Minha experiência num retiro Vipassana

Patricia Cardoso
Jun 27, 2018 · 21 min read

Quando eu, Belchior e todas as minhas paranóias vivenciamos um retiro de silêncio absoluto e meditação por 10 dias.

{ atenção: este texto é um diário relativamente íntimo. Se você não gosta deste tipo de relato leia apenas os blocos de textos assinalados com um > no início. Há muitos spoilers também, caso queira ir ao retiro sem saber como funciona, não leia este texto }


A primeira vez que ouvi falar em Vipassana foi há pouco mais de 3 anos.

Depois de passar por um período onde pela primeira vez observei os sintomas da raiva que sentia após uma situação, encontrei um texto budista explicando nossa relação com esse tipo de emoção e aquilo bateu tão forte que acabei o compartilhado no Fb (vai que ajuda alguém?) e uma amiga, Fernanda, viu e me chamou. Embalamos um papo e ela me contou que havia voltado de um retiro e que talvez eu pudesse gostar da experiência. Fiquei interessada. Nessa época eu morava na Nova Zelândia e lá também há retiros, mas como em qualquer lugar estão sempre lotados.

Nunca tirei a Vipassana da cabeça, mas ao mesmo tempo sentia que não era hora de mergulhar num rolê na qual não tinha a menor vivência: a meditação.

Passei esse tempo todo flertando com as idéias budistas mas foi no início deste ano (2018), depois de entrar num ciclone de emoções onde eu me sentia irreconhecível em minha própria pele que decidi procurar uma vaga. Se estava caminhando por lacunas emocionais onde eu jamais pisara, não seria um retiro que me tiraria a minha não-paz. Talvez o contrário.

Consegui me inscrever no início de Fevereiro e, como o tempo voa, Junho chegou. Eu continuava sem meditar mas estava tranquila com a idéia de passar tantos dias em silêncio e fui de coração aberto.

> Quando vc se inscreve num retiro eles pedem para que vc leia as regras de conduta e uma delas é não levar livros, não usar celular, não ler ou escrever e nem usar roupas piriguéticas. Fiz uma malinha super simples contendo moletons e pijamas e fui na paz de Maomé rumo a cidadezinha na Bélgica onde meu retiro rolou. Ao chegar, vc preenche uma ficha simples (confirmando inclusive que leu as regras do retiro), entrega seu celular e documentos e recebe o número do seu quarto. Eu confesso que estava animadona pra entregar o celular porque fico TANTO com esse negócio na mão que seria uma paz pro meu cérebro. E foi.

No quarto conheci uma das minhas parceiras de retiro: Noelia, uma argentina professora de yoga e fanzona de Paulinho Moska. Embalamos um papo legal e ela foi a única que conheci + a fundo antes do voto de silêncio. Depois chegou uma menina francesa cujo nome não gravei, uma morena com feições asiáticas e duas loiras. Uma delas eu tinha certeza ser alemã. Com o passar dos dias saquei que meu quarto era o das meninas mais jovens e que a média de idade das pessoas do retiro eram de 45–70 anos.

Logo em seguida veio o jantar, uma palestra relembrando as regras e plim: o retiro começara alí. Ninguém mais deveria falar com ninguém, devíamos evitar contato visual e em meia hora seria a primeira sessão de meditação. Eu me sentia calma mas sabia que não estava: minhas pernas não paravam de se chacoalhar sozinhas, sabe? Um horror.


> Os centros onde acontecem os retiros tem mais ou menos o mesmo formato: ficam afastados do centro da cidade e em meio à natureza, possuem dormitórios separados para homens e mulheres e uma grande sala de meditação. A primeira vez que entrei alí foi um momento tão chocante que a imagem vai ficar no top 5 de memórias visuais marcantes da minha vida. Pense numa sala enorme, luz baixa, silêncio total. Como há segregação entre homens e mulheres, há colchonetes simétricamente organizados para cada grupo e quando entrei, os homens já estavam sentados em posição de meditação e a professora estava na frente, imóvel como um Buda. Atrás dela haviam duas luminárias mas as luzes eram tão baixas que praticamente só se via a silhueta do corpo dela. Eu fiquei absolutamente chocada e infelizmente nunca vou conseguir descrever essa cena direito, mas me arrepio só de pensar.

