O ano em que usei a espontaneidade para me aproximar da vida e me afastar da morte

Todos os meus avós morreram. Uma geração da minha família se vai e outra começa a surgir. Esse ciclo é natural e só me relembra que tempo é sagrado; devemos usá-lo com sabedoria para dar à vida algum sentido. Na foto, eu e minha tia Nícia – uma doçura.

Podemos ser todos eternos de alguma maneira. O tempo não é gentil com quem não o respeita. Por isso alguns acham que o ano foi bom ou ruim, frutífero ou infrutífero. Porém, no momento em que percebemos que estamos de passagem e somos finitos… Tudo pode ganhar um novo perfume. Precisamos aceitar que vamos morrer em algum momento – seja lá como ou quando – e atribuir algum valor aos nossos momentos.

Viver não deve ser sobreviver. Deve ser dar um preço impagável aos momentos. Deve ser brotar beleza a cada esquina da nossa trajetória – tal qual essa árvore que jorra beleza no meio da Avenida. / Foto: PabloVallejos

Calma. Não tem nada de obscuro ou mórbido nisso, amigo. Se você acha meio down tocar nesse assunto, é porque talvez você viva evitando e negando a realidade mais concreta que existe: vamos todos morrer. Na última edição da revista Vida Simples (jan/2016), a médica Ana Claudia Quintana Arantes fala sobre o tema de maneira muito impecável:

“Falar sobre a morte não é trazê-la para perto, mas uma chance de você avaliar a maneira como está vivendo.”

Numa rápida análise pessoal, percebi que foi a proximidade da morte me cercando nos últimos anos que fez com que eu cultivasse mais vividez na minha trajetória. Fazer com que os segundos valham a pena. Mario Sergio Cortella, filósofo, fala que o que dá sentido à vida é o intento de não apequená-la.

Escolhi a espontaneidade como principal instrumento para engrandecer minha vida e me afastar da ideia de que a morte está chegando. É simples: lembrar que minha história terá um ponto final me faz querer atribuir um novo valor aos instantes e, desta forma, mergulhar intensamente nos instantes e torná-los gigantes, de modo que até o episódio da minha morte (cuja data não conheço) eu sinta plenitude na retrospectiva das minhas ações.

Somos iguais à plantinha da foto: uma figura mínima diante do todo, que, aparentemente, é desconhecido e misterioso. Quanto mais cultivamos nossa essência, mais crescemos e alcançamos novos ambientes. / Foto: PabloVallejos

Ana Claudia, na entrevista para a Vida Simples, resume muito bem o que aprendi há alguns anos:

“O que você aprendeu lidando com a morte? Aprendi a viver. (…) A morte tira o véu da mentira sobre a vida. E a pessoa deixa de lado o que é bobagem e ilusório. (…) E se você tem a consciência da sua finitude, não vai esperar o momento final para se dar conta de tudo que deixou para trás, das suas desilusões.”

A morte é nossa única certeza. Perigosa mesmo é a gama de possibilidades da vida. Quantas coisas podem te acometer nesse tempo em terra? E quantas decisões, boas ou ruins, você pode tomar? Essas incertezas podem virar certezas na medida que você começa a ir para a ação. Tudo vale a pena quando você faz bom uso da vida para torná-la mais longeva, mais saudável, mais prazerosa, mais eterna.

Minha vida, particularmente, ganha longevidade em momentos como esse: transito pela rua e, de repente, esbarro numa “’minifloresta”. Se eu me preocupar somente com os eventos tradicionais da minha vida, estarei reduzindo minha ótica sobre meu entorno. Quero uma vida cheia de pequenas grandes alegrias. / Foto: PabloVallejos

Noutro dia entrevistei Jorge Jamili, um médico que é também monge, formado na China, na Índia e também nos Estados Unidos. O camarada me disse, em termos mais aprofundados e rebuscados, que nossa busca pela felicidade pode nos afastar de doenças a partir do momento que perseguimos os verdadeiros valores da nossa existência – coisas como amizade, amor, afeto, alegria, realização, etc.

Quando lançamos uma lupa sobre as pequenas coisas da vida, a proporção da nossa trajetória também muda. Foi o que aconteceu comigo. Passei a expressar mais meu afeto ou desafeto, deixando claro todos os termos sem deixar pra depois. Passei a abraçar mais forte, a olhar mais nos olhos e dizer mais “eu te amo”. Passei a comparecer e a contemplar muito mais. Portanto, passei a me arrepender menos. Tudo isso sem furor. Tal qual a morte, a vida também tem seu tempo. Acalme sua busca, seja lá qual for.

Acalme sua busca – seja ela qual for. Há um universo dentro e fora de você. / Foto: PabloVallejos

Fato é: o último ano teve gigantesco valor na minha jornada. Talvez seja porque eu comecei a priorizar mais os detalhes do que as grandezas. Mais pessoas, menos coisas. Mais simplicidade, menos opulência. Mais espontaneidade, menos barreiras. Mais vida. Menos morte.

Nesse instante, me fiz eterno.

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