Vingadores: A Era de Ultron

Impressões sobre Vingadores: A Era de Ultron, o novo público fã de heróis e o cinema-evento

Por Pablo Cardoso


Como fã de gibis, daqueles que levava para escola e ganhava uns olhares tortos por isso, é muito legal saber que todo ano perto do meu aniversário a Marvel lança um novo filme. Foi assim com o primeiro Os Vingadores, com Homem de Ferro 3, entre outros. Sendo assim, minha empolgação com a data se mistura com o hype da nova adaptação de herói nas telonas propiciando ao final de abril uma volta à infância.

Esse ano não foi diferente. Quarta-feira fui assistir a Vingadores: A Era de Ultron na sessão de pré-estreia. Penso que blockbusters devem ser vistos em sala lotada, sentindo a expectativa e a reação do público. Faz parte da brincadeira. Como o subgênero “adaptação de HQs” está em alta fiz questão de comprar meu ingresso com antecedência e sair relativamente cedo de casa para evitar atrasos.

Coloquei minha camiseta do Superman, há tempos esquecida no armário, e fiquei o caminho pensando no novo público que curte heróis que surgiu a partir do cinema. Será que esse pessoal migrou para os gibis? Será que eles já vivenciaram alguma rejeição por gostarem do que gostam? Será que os personagens inspiraram ou ensinaram algo a eles? Será que para eles isso não é só mais um entretenimento da moda, de modo que a empolgação se esvai dias depois? Não sei, o tempo dirá.

Curiosas foram as diferentes reações das pessoas ao verem a minha camiseta. Enquanto passava por uma praça, uma criança olhou para mim, puxou o pai para perto e apontou abrindo um sorrisão: — “Pai, olha o super-herói!”. Caminhando para a fila alguns semblantes de reprovação porque estava usando um símbolo da “torcida rival”. Outros reconheciam mais um fã de gibi, como eles.

Falei da camiseta porque ela serve como um símbolo de identificação com o produto. A sessão estava lotada de gente com o tema de super-heróis no peito, seja o reator do Homem de Ferro, os músculos do Hulk ou mesmo uma imitação da roupa do Homem-Aranha (coitados dos que foram ao cinema esperando por uma participação especial do Amigão da Vizinhança, recém-acordado com a Marvel). Soa óbvio, eu sei, mas sinaliza que assistir a Vingadores: A Era de Ultron nos cinemas é ver um filme-evento, ou seja, um pacotão de experiências dentro da cultura pop que vai para além do que é exibido em tela.

O que quero dizer é que o filme é tão martelado pela mídia em spots de TV, trailers, fotos em redes sociais e sites especializados, entre outras estratégias, que proporciona uma imersão que dura anos: começa com os filmes anteriores e suas campanhas publicitárias, passa pela pré-produção, pós-produção, divulgação e culmina no assistir e, não menos importante, comentar com os outros. Sendo assim, o não assistir é se colocar como alguém distante do assunto da moda, um excluído que não participa do papo do momento. Por consequência, torcer o nariz para tudo isso é confirmar essa distância. Assistir e não gostar, então, nem se fala! É pedir para ser o chato.

Dito isso, digo que queria ter gostado mais do que vi em tela. Não me pegou como os filmes antecessores do estúdio. Curti, achei bacaninha, mas nada de extraordinário. Ainda assim, Vingadores: A Era de Ultron não é um filme ruim, longe disso. Ele tem seus méritos no seu design de produção e demais aspectos técnicos (como efeitos visuais, fotografia e design e mixagem de som), que valorizam cenas que parecem ser extraídas diretamente de um gibi, como aquele “plano sequência” logo no início ou quando os personagens fazem atos ou poses heroicas.

Foi o fiapo de roteiro simplório que costura mal as longas e numerosas, mas bem executadas, cenas de ação que me desagradou. Fiquei com a impressão de que amontoaram palavras e desfechos rápidos para entregar uma nova lutinha ou sequência de explosões, de modo que, por algumas vezes, o filme se desenvolve e avança não pelas palavras, mas pelo grafismo das cenas.

Outro ponto falho do texto está no atirar para todos os lados em uma tentativa preguiçosa de emular profundidade. Ultron, o inimigo em questão, é um androide criado por Tony Stark e Bruce Banner e dotado de uma inteligência artificial maligna e superpoderosa. Como era de se esperar, encontramos citações à Pinóquio, Frankenstein e à questão criador x criatura, tangenciando evolução e vida x morte. Todas elas, porém e infelizmente, debatidas superficialmente. O subtexto é apenas insinuado e se sustenta a partir da boa vontade do espectador, uma pena. O que reforça a minha impressão de que a prioridade da história é mostrar, e da forma mais visual possível, como os Vingadores salvam o dia e o mundo.

Falando nisso, não temos dúvidas quanto à orientação de cada personagem. Todos eles, tirando Stark, são unidimensionais. Os “do bem” são bonzinhos e o vilão é maléfico, não abrindo espaço para áreas cinzentas ou dubiedades. Mesmo personagens com background pouco desenvolvidos até então e que ganharam destaque em Vingadores: A Era de Ultron, como Gavião Arqueiro, Viúva Negra e os gêmeos Feiticeira Escarlate e Mercúrio, não têm suas densidades trabalhadas. Ganham passados, é verdade, mas continuam no mesmo patamar de heróis.

Citei o Homem de Ferro porque ele é o único que desperta dúvidas quanto às suas intenções. Ele faz o que faz porque quer o bem ou porque seu narcisismo está falando mais alto? Qual a sustentação das ações do personagem, o moralmente correto ou o que seu ego inflado pede? Ele quer a paz ou quer sua assinatura nos nossos tempos? São dúvidas que aparecem na história e servem para preparar o terreno para Capitão América: Guerra Civil.

Outras dúvidas que ficam no ar são ligadas às resoluções dos problemas. O filme deixa claro que seu tom é leve, uma vez que momentos mais dramáticos são rapidamente cortados por tiradas de humor ou cenas de ação. Ainda assim, as soluções para as dificuldades soam fáceis, artificiais e mágicas demais. Não peço por um didatismo excessivo em tela, como são os filmes dos heróis da DC (principalmente a trilogia O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan), mas sim por um cuidado para não usar e abusar do recurso do deus ex machina. Em um rápido exercício de memória lembro três: o poço em que Thor vai “procurar respostas”, a rápida assimilação de Visão ao grupo de heróis e a reestruturação da Shield bem no momento crítico para salvar milhares (ou bilhões) de vidas.

Em decorrência do abuso desses recursos, temos um filme cuja história não apresenta harmonia entre o senso de urgência e a escala superlativa e crescente de ameaças. O final feliz está assegurado desde os créditos iniciais, uma vez que não tememos pelos destinos dos personagens por sermos constantemente lembrados que eles são plenamente capazes de resolverem seus perigos, basta trabalharem em equipe. Isso depõe contra o próprio produto, já que as eventuais causalidades são tidas como desimportantes e pouco sentidas e, portanto, minimizadas dramaticamente.

Como saldo final, Vingadores: A Era de Ultron é uma adaptação fiel de um gibi, mas infelizmente de uma história longa e com pouco de importante a dizer, como uma dessas megassagas que invadem e ditam o mercado editorial dos quadrinhos. O carisma e o charme dos personagens estão lá para garantir a pipoca, risadas e um bom entretenimento para o final de semana, mas estamos distantes de algo memorável.

p.s.: Há uma cena extra durante os créditos que revela os novos passos do estúdio. Evite sair da sala antes de sua exibição.