Claro que a primeira sessão de meditação foi um horror. O curso originalmente é dado em inglês e o professor, Goenka, é um indiano que tem aquele sotaque onde eu entendia palavra sim, palavra não. Também não conseguia ficar naquela posição nem por 10 minutos e era um tal de estralar de dedos que dava pra notar que todo mundo tava apavorado. Pra ajudar, eu vinha ouvindo uma música do Belchior no repeat há mais de uma semana e naquele desconforto todo -tentando seguir a primeira instrução de meditação- a única coisa que fluia era a voz do homem cantando, em alto e bom som:

Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção, esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão. Eu quero um gole de cerveja, no seu cooooooopo, no seu colo e nesse bar

😳 Um horror! E assim segui, tentando me manter sentada, cantarolando Coração Selvagem e respirando como se nunca houvesse respirado antes. Alí minha coluna também começou a doer e me bateu a preocupação: vou dar conta dessa treta, gente? Essa 1h de meditação pareceu durar três meses, sério. Saí desnorteada. Eu e aparentemente a galera toda.


> Nos dez dias de retiro você aprende/conhece três meditações: Nos 3 primeiros dias Anapana (que é observar a respiração em três etapas diferentes), no quarto dia é introduzida a Vipassana em 7 passos e no final, Metta, que é a meditação do amor e da alegria. Outra coisa é a rotina monástica: acordamos às 4am, temos cerca de 11h de meditação diária (com paradas de 5m entre elas); pausa pro café da manhã, almoço e chá da tarde e no final do dia, temos uma palestra. Às 21:00h termina a agenda e às 22:00h as luzes se apagam. É tão puxado que eu fiquei super cansada e tive dores de cabeça várias vezes. Vipassana não é descanso.

dia 01:

Claro que apesar de estar ciente da agenda, fiquei levemente apavorada com o fato de acordar às 4. Quem me conhece sabe que tenho noites de insônia e o muitas vezes prego os olhos às 3am. Como pode dormir 3 e acordar 4? Só que o dia zero foi tão incomum que saí da sala de meditação e desmaiei na cama. Ainda era a instrução 01 da Anapana: observar o ar que entra e sai pelas narinas, mas acabei observando dezenas de coisas no meu corpo que só o silêncio e a imobilidade me permitiu: Uma delas foi que sustentar a postura é muito difícil mas quando estou retinha, resolvo um problema que nunca foi resolvido em tantas sessões de fono e aparelhos dentários: deixo de empurrar os dentes com a língua (um hábito que não tenho controle) e tudo se resolve. Coluna e pescoços alongados bastam ❤. A gente vai percebendo coisas que profissional e diploma nenhum viram.

E fica muito claro o quanto a mente berra no meio do silêncio total: Belchior continuava cantando em voz alta, mas os pensamentos andavam mundo afora e concentrar na meditação era bem difícil. No final do dia sobrou cansaço, dores leves e tentativas de se encaixar na Anapana.

dia 02:

Achei o segundo dia mais pesado que o primeiro. Como tudo é novidade, o primeiro acaba tendo um certo brilho, uma interessância, mas no segundo vc sabe que vai repetir tudo de novo e lidar com a cabeça começa a pesar. Ela não silencia nunca, não acalma, não dá espaço pra meditação e Belchior continuava cantando a mesma música em looping. Comecei a me incomodar com o excesso de barulho interno e a sensação de que sou uma bagunça desgraçada por dentro bateu forte. Eu pensava em tanta gente diferente, fui a tantos lugares, dançava entre memórias passadas e vontades futuras que fazer aquela coisa simples estava se tornando a função mais difícil dos últimos tempos: se manter no tempo presente e respirar. Quando o sinal tocava avisando que era pausa de descanso eu vibrava, era um tempinho pra sair do inferno que sou eu por dentro.

