A Valsa da Mudança

Novos candangos no baile Brasil

Tem uns quatro anos que cheguei na capital. Parece que foi anteontem, eu tava com o pessoal do mestrado na Vigília pelas Florestas. Desci do carro com um violão e cruzei com a Marina Silva na Praça dos Três Poderes. Ela me perguntou se ía ter seresta e eu ri. Éramos ali todos contra o Novo Código Florestal. O trator passou na praça naquela madrugada e nosso barulho não arranhou um veto na Lei.


Lá, Fortaleza, meu torrão natal, é uma capital umbigada como tantas, ensimesmada. Nem somos lá dessa suficiência toda, penso que mais por desinteressados dos pesares e das polêmicas que por qualquer outra razão mais nobre. Parte pelas misérias, parte pela poesia do lugar e da existência distraída. Brasília, o torrão adotivo, é cheia de simbolismo. Aqui corro nas veredas dos conterrâneos que me precederam. Novo candango, me percebo neles, mas a saudade sombreia tudo e por isso nunca encontrei o tempo de dizer coisas gostosas de quando estive ou tive que estar cá.


“Como é que se diz eu te amo?, platéia livre, Legião, volume 1”, dei o play. O play em mim e o pause nas redes. Minha garota dorme o sono do nocaute ao lado. Renato termina a faixa e diz: “vamos torcer pra que as coisas mudem”. Tomei comigo aquela ideia do Galeano de que a História é uma senhora arredia. Tudo muda e desmuda. “No analices!” A gente fica zonzo analisando, andando em círculos de esquinas, alternando a atenção entre o Cruzeiro do Sul no pálio e as migalhas de pão no chão. A pressa e a fome, “o velho que apagado, o novo que espantado” e eu ainda sem vontade de casar.

E se somos ansiosos Severinos, iguais em tudo na vida… eu gostaria de poder tranquilizar um pouco a mim e às pessoas queridas sobre o que nos há por vir. Foi um capítulo bonito da história desse país, que, como a vida, já iniciou minguando. Eu cravo os dentes nos dias e vou equilibrando minha dieta com os pesos e as levezas que o corpo e o espírito demandam e suportam. Já não sou só, mas mais coragem, mais gás pra lutar, mais ajuste com o plural não cairiam mal.

Lembro de quando cheguei aqui e tenho a certeza que as coisas desde lá já não eram fáceis. Meu espírito desejoso do progresso mendiga marcos e conquistas irreversíveis e neles narro nosso curso de sucesso. A verdade é que olho pra gente e tudo em nós é possibilidade: somos incompletos. Há dias massacrantes e marés inavegáveis, como essa agora. A incerteza é tremenda e, contrariados, vamos remoendo e pirando com o que poderia ter sido feito para evitar que perdêssemos a rédea.

Não temos mesmo como prever muita coisa, é verdade, mas no caldo todo desses nossos tempos há novidade e repetição, regularidade e criatividade, surpresa e decepção. Jovem educador, eis minha estratégia: explorarei a radicalidade do pressuposto da incompletude e da consequente educabilidade. Sei que a humanidade é um projeto e que é preciso lançar-se em disputa. Por muito tempo resisti ao termo “luta” e o evitei procurando outro termo mais de acordo com a minha natureza pacifista. Hoje percebo uma fronteira mínima de existência que é a vida em negação à entropia (à desordem do universo) e, assim, uma vez vivos desorganizamos para nos organizar. Pretendo agora, por meus próprios meios, tatear o limiar de convivência com meus antagonistas (aqueles que hoje se organizam para desorganizar-nos), em um acordo democrático de superação da relação de tolerância. É o amor que emerge na fronteira da aceitação temporária. Amar ao próximo, ao ser distante e ao que ainda não veio: este bordão démodé de dois mil anos e mais é precisamente o que demanda a singularidade desses nossos tempos.

Se na política, o novo (e o novo pretenso) ingressa a qualquer hora porque a frustração lá impera, mas depois quase sempre nos ilude, resta-nos recalibrarmos as expectativas, os desejos e os deslumbres. O que faz falta hoje talvez sempre tenha sido escasso e aquilo que sobra, aqui e acolá, quem sabe, ganhe o terreno relegado às novidades. A perplexidade é o desajuste saudável entre o antes e o agora, mas o que ela traz, meus amigos, cabe sempre a nós filtrá-lo.

Esse é meu pedido discreto para que paremos com as campanhas “muda” (change!) e “muda mais”.
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