Muitas felicidades, muitos anos de vida

Tem tempo não nos vemos.

Desde novembro de 1995.

Muito tempo mesmo, pensando aqui.

Outro dia sonhei contigo, não lembro exatamente o quê, mas lembro que estava igualzinha, com aquela blusa que você mesma costurou, de bermuda jeans e descalça no quintal. O seu cabelo o vento agitava. Estava incomodada, você detestava ele fora do lugar.

Sinto falta das nossas conversas, das muitas horas em que tentava se desembaraçar daquela centena de perguntas que te fazia sobre a vida, enquanto cozinhava ensopadinho de batata com lombo ou alinhavava alguma roupa na máquina de costura ao pé da janela da casa da tia Leda.

No finzinho do ano passado achei uma porção de bilhetes e anotações suas, algumas delas bastante importantes para eu preencher as lacunas da minha vida, coisas que você prudentemente deixou ao lado para eu não crescer com ainda mais rancor do que já tinha no coração.

Rever a sua caligrafia — e tentar reproduzi-la, como eu fazia antigamente — foi muito bom, apesar do teor triste de tudo o que achei escrito por você.

Numa dessas anotações estava escrito com aquelas suas letras agarradinhas umas às outras, sem afastar a caneta do papel, que “o Bebê ganhou uma camisa azul e uma bermudinha branca da irmã de M.”

Achei fofo e ao mesmo tempo esquisito que me chamasse de Bebê e não por aquele nome que nunca gostei.

Sua cautela em colocar data em tudo e guardar o que parecia desimportante me ajudou a reencontrar o meu lado paterno da família que havia perdido no tempo.

Foi uma alegria que eu gostaria que tivesse celebrado comigo.

Ver a minha covinha nos rostos das minhas tias, dos meus primos e primas, na minha irmã, no meu irmão.

É, tenho um irmão também.

Não tem um mês estive com os primos, filhos da tia Rosa, e todos despejaram em mim o amor e carinho que sentiam por você.

O filho da Didi já tem um filho, a Lúcia filhas, a filha da Zilene tem dois, as filhas e filhos da Zaninha também têm os seus filhos e filhas. O Orlando e a Lia tiveram uma filha que parece uma bonequinha. O Rorró apareceu com outras três filhas em escadinha, além dos filhos que teve com a Dulce. O Roberto da tia Yeda tem um filho muito bonito chamado Luan. A Kiki e a Susi têm dois meninos lindos também. A Beth teve gêmeas depois da Alessandra, que já são duas mulheronas e tanto. Deise teve uma menina muito esperta também. O Rafael da Denise já é um homenzarrão.

Toda essa geração nova ouve falar de você quase como uma lenda familiar.

As lembranças que compartilham sobre você são joias que guardam com muito zelo e respeito.

Seria seu aniversário hoje, mãe.

Quantos anos você estaria fazendo? Quantas velinhas eu colocaria no seu bolo?

Faríamos croquetes de pão com carne moída, tia Leda traria aquele manjar de coco que só ela sabe fazer. Dudu faria pizza de sardinha. A gente riria, falaria mal de todo mundo que não veio. A Vovó desceria para te dar um abraço. Quem sabe meu amigo também.

E todo mundo iria cedo para casa e ficaríamos até tarde colocando tudo no lugar.

Quando eu fosse embora, você diria para eu avisar quando chegasse e não saísse para passear com o Tacuba porque já estaria tarde.

Sozinha em casa, tiraria os brincos, os anéis e colocaria em cima daquele seu gaveteiro.

Soltaria um longo suspiro.

Mais um ano.

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