No tempo livre a única coisa liberada era caminhar e eu passava o tempo observando plantas, ouvindo o som das abelhas (haviam MUITAS abelhas lá), paquerando as macieiras todas carregadas e cheguei a ponto de achar graça nas moscas que raramente pousavam no meu braço. Como andam delicadamente!, pensava. -Volta aqui, mosca! Nisso, bate rapidamente a sensação do quanto somos dependentes e viciados em todo e qualquer tipo de distração. Quando não tem o que ler, o que assistir, com quem conversar ou algo pra produzir, vai sobrando só a gente mesmo. Os problemas saltam, as dores voltam, alguma saudade bate e não tem escapatória, vai ter que se encarar.

-Como teria sido minha vida se tanta gente não tivesse interferido? E se eu não tivesse visto propagandas? Será que eu teria essa profissão? Será que usaria este cabelo? Porque postei aquilo no Instagram?

Fiquei meio agoniada com as reflexões internas mas no final do dia a palestra foi tão boa de ouvir que voltei e meditei com muito afinco. Pela primeira vez eu pude me conectar de fato com a prática e fiz os 45min na minha maior inteireza. Eu, Belchior e minhas paranóias, digo. O que mudou é que eu decidi acolher quem eu sou e lidar com tudo isso, ao invés de ficar brigando com minha mente pelo jeito que ela se comporta.

> Vipassana é uma técnica de meditação cujo lema é “ver as coisas como elas são” e a meta é que você deixe de sofrer. A idéia é observar as sensações que as emoções causam no nosso corpo e lidar com elas de forma equânime, ou seja: nem se apegar as sensações boas nem explodir com as ruins. A parte mais legal é a da observação. Como o retiro não é religioso (não há ritos ou rituais) o negócio é quase científico, é matemático, é 1+1=2.

E a gente experiência tudo na pele. O barato é louco.

dia 03 | a prisão:

Apesar das dificuldades de se manter por tantas horas meditando e lidando com a cabeça louca, eu me senti feliz e em paz durante quase todo o tempo.

Mas talvez por ter meditado legal na noite anterior, iniciar o terceiro dia sem a menor sincronia com a técnica foi como pancada. Achei que poderia caminhar numa linha evolutiva mas saquei que fazer retiro é quase uma montanha russa e eu estava lá embaixo, arrastada.

Nesse dia também bateu forte a sensação de prisão.

Na palestra do dia 1, em certo momento é nos lembrado que é importante completar os 10 dias e que não devemos ir embora. Que podemos pensar que estamos numa ~prisão~ e eu achei a analogia engraçada e apropriada. Então durante o almoço do dia 3 eu tive a primeira vontade de ir embora. Aquela mesma comida… as pessoas mudas, aquela dificuldade toda de meditar, a rotina dura.. Eu quis fugir e não podia.

Comecei a imaginar o quanto deve ser horrível viver numa cadeia. Eu tinha 7 dias pela frente mas há pessoas que passam anos, décadas numa sala minúscula em condições sub humanas sem a menor perspectiva de horizonte: não tomam sol direito, não aprendem nada muito útil, não melhoram seu estado emocional, não-nada-e-ponto. Quis chorar.

Durante a meditação, apesar do esforço para manter a mente no lugar fiz um tipo de prece pensando nas pessoas que estão nas cadeias. Veja bem, não tenho religião mas desejar uma vida melhor para os outros independe de frases prontas repetidas em orações. Fiz do meu jeito.


