Alors on Danse


Ou: manual para sentir pena de si…



Levanta, lava, aperta, escova, enxágua, seca, come, engole, tranca, sai, viaja, empurra-empurra, aperta, desculpa, entra, senta, liga, lê, trabalha-trabalha-trabalha-trabalha, esquenta, devora, mija, seca, lava, volta, trabalha-trabalha, desce, paga, espera, chega, larga, vê, ouve, diz, beija, abraça, fode, banho-dorme.

“Eu sabia que isso não tinha terminado” — ele, sentado a beira do prédio, enquanto recebe uma massagem nas costas.

“Você sabia desde o começo. E, mesmo assim, tu vacila e acaba vindo. Sabe que eu devoro vísceras, mas não liga.”— ela, massageando os ombros dele, enquanto sussura ao pé do ouvido. “Eu não estou aqui para salvar você, para fazer valer a pena essa mediocridade que tu chama de vida. Sou musa ao inverso, já avisei.”

Ele se sente como se uma gaiola bem pequena oprimisse seu coração. Já conhece o passo-a-passo: lágrimas, ódio, arrependimento…

“Sabe que eu não esqueço o seu perfume? Nem o desenho dos seus olhos, sua boca denunciando o quão alegre você se sentia ao me ver”— com dois tapinhas nas costas da mão dela, a massagem cessa.

“Isso foi só até você foder com a confiança que depositei em ti”—ela, só-camisola-transparente, se afasta um pouco.

“Não há mesmo uma segunda chance para nós? Eu não pude controlar…”

“Você não QUIS controlar”

“E alguém nesse planeta sabe? Ou quer? Não entendo porque me limitar a um papel, a uma face da sua vida.”

“Quer mesmo uma resposta?”

“Quero você de volta, do jeito que der.”

Os dois se encaram por um tempo. Ele entende.

“Eu não vou conseguir ouvir, né?”

…não…

Agora sim. As lágrimas, o ódio, o arrependimento…

Ela corre e o empurra.

Ele, em queda lenta, a vê apoiada no parapeito, com o dedo em riste, apontando, balançando, falando algo… que ele não consegue entender…

Na fachada do prédio, todas as cenas que ele queria esquecer, todas as pessoas que vieram depois dele na vida dela. Tudo, com direito a closes, sorrisos e comentários de um suposto diretor.

O corpo vira no ar, o chão se aproxima e…

Levanta, lava, aperta, escova, enxágua, seca, come, engole, tranca, sai, viaja, empurra-empurra, aperta, desculpa, entra, senta, liga, lê, trabalha-trabalha-trabalha …

“Eu não aguento mais” —ele é servido em uma mesa, á beira de um lindo riacho. O verde predomina nesse quadro.

“Não há volta. Retornar para o que nunca existiu é impossível” —ela, toda-regata-saia-verão, serve um bolo de frutas vermelhas. A faca contra o sol, manchada, brilha por tempo demais.

“Vez ou outra, me pergunto se o problema foi a minha passividade, o desenrolar das coisas ou só que eu personifico tudo que há de fora-do-padrão”—ele afasta o prato, e bebe um gole de chá.

“Três motivos? Tanta inteligência, horas e horas aguentando tu cagando regra, e no final, tudo gira em torno de ti? Já parou pra pensar que eu simplesmente não QUIS? E que o meu querer/não-querer pode ir além? Acha que é só tu que tem uma gaiola no peito?”—ela retira o prato, e o joga longe. Da mata, uma sombra surge, pega o prato, lambe, e some novamente.

“Você sabe?”

“Eu sou parte disso, como não saber?”

Os dois se levantam, e começam a dançar. Afinal, aqui a música brota dos cantos.

Ele não resiste e a beija. Ela responde com um tapa. A música é interrompida.

“Vire-se”— ela diz, apoiando suas mãos nos ombros dele.

“É agora?”—ele obedece, enquanto sente que deve caminhar riacho adentro.

“É. Tu não se controla. Era pra eu gostar disso, mas tu tira toda a graça”

Ela o empurra. De cara no riacho, ele recebe uma, duas, três… trinta e sete facadas. Entre uma e outra, ele tenta ouvir algo, mas a água nos ouvidos e pulmões tiram a concentração.

Prestes a desmaiar, ele…

Levanta E CHORA, lava, ESMURRA, aperta E JOGA LONGE, escova, SE SENTE SÓ, enxágua, seca, come, engole, tranca, sai, viaja, XINGA, empurra-empurra, aperta O FODA-SE, desculpa SEU MERDA, entra, senta, liga, lê, trabalha-trabalha-trabalhGRITA-QUEBRA-SAI-DESCE-RESPIRA-RESPIRA, CORRE, LIGA, MANDA MENSAGEM, CORRE MAIS, ALCANÇA…
“Temos que conversar, *******”

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