A cidade & a cidade

Vocês já sentiram isso, não tenho dúvidas, e eu sinto sempre também: o luto deixado por um livro muito marcante. Há semanas venho tentando escrever sobre um livro que me trouxe sentimentos muito confusos, ora bons ora ruins, e que entendo como sinal de qualidade da escrita de alguém: causar uma reação no leitor que não seja a indiferença.

O livro se chama A cidade & a cidade, do inglês China Miéville, lançado aqui no Brasil pela editora Boitempo. Ele é conhecido como autor de new weird, mas a obra poderia ser encaixada em literatura fantástica. Aliás, nível Borges de literatura fantástica.

A história é sobre um crime e sua investigação, no melhor estilo noir, do detetive cansado e enfadado e que se vê enfiado num problema muito maior no fim das contas. Porém, o que Miéville construiu para embalar esta história é que é fascinante e perturbador.

Acompanhamos o inspetor Tyador Borlú em sua cidade estado, Besźel, que divide o mesmo espaço geográfico com outra, Ul Qoma, que é completamente diferente em sua arquitetura, idioma, vestimenta, costumes e leis. Só isso já seria motivo suficiente para nossa estranheza, mas piora: ambas cidades são regidas por um tabu milenar que obriga os habitantes de uma cidade estado a ignorar completamente a existência dos habitantes da outra. Quando esse pacto é quebrado, minimamente que seja, entra em ação a Brecha, uma força intervencionista que ninguém sabe explicar como funciona e que é implacável, fazendo a pessoa que se atreveu a ver, interagir, ouvir a outra cidade, desaparecer para sempre.

O inspetor Borlú aos poucos vai nos explicando como funciona esse tabu de “desver”, “desescutar” e “descheirar” a presença dos habitantes e lugares da outra cidade — a maior parte do tempo ele está em Besźel — e o como esse hábito está entranhado nos comportamentos mais prosaicos das pessoas besz e ulqomanas.

Imagine que a rua em que você vive fosse compartilhada com outro país, com construções em arquitetura diferente, carros de outros modelos, com pessoas vivendo e passando por ali com outras roupas, falando outra língua, com outros gestos, e você todo dia, todo o tempo, tivesse que desvê-los, desescutá-los, ignorar que estejam ali, a alguns metros de você, e eles tivessem que fazer o mesmo, sob o risco de serem eliminados pela Brecha.

Parece simples, mas não é simples.

Parece impossível, mas Miéville faz parecer plausível.

Acontece que à medida que fui lendo e mergulhando nesta narrativa fantástica, fui vendo que inúmeras vezes fazemos isso e não nos damos conta. Ignoramos placas e sinais, ignoramos construções, desvemos pedintes ou moradores de rua, desescutamos a discussão dos vizinhos, o culto de outra religião, tudo em nome do conforto, de não ser retirado de sua bolha, de preconceitos, de costumes irrefletidos.

Ao que parece, Miéville se aborrece quando expõem essa característica marcante de seu livro como uma metáfora para as divisões sociais e/ou étnicas comuns em tantas cidades. Para ele isso seria uma redução violenta à experiência entre leitor, texto e escritor; que enquanto ficção uma obra precisa de ter espaço para além das alegorias identificadas, que ela precisa existir e ser vivenciada por si própria para que funcione.

Funcionou.

Vivi Besźel e Ul Qoma com angústia e ansiedade. Tive pesadelos, me pegava praticando o “desver” inúmeras vezes. Foi uma experiência intensa.

O livro A cidade & a cidade entrará para a minha lista das obras literárias sinestésicas, como Ensaio sobre a cegueira, como O Perfume, como Caixa de Pássaros, todas em que trabalharam muito bem a questão da percepção dos sentidos e seus impactos no meio social.

Recomendo fortemente.