No final da tarde do dia 03 apareceu uma gata frajolinha no meio do sítio e foi tão bom ver aquela bichana que ó: ❤ 🐱.

dia 04 | Vipassana:

A coluna estava funcionando bem melhor do que eu pude imaginar, mas no dia 04 acordei com ela ardendo. Eu pensava constantemente em Gabriel, quiroprata que trouxe sanidade à minha vida ao salvar minhas costas de dores constantes e remédios que queimavam o estômago. Gabriel tem mãos enormes e máquinas estranhas mas alí não havia pra quem chorar.

Curiosamente, a instrução do dia ainda era prestar atenção nas sensações que iam surgindo numa devida parte do corpo e eu decidi tratar a coluna da mesma forma que estava tratando o restante: observando e não reagindo à dor. Passei a ignorar aquela sensação e fui investigar outra parte solicitada. Agora cês vão achar que eu tô locona e mentindo: a dor na coluna simplesmente sumiu por completo minutos depois. Antes doía de cima abaixo, inclusive a lombar, mas sumiu feito mágica.

Não entendi nada. E isso não mais se repetiu.


Na tarde do dia 04 fomos iniciadas a Vipassana e alí rolou o ponto alto do meu retiro. Como as instruções de observação das reações do corpo|meditação vão se ampliando, pela primeira vez fiz uma conexão tão incrível comigo que chorei a ponto de molhar a blusa. Eu sentia cada parte do meu corpo vibrando: rosto, pescoço, ombro, braços, barriga, pernas e uma energia imensa ia tomando conta de mim que não consegui me conter. Há tempos queria uma experiência assim e pela primeira vez rolou, só que rolou muito mais forte do que eu pude desejar. É muito louco meditar seguindo instruções e isso me levou a outro ponto que eu já vinha explorando: temos dentro de nós todas as potências e possibilidades, então porque diabos vamos atrás disso em outros lugares/pessoas se temos tudo dentro de nós, muitas vezes inacessado? (independente de qual intenção/do que procuramos)

Ampliei esse pensamento pra mil outras coisas e a conclusão é que se conhecer e se experienciar não tem preço.


lanches e memes:

As refeições eram um dos momentos mais interessantes do dia e eu amava observar. A comida era simples mas nunca faltava, nem sobrava. No café da manhã: chá, leite, mingau de aveia, um poncho de maçã com uva passa (coisa assim, nunca havia visto aquilo antes), pães e alguma fruta. Todo dia igual. O almoço variava diariamente, sempre num cardápio vegetariano com comida quase sem tempero, uma fruta e chá. Já o lanche da tarde era minguado: chá e fruta.

Aquela era a última refeição do dia mas o problema vinha um pouco antes: As sessões de meditação são tão silenciosas que, mesmo com cerca de 100 pessoas na sala, a gente só ouvia o som dos passarinhos que povoam as árvores. Mas durante a tarde podíamos também ouvir os estômagos roncando numa certa sincronicidade ao redor da sala. Rooonc aqui, rooonc alí.

Eu apelidei esse momento diário de “a sinfonia dos famintos

Daí que após essa sessão de 3h a galera saía no giro do loco sentido cozinha. Via passos apressados e uma pequena fila ia se formando, mas em seguida, quando víamos que não havia nada novo (nem bolo, nem pão, nem nada pra comer) só chá e maçã ou pêra, o horror tomava conta do rosto das mulheres. Era engraçado e trágico ao mesmo tempo. E era sempre um chá de lavanda, que tinha cheiro suave mas gosto de nada.

Apelidei o chá da tarde de “um chá de lavanda e ódio”, risos.

Eu confesso que fui uma das horrorizadas, mas à partir do terceiro dia quando vi que não ia mudar, aceitei e passei a comer menos. Aliás, quase não senti fome durante esses dias. Meditar cansa mas não gasta energia, então era de boa ficar com tão pouca comida no corpo.

dia 05 e 06 | homesick:

Nos dias 05 e 06 voltei a ter vontade de ir embora. Aquela rotina pesada, as muitas horas tentando meditar e o tempo que não melhorava (ficou chuviscando durante quase todo o retiro ) bateram novamente de frente com aquela sensação de prisão.

