Amigo imaginado

A primeira aparição de Carlos, 
ocorreu durante minha infância frenética. 
Apareceu na figura de um judoca, 
e por inveja das uiaras, afogou-se.

Foi em minha adolescência bipolar, 
que Carlos fez sua segunda aparição. 
Não tinha mais forma física, amorfo 
assombrou-me por intermédio de um livro.

Cheguei a pensar que estava louco, 
dada as aparições constantes de Carlos. 
Carlos o poeta, Drummond de Andrade, 
assaltava-me a noite com poemas obscuros. 
Carlos o guerrilheiro, moreno Marighella, 
sussurrava em meus ouvidos rumores de uma guerra. 
Carlos o xamã, Castañeda nos desertos, 
enviava-me eternos convites psicodélicos, aceito em todas ocasiões.

Fui aprendendo a conviver, 
a figura efêmera de Carlos, mutável 
mutante, metamorfoseada em palavras, 
gestos, elegias e cantos desesperados. 
Ali ele, sempre Carlos, sempre perto 
nem sempre em silencio, muitas vezes 
ruidoso e desajeitado, espalhando 
“carlisses” por todos os lados.

As vezes tropeço em Carlos, 
as vezes o busco na escuridão, 
as vezes o ouço soluçando, 
as vezes um carlos-canção.

Carlos, Carlos, Carlos, 
saudades meu amigo…

Pablo Sola

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