A empatia como arma de ataque

Sense 8 tinha tudo para fazer barulho. Primeiro, por ser uma série comandada pelos irmãos Wachowski, criadores de Matrix, que revolucionaram os filmes de ação no início do século XXI (embora as continuações tenham sido terríveis). Segundo, pela ousadia do roteiro, que aborda questões como sexualidade e gênero sem ser panfletário. Terceiro, por questionar o status quo, oferecendo uma visão do que significa ser humano em um mundo globalizado onde as fronteiras são, cada vez mais, virtuais.

E, apesar de tudo isso, não vi grandes repercussões online acerca dessa série específica. Admito que eu mesmo levei algum tempo para assisti-la. Tentei uma primeira vez, mas achei tudo muito melodramático e não cheguei sequer ao fim do primeiro episódio. A proposta me pareceu vaga e os personagens, pouco carismáticos, cheios de clichês. Concluí que eu não não era o público alvo e larguei de mão. No entanto, algumas colegas de trabalho viraram fãs de carteirinha dos sensates e me deixaram curioso. Resolvi dar uma segunda chance para o seriado. Acabei vendo todos os episódios no último fim de semana.

Definitivamente, Sense 8 não é para todos. A história começa com uma mulher misteriosa que aparece para oito pessoas espalhadas ao redor do planeta e, por estar sendo caçada, se mata em seguida. Logo, descobrimos que os oito personagens estão conectados e começam a esbarrar nas vidas uns dos outros, com resultados cômicos, estranhos e hipnotizantes. A trama maior sobre uma corporação misteriosa que persegue gente como eles fica em segundo plano durante a maior parte da temporada, embora deva ter mais proeminência no futuro. E esse é o maior trunfo que Sense 8 possui.

Ao colocar o que poderia ser o mote principal da série em segundo plano, os oito protagonistas ganham mais espaço para apresentarem suas histórias pessoais e fazer com que o espectador se preocupe com o destino de cada um deles. Mais do que isso. A narrativa pede que encaremos com naturalidade estilos de vida muito diferentes dos nossos, o que nem sempre é fácil. Cenas de intimidade entre dois homens ou o nascimento de diversos bebês com closes ginecológicos podem afastar parte do público, mas não são de forma alguma gratuitas. Elas estão ali para nos fazer questionar nossos valores, o que consideramos certo e errado e se somos capazes ou não de superar nossos preconceitos.

O grande motor que move Sense 8 por todos os episódios é a empatia, a nossa capacidade de enxergar o outro, de ver além de questões sociais ou de gênero, e oferecer uma mão amiga quando necessário. Funciona do mesmo modo que os personagens tomam controle uns dos outros por breves momentos para resolver algum problema. Eles não perdem tempo querendo saber como fulano se meteu em tal enrascada. Simplesmente assumem o papel principal e resolvem a questão, sem julgamento de valor. Aliás, as cenas em que eles agem como um grupo são sensacionais e mostra uma sinergia muito legal entre os atores.

No geral, a série é muito bem conduzida, oferecendo boas viradas na trama e personagens carismáticos para todos os gostos (literalmente). Por vezes, pode ser um pouco lenta, embora isso pareça uma escolha consciente por parte dos produtores. O ritmo de seriado permite um maior desenvolvimento dos pontos centrais da narrativa, além de render bons debates filosóficos e existenciais. E, sim, isso poderia ficar cansativo, mas as cenas elaboradas de ação impedem o roteiro de cair no dramalhão e dão um fôlego a mais aos episódios. Sem contar que o mistério por trás dos sensate é muito interessante e por vezes me fez lembrar de Os invisíveis, de Grant Morrison, uma das séries em quadrinhos mais subversivas dos anos 90 (que também tinha um transsexual em um dos papéis principais, por sinal, fora a polêmica de ter servido de inspiração para os irmãos Wachowski na criação de Matrix).

Também é uma série consciente do que está apresentando. Em determinado momento, um coadjuvante chega a sugerir que a cultura de determinado país sofre com a influência que os norte-americanos exercem em áreas como cinema, música e literatura. Nesse sentido, Sense 8 funciona como um mecanismo de sedução de mentes jovens para os valores da cultura dominante. O melhor exemplo disso é Capheus, o motorista africano, fã do Van Damme e que mais pede ajuda dos outros sensates para escapar dos inimigos. Não à toa, ele está quase sempre deslumbrado ao interagir com os outros, que levam vidas glamourosas enquanto ele é pobre e não tem onde cair morto. E, naturalmente, Will, o policial norte-americano, assume o papel de macho alfa dos sensate ditando os rumos da temporada. Não podia ser mais claro, certo?

No entanto, não coloco isso como uma crítica. Esse é apenas um dos vários elementos que tornam Sense 8 tão interessante. É uma série antenada com as tendências do momento e com as mudanças que os avanços tecnológicos tem provocado ao redor do mundo. Podemos não partilhar da conexão mental dos sensates, mas temos nossos próprios meios de interação com desconhecidos pela internet. Além disso, qualquer história que tenha a empatia como base central merece, no mínimo, o meu respeito. Assistam! ;)

Show your support

Clapping shows how much you appreciated pablo amaral’s story.