Fiquei lembrando de Ingrid Betancourt, ex candidata à presidência da Colombia que foi sequestrada pelas Farc e ficou cerca de 6 anos presa numa floresta na selva Colombiana. Eu não terminei de ler seu livro (Não há silêncio que não termine — Cia das Letras) mas nunca me esqueci dos relatos que ela fazia sobre as fugas que planejava: o horário perfeito, a troca da guarda das Farc e todas as vezes que as fugas deram errado ressurgiam na minha memória. A mente é um lugar tão maluco e às vezes desconhecido que bastaram pequenos insights pra eu acessar coisas que não remexia há tempos.

E amplie isso pra tudo. Ficar sozinha (mesmo em grupo) tem dessas coisas.


migas:

As minhas colegas de quarto eram seres que me causavam muita curiosidade. Uma era Noelia, a única que eu tracei algum contato e tínhamos uma relação de parceria silenciosa: não nos falávamos, mas andávamos juntas, dividíamos o despertador e sempre que dava sentávamos perto durante as refeições. Nós trocávamos olhares, burlando uma das regras.

-A francesa foi o ser mais irritante e frio durante o retiro: não olhava pra ninguém, cumpria toda a rotina de meditação na sala principal [há momentos em que vc pode meditar no seu quarto e parte da galera corre pra lá, até pra aliviar as costas — eu era desse grupo (e às vezes acabávamos dormindo tbm)] e a francesa lá, impecável na postura. Eu comecei a “zoar” pensando: -certeza que ela foi a primeira bailarina, certeza que ganhou medalhas na escola, risos.

-A mocinha com feições asiáticas tinha o melhor guarda roupa do retiro: vestia um color blocking engraçado com meias pink ou amarelo florescente, tinha tatuagens fofinhas e era uma das que desmaiavam na meditação matinal. Éramos as losers do quarto =)

-A alemôa, fui aos poucos notando que ela era mais nova do que aparentava inicialmente. Na primeira vez que a vi achei que fosse uma senhora, mas depois saquei que era só a cor de tinta de cabelo, porque pelo rosto ela era muito jovem. Não tínhamos contato mas ela sempre nos comprimentava com o olhar quando entrava no quarto.

E por fim, a hippie. Tinha uma hippie no meu quarto que era a pessoa mais barulhenta daquele retiro. Pense que no meio de um silêncio total todo mundo abria e fechava a porta com cuidado mas ela SEMPRE batia a porta ao fechar e abria agressivamente, não se importando com nada. Ela tbm pegava o copo e, ao posicioná-lo na prateleira, soltava o copo e sempre fazia um barulhão. Passei a chamá-la de BRUTA.

Mal colocavam a mão na maçaneta e eu sabia se era uma das outras 4 meninas ou se era a Bruta. Comecei a rir de mim, julgando as garota. Bruta nunca sorria, tinha um olhar meio triste e eu comecei a ficar preocupada com ela. Não devíamos falar nem trocar olhares com ninguém, mas como a cama dela ficava de frente pra minha, era impossível não olhar praquela menina que vestia sempre um casaco vermelho e usava um lenço vermelho no cabelo. Passei a chamar a Bruta também de Chapeuzinho. Bruta Chapeuzinho não tinha limites e acredite: ela usava uma tornozeleira que tinha um GUIZO e toda vez que ela andava, aquela porra de guizo fazia barulho 😂. A assistente da professora pediu pra ela retirar a corrente porque estava atrapalhando as meditações mas o treco não saia e ela passou a andar com uma meia no pé do guizo. Pronto: Bruta Chapeuzinho Sininho.


No quinto dia tivemos uma nova instrução chamada “strong determination”. na qual a idéia é fazer a meditação sem se mexer completamente, ou seja, sem mudar a posição das pernas, dos braços e não abrir os olhos. A primeira vez que fizemos isso foi um dos momentos mais duros do retiro. Ao final todo mundo saiu da sala num estado de horror completo: como é difícil!

