Barco à vela, por Leonid Afremov.

Delirantes reais

Miramos alvos distintos.
Até ontem, mirávamos o mesmo alvo,
sonhávamos um sonho comum.
Hoje nossos lemes apontam direções diversas
E ventos poderosos enchem nossas velas,
Impulsionando estes barcos
Que se afastam velozes e silenciosos.

Que espaço haveria para sonhos compartilhados,
Em retas que seguem opostas?
Não, não há encanto possível,
Nem atração suficientemente forte,
Na ilha longe da qual um busca refúgio,
Enquanto o outro busca nela sua morada.

Conheço bem esta ilha para onde vais.
Tive dela o bastante para saber, em meu coração,
Que ela não me basta.
Lá distribuí, colhi e compartilhei sorrisos,
Dança, música, amores.
No entanto, ali vivi longe de meu centro,
Iludido pelo encanto de minha periferia
E da periferia da vida.

Sereno, portanto, imprimo um novo rumo,
À ilha de minha alma, onde retornarei à fonte,
E beberei das águas puras do divino, do silencioso
E do solitário em mim.
Há profundos poços a explorar
E minha alma anseia por estes mergulhos!

Mas compreendo tua decisão, sinceramente.

Conhecestes por incompleto a ilha de que agora me despeço.
Não colhestes nem distribuístes em plenitude
Os sorrisos, olhares e amores por que tanto anseias…
Segue, pois, tua jornada, sem medo e com decisão.
Mas jogue para fora de teu barco
Dores, mágoas e ressentimentos passados,
E vá leve.

Se possível, não se prenda ao encanto da periferia.

Neste caminho não posso seguir-te,
Nem tu podes seguir-me no meu.
Que o Pai Celeste, o Grande Navegante, nos guie
E nos acompanhe em nossas solitárias jornadas.

E que saibamos amar o navegar,
Ainda mais que os portos.

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