Rato
Acordei no mesmo quarto de sempre, com o mesmo som dos ratos correndo no forro do teto. Aquele barulho conturbado me lembrava que ainda havia um mundo lá fora, que os ratos viviam como eu, de certa forma. Todas as vezes que pensei nisso, ouvi a voz da minha mãe, os olhos verdes cravados nos meus:
-Você é um homem ou um rato?
COmo naqueles dias, eu permaneci quieto observando meus pés. Não era um homem, certamente. Vivia nas sombras, me alimentando das sobras nas ruas, bebendo das amarguras e a cachaça, que me tornavam ainda mais o roedor que temiam. Quando me viam na calçada, as crianças e velhas religiosas atravessavam a rua, atirando em mim olhares e palavras afim de me mandar novamente para o buraco de onde saí.
Porra, eu pensava demais, ainda mais depois de acordar. Levantei e acendi o baseado pela metade, ouvindo meus semelhantes. Na rua, as vozes já estavam altas, os carros surgiam correndo, cheios de gente irritada, largando fumaça pelo caminho e irritando mais uns outros. Minha maldita vizinha já havia ligado seu rádio, que gritava constantemente para nos arrependermos, ou que iríamos todos pro inferno. Eu me perguntava quantos arrependimentos eram necessários nessa vida para que aquele sacana estivesse satisfeito.
Talvez os ratos fossem minha paz. Era bom ter criaturas tão odiadas quanto eu por perto:eu e os ratos, deslocados, odiados, expostos à imundície para sermos chamados de imundos, renegados da luz do sol e da felicidade nos cartazes. Eu preferia ser um rato.