Nesses momentos, além da dificuldade de aquietar a mente e meditar, aparece também a dificuldade de aquietar o corpo. Eu, por exemplo fico me mexendo todo instante, coçando a pele, estralando os dedos e mudando a posição. como é difícil repousar =(


Nem toda sessão de meditação era fácil pra mim. Pra ser honesta, nenhuma era, mas eu em algumas eu tinha energia pra me esforçar e seguir as instruções e noutras, enquanto já muito cansada deixava a mente viajar e ia seguindo o fluxo. Visitei tanta gente e ~escrevi~ tantas histórias que essa uma hora passava rápidamente. No final eu me sentia meio mal de ter desperdiçado aquela sessão mas saquei que isso sempre acontecia no final do dia onde eu já estava bem cansada. Só me restava dormir mesmo.

dia 07:

Rotina é rotina mas acordar às 4am nunca é fácil. Nesse dia caminhei pra sala de meditação cantarolando Racionais: aqui estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia. 😂 Surpreendentemente eu conseguia meditar das 4:30 às 5:30, mas na hora seguinte sempre estava muito relaxada e começava a dormir pela sala. Era um terror tentar me manter acordada no meio daquele silêncio absoluto e às vezes voltava para o quarto. Um erro, porque dormir era inevitável =(


Comecei a me sentir emotiva. Eu, que estava no meu verão hormonal e em dias comuns estaria dançando pela sala de casa sem motivo passei a ficar um tanto sensível. A questão é que já caminhando pro final do retiro, as ~bobagens~ da vida já haviam passado pelo crivo das minhas observações e só sobraram alí as coisas mais densas da vida. As dores, as frustrações, as pessoas, o trabalho e a família. Chorei várias vezes enquanto meditava e o bom é que ninguém te pergunta o motivo.


Mas o dia 07 estava ótimo e com muito sol e eu sentia uma paz intensa.


No café da tarde, já enjoada de comer 2 laranjas diariamente, decidi caçar algo diferente naquela cozinha. Não é possível que não haja nada novo, pensei, enquanto saí caçando algo. Encontrei a jarra de leite e um achocolatado. Misturei e mandei ver. Eu não tomo leite há muito tempo porque não gosto do gosto, então talvez por isso eu não havia visto aquele bule de leite quente anteriormente mas confesso que apesar de esquisito, não estava ruim. Pra ser honestona, tomei feliz de estar bebendo algo novo em tantos dias.

Naquela noite dormi de conchinha com o copo de leite. O danado se revirava no meu estômago à cada 3 minutos lembrando que eu o bebera com gosto. A vaca sempre arruma um jeito de se vingar. 🐮

dia 08:

Quis casa. Mas não aceitava aquela vontade já que estava na reta final do retiro.

A questão alí era a repetição de tudo e a falta de energia pra entender as instruções da meditação em inglês. Elas ficavam super extensas e eu não conseguia entender tudo o que Goenka falava, então me frustrava. E o pior: na sequência vinha a tradução pra holandês e eu mal conseguia processar o que ouvi em inglês e era atropelada por um mar de palavras inintendíveis. Retiro é administrar a cabeça em várias direções.


A tarde voltei a pensar nos presidiários: como devem ser nos últimos dias antes de sua liberdade? O que passa pelas suas cabeças?

Em seguida engatei os textos que li de Alex Castro. Alex tem uma série chamada “as prisões” que já reviraram meu cérebro e ampliaram algumas idéias que eu já semeava, indico à todxs.

dia 09:

Uma das coisas curiosas do retiro foi ir se desapegando de hábitos, vontades, gentes, projetos de vida e expectativas. Era quase a Marie Kondo da cabeça.

Tentar se manter no momento presente, tentar acalmar a mente e se dar conta que é possível ter controle das emoções/sensações com os exercícios devidamente ensinados à cada dia foi libertador.

