Fear no more, it’s accomplished

Essa frase me atormenta ao passar dos créditos. Nada está completo, pois ainda somos os mesmos e vivemos os mesmos dias maquiados de futuro. O meu medo é continuar a ver o que vejo no reflexo das chamas que queimam as casas de madeira suspensas sobre o rio. E esse medo não há de acabar enquanto houver no mundo quem mande e quem obedeça. O nosso futuro ainda não é a kombi amarela indo para o lugar de onde o Rato veio. Não há peixe fresco, nem o cheiro das ondas na brisa das tardes longas. Eu queria ser otimista como eles foram, e tirar aquela coragem de minhas entranhas, mas não luto nem por mim mesmo na realidade, onde escrevo estas palavras bêbadas às quatro da manhã sob o efeito da lua pela janela.
Liricamente o lixo é o luxo, é o signo da riqueza se assim o disserem. A poesia dos lixões é diferente, onde a fome devora as palavras, e o poeta magro absorve por osmose os ensinamentos de tudo aquilo que foi descartado antes da hora. Todos aqueles, com as pernas de fora catando no entulho a esperança da vida amanhã, pois imortalidade é só pra quem algum dia viveu.
Ao lado de deus, seus pais observam o menino de regata vermelha rasgada com a esperança maior que os sonhos na cabeça. Na vida real, ele morreu ontem por fome, enlouquecido com o desespero imposto, frio no peito, dureza no rosto. O prato raso não contém o espaço necessário pra toda essa gente, a pátria amada não salva a vida do indigente, nem a cadência do samba aguenta a arritmia do nosso peito.
Deus me livre, eu disse dentro de casa, enquanto um homem desconhecido sofria de frio na esquina da casa de um tio filantropo meu. Meu deus, disse minha avó. Desculpa, moleque maltrapilho, meu deus não escuta a tua voz que grita desesperada pelo aperto fundo no abraço da mãe já morta, ou o retorno do pai ausente pela mesma porta da qual saiu. É injustiça, uns vão dizer. Ele vai continuar ali. Se não morrer, a gente salva ele daqui.
Se pra eu não temer isso precisa estar completo, quantos vão estar no chão quando eu puder fazer o certo? A fruta madura não para de cair, um banquete pra fome devastadora que já mata suas filhas, minha mãe, minha pátria amada. Pra você vou ser cristão, mas não pra quem dorme na calçada descalço e correndo no encalço da morte, no bolso o meu veneno, não teve a minha sorte.
