caminhada de volta ao centro de celebrações, passando por uma das minas, uma criança soltou-se das mãos da família e posou diante da foto, todos seguem e ela fica, o bebê se inquieta. Entre tantas ela é Benigna.

Trabalho desenvolvido na disciplina Fotojornalismo -2019.2

Equipe: Gabriela Bernardo; João Pedro; Lidiane Laíse; Paulo Junior; Vitor Gabriel.

Paulo Junior

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Apenas um estudante, um aprendiz dos dias e do jornalismo.

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