Por muitas vezes pedi desculpas à pessoas na qual causei algum ruído, senti vergonha de atitudes que tomei baseadas em um coração descontrolado ou um peito apertado e agradeci à tanta gente bacana e generosa que passou pela minha vida. Mas um dos momentos singulares foi quando me dei conta de coisas que eu havia feito e que não foram legais e pela primeira vez olhei pra mim e me perdoei. Eu acho que nunca havia feito isso antes, deixava essas culpinhas lá num cantinho inconsciente e seguia. Mas pude olhar pra trás e pensar: ok, já fiz. Não é legal e estamos conscientes, agora não repetiremos e segue. Paz de mim pra mim mesma.

dia 10 | Fim do silêncio:

No dia 10, depois do café da manhã podíamos voltar a conversar e isso foi um choque imenso. Todo mundo falava sem parar e chegou a ser cansativo ouvir tantas vozes e histórias. Pude então conhecer as meninas do meu quarto:

-Noelia era Noelia e estava feliz por termos ido até o final. - A alemã é na verdade Holandesa e muitcho lhouca e barulhenta. Se chama Suzanne - A francesa se chamava Karine e riu quando eu a chamei de 1ª bailarina. Ela me falou que já vinha praticando meditação, por isso que conseguia se manter imóvel durante toda a prática. - A asiática, Raffika me disse que ama gatos e viu meu chinelo e logo me reconheceu como véia dos gato tbm ❤ - a Bruta Chapeuzinho Sininho se chama Ibrich, é holandesa e muuuuuito low profile. Uma figura, divertida, doce e não pára de sorrir. Disse à ela que fiquei preocupada porque ela nunca sorria e ela me disse que estava bem, que não havia nada rolando não, apenas a rotina muito pesada. Que bom.


Voltar a falar nos mostrou como o barulho prejudica a prática e o quanto o Nobre Silêncio é importante pro retiro acontecer. Se pudéssemos falar teríamos reclamado da comida, perguntado se a colega acessou tal resultado e passaríamos a noite cochichando no dormitório. Que regra mais genial.


Neste dia conheci Mira, uma mulher da Sérvia que mora aqui em Amsterdam e conseguiu uma carona no carro em que ela veio para mim. Foi tão difícil chegar naquele lugar (andei um trecho imenso!) que fiquei empolgada em ir embora e comecei a ter vontade real-oficial de ir naquele instante. Ainda havia a sessão da meditação da noite, dormir, acordar e meditar 2h de manhã, tomar o café e limpar os dormitórios. Só então depois disso estaríamos liberadas. Eu pirei!

Saí da roda de conversa em que estava e sentei num banquinho ao lado. Daí no instante seguinte pensei: Porra Patricia, talvez vc nunca mais veja essas meninas na sua vida, talvez vc nunca mais pise neste lugar, talvez nunca mais ouça essas vozes. Custa estar no presente? O amanhã vai rolar, sossega! e levantei e voltei pra roda e continuei ouvindo como elas se sentiram naqueles dias todos, que se arrastavam entre meditações e canções do Goenka. Foi difícil para todas.

Outras observações:

