Nossa vizinha

Aqui no prédio eu tenho uma vizinha que é uma querida, a dona Antônia.

Fizemos um arranjo e ela vem uma vez ao dia trocar a água do Tacuba e colocar comida para ele, que acaba sendo muito mais do que isso: como passo muitas horas fora, ela é alguém que faz um pouco de companhia a ele ao longo do dia.

Já propus a ela que o levasse para curtos passeios, que pagaria por isso obviamente, mas ela disse: “Olhe, ele é muito bonzinho mas é arredio às vezes. Vai que pega e foge? Não vou me perdoar. Deurrolivre!”

Ontem era dia de pagá-la e aproveitar para pegar uns reparos que fez numas bermudas que rasguei os fundilhos enquanto fazia exercícios. Ela é uma costureira de mão cheia.

— Oi, dona Antônia, boa tarde.

— Boa tarde, meu filho. E o cachorrinho?

— Tá lá gordo, reclamando que teve que voltar do passeio.

— Hihihihihi -ela não faz esse som ao rir, mas ela ri por tudo, é muito risonha, e acho que a onomatopeia “hihihi” combina com a dona Antônia.- Ele não é fácil, num é?

— Não é mesmo. Aqui está o dinheiro das visitas e da costura.

— Já ‘panho lá pra você. Olhe, desculpa falar assim, mas sabe o que é?

— Tudo bem, o que é?

— Eu acho que bem vi você na televisão. Tarra eu mais Adilson na sala e apareceu você lá.

— Na televisão? Mas quando isso, gente?

— No sábado passado, quando você foi trabalhar.

— Ué…

— Bati o olho e disse: “Mar’olhe, se não é o menino do cachorro, Adilson?” Ele olhou e disse: “Pois é a cara dele, Tonha.” E eu disse: “Mar’é ele todinho. É ele sim.” Hihihihi.

— Ah, então devia ser eu mesmo. Eu tava sentado, não tava?

— Tarra sim. Numa mesa lá, quietinho, com um monte de gente lá falando.

— Era um evento em que trabalhei no fim de semana passado.

— Aaaah, marr’eu sabia! Eu disse pra Adilson que era tu. Que era o menino do cachorrinho lá. Hihihihi.

— Obrigado pelo “menino”, dona Antônia.

— Hihihihi. Marnué? É menino sim.

— Ainda bem que não foi no programa do Datena que apareci, né? Hahahaha.

— Ai, num fale uma coisa dessas que chama. Deurrolivre! Mar’olhe, você tem dado comida pro cachorrinho tem?

— A senhora e eu temos dado, dona Antônia. Não vê como tá gordo? Acho até que temos que diminuir a quantidade.

— Mar’num faça isso. Gordo também sente fome, sabia?

— Aquele lá só sabe comer, é um esganado.

— E é mesmo. É botar a comida e ele come tudo de arrastