P. Moura
P. Moura
Aug 25, 2017 · 2 min read

O abstrato de nós

Eu pinto a nossa história com cores vivas no estilo óleo sobre tela para mais tarde emoldurá-la em Carvalho desgastado.

Tudo isso com o intuito de embelezar e eternizar um clichê comportamental de um relacionamento na verdade feio, mas que tão bonito desenhei dentro da minha mente. Mente essa tão a frente do seu tempo que projetou um falso nós futuro que não passou de um rabisco. Irreal.

É que a beleza da arte mora no íntimo do artista. Mas a realidade cruel é assassina do eu lírico que lindamente se projeta na arte da tela ou da rima, naquele processo de autoconhecimento externalizado e material, mas que nunca corresponde cem por cento com o que existe aqui em nós, aqueles que sentem.

Pregados na parede e impregnados no meu passado agora estamos. E coloridos. Como um troféu de sobrevivência ou algum tipo de certificado de amadurecimento douradamente escrito com letras de caligrafia antiquada. Daqueles que dá orgulho de admirar, vez ou outra, ainda que no processo tenha havido tanta dor.

Agora somos arte, admirável e tangível. Semi-existimos como uma versão material de um sentimento invisível mas que tão forte me fez artista. E pessimista, quando se trata de amor.

Porque assim como o que a realidade faz com o eu lírico, você fez morrer o nós lírico que se projetou numa história contracenada por dois. Nunca correspondeste cem por cento com o que existia dentro de mim. Eu, que tanto sentia. Amor.

Finalizo e faço o acabamento da arte de – um agora inexistente – nós. Orgulhosa aprecio a concretização artistica de um sonho outrora morto mas que renasceu com formatos e cores definidos por aquilo que me fizestes um dia sentir por ti. Penduro na parede e lá registrado nos deixo.

Pois te deixei quando me deixaste. Mas fiz de tudo que criei por ti e pra ti, matéria prima para algo bonito.

Porque artista me fizestes, e artista faz poesia, pintura e prosa nascer do feio, como nascem as flores em meio a rachaduras em pedra.

E pra quem sente, pinta e cria, o mundo é infinito. E é sempre bonito sim.

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P. Moura

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P. Moura

Escrever pra (não) sentir. Sentir e escrever.