  • Vipassana é uma técnica de meditação indiana que existe há mais de 2500 anos. A fórmula original se perdeu na India mas a Birmânia manteve a aplicação correta e foi lá que o professor do curso, Goenka, aprendeu e voltou a aplicá-la na India e depois pelo mundo.
  • Em um resumo bem resumido, a idéia é que vc aprenda a sacar suas reações quando emoções boas ou ruins batem em vc. Que vc saiba lidar com elas e não as jogue de volta pro outro (nem de forma agressiva, nem com apego) e que também não fique com elas em vc sofrendo ou produzindo desejo. É autonomia e maturidade emocional. E a gente só aprende isso se observando, entendendo como nós reagimos e como são nossos padrões. Não jogando pro outro a obrigação de nos preencher, nos resolver, nos dar prazer ou nos fazer felizes.
  • Uma das experiências iniciais interessantes foi conseguir produzir calor enquanto meditava. Eu costumo sentir tanto frio e me armo de tantas possibilidades de aquecimento e lá pude produzir calor apenas respirando. E ver o calor andando pelo corpo é uma coisa muito louca.
  • Tive micro sonhos enquanto meditava, acordada. Isso foi uma experiência inédita porque né, quando antes meditei?
  • A voz de Belchior ficou comigo todo o tempo, mas às vezes intercalando com Letícia Letrux. Eu tentava seguir as instruções mas tive música de plano de fundo 100% do tempo. Alguém aí que medita conseguiu ultrapassar isso?
  • Celular não fez falta nem por 1seg. Ficar em silêncio é fácil, a mente ñ para
  • Nos momentos difíceis eu me sentia fazendo um “curso de estátua”. Conseguia ficar parada mas a cabeça, meudeus, como pode ser um macaco tão louco e desobediente? 🙁
  • A Vipassana anda de mãos dadas com a CNV (comunicação não violenta)
  • A prof assistente (que comentei no início do texto) me causou um choque porque eu vi alí uma pessoa 100% radiante. Nunca antes havia encontrado alguém com aquele brilho no olhar e sorriso na voz daquele jeito, e não estou falando isso porque ela era a professora, mas porque era dela. Que coisa mais bonita de se ver, quero ser assim.
  • Outro momento significante foi quando me dei conta que estava numa sala com mais de 100 pessoas que estavam alí buscando paz. Que louco é analisar isso pq se ampliarmos, BUM! Pensei num tanto de gente que se beneficiaria com aquela técnica e depois pensei: mano, imagine se TODO MUNDO sentasse em meditação? Se todo mundo parasse pra observar suas emoções e o porque reagimos à tantas coisas do jeito que reagimos? O mundo iria pra frente em minutos. Acho que maior parte das tretas iriam acabar, porque se conhecer intimamente é avassalador.
  • Eu vi uma borboleta azul.

Não sei concluir este texto porque há muito o que processar ainda, mas desde já sinto que foi uma experiência muito rica e gratificante. Para ser transformadora, é preciso colocar a técnica em uso diário em todas as esferas da vida, aí sim, o trabalho estará completo.

Voltar pra casa tem sido um baque porque meditar aqui é infinitamente mais difícil do que num lugar apropriado para isso, mas tenho feito diariamente. E nesses momentos me recordo de como me sentia quando estava livre de tudo, quando sobrou apenas eu e minha essência, quando algumas decisões se acalmaram no coração e eu pude sentir uma paz imensa sem querer me apoiar nos outros ou amarrar coisas ou alguém à mim. Liberdade ❤

Pra terminar, vejo a técnica Vipassana como “alcançar a maturidade emocional num nível estatosférico” onde a única coisa que nos restará é fazer o bem e amar o outro. Sem apego, amarras, cobranças, desejos por coisas materiais ou vivências irrelevantes. É fluir e amar.

Com amor e paz, Patricia Cardoso Junho-2018


A Vipassana é um retiro gratuito e sobrevive das doações que os antigos alunos fazem, ou seja, alguém pagou pelo seu curso e você pode financiar o curso de alguém. Eu doei quanto pude, mas gostaria de ter doado 4x o que doei (e ainda teria sido pouco). Você pode se inscrever neste site, há retiros no mundo todo: https://www.dhamma.org/pt-BR/index.

Se vc leu até aqui, clica aqui embaixo no CLAP? Obrigada

Um bom texto menos pessoal sobre o retiro:

https://medium.com/@marcelofirpo/o-que-eu-aprendi-num-retiro-de-dez-dias-de-medita%C3%A7%C3%A3o-1312061928b9

Patricia Cardoso

Written by

textos sem pretensão de serem bons.