DEMOCRACIA, DITADURA E UM POUCO DE VENEZUELA

No livro “Soldado Americano” o general Tommy Frank descreve o sultão Qabus bin Said como “um verdadeiro amigo dos Estados Unidos na Guerra Antiterrorista, com nenhuma maldade, nenhuma agenda secreta”.

Qabus, sultão de Omã desde 1970, é o chefe de estado que está há mais tempo no poder, sendo o sultanato omani a mais longa ditadura do mundo, tendo começado em 1741 com a expulsão dos otomanos e perdurado desde então ao longo dos mais de 260 anos, sempre na mesma família. Nem mesmo uma constituição Omã possui, sendo Qabus o legítimo rei-sol, mas não apenas um rei-sol, é o rei-sol “um verdadeiro amigo dos Estados Unidos”.

Atualmente o mundo possui aproximadamente 50 ditaduras, a maior parte na África e no Oriente Médio, também chegando ao Leste Asiático. Complementarmente, existem os regimes chamados de anocracias, ou híbridos, que são um misto de certa liberdade política e de expressão, mas com um governo que compactua com violações de direitos humanos, como Ucrância, Rússia e Venezuela, por exemplo. Todos os países do mundo, sejam eles nações europeias ou americanas, mantêm relações diplomáticas com ditaduras, considerando que isto é uma condição sine qua non de qualquer estado. Eis que no Brasil ultimamente vem sendo questionado o referido “apoio” a Venezuela.

Nos últimos anos o regime venezuelano tem se deteriorado, tanto econômica quanto politicamente. Dada a situação tremendamente complexa, minha abordagem neste texto possui um foco essencialmente político.

O estopim para a crise atual foi a tentativa de golpe de estado na Venezuela em 2002. Apesar de mal sucedida, é consenso entre especialistas que todo país sofredor de qualquer tentativa de quebra da democracia, tendo ela êxito ou não, demora em média de 20 a 30 anos para recuperar-se institucionalmente, dadas as prisões, perseguições políticas e rasgos constitucionais que seguem a posteriori justificadas pelo estado de alerta que o governante estabelece para que se mantenha a ordem democrática. Exemplo parecido tem acontecido atualmente na Turquia.

Quem acompanhou a cobertura àquele tempo há de se lembrar que os militares tomaram o poder por 47 horas, dissolvendo o parlamento e o tribunal supremo, assim como prendendo Hugo Chávez. Quem assumiu interinamente foi Pedro Carmona, presidente Federação Venezuelana das Câmaras de Comércio, até ser deposto menos de 2 dias depois e ceder novamente o lugar a Chávez, que voltou ao posto após o contragolpe de boa parte da população e de setores militares dissidentes.

O primeiro país a reconhecer o efêmero governo de Carmona, foram os Estados Unidos da América (Por que eu não me surpreendo?), seguido pela Espanha. Eis que voltamos aqui ao ponto inicial do texto e que nos remete as seguintes perguntas: porque o mesmo governo americano que hoje condena o governo da Venezuela, chamando-o de ditatura e impondo sansões econômicas ao país, não o fez e faz para com diversos outros atores políticos ao redor do globo que apresentam regimes tão ou mais vis que o capitaneado por Maduro? Será a democracia o ponto chave do apoio ou não dos Estados Unidos ou de qualquer outro país para com seus pares?

A pergunta, que contém boa dose de retórica e ironia em si, não demanda uma resposta precisa, mas cabe uma pequena citação à Roosevelt, quando informado que o ditador da Nicarágua, Anastasio Somoza, era um homem corrupto e violento: “Somoza may be a son of a bitch, but he’s our son of a bitch”. Parece que para alguns, não importa se há democracia ou ditadura, desde que esteja do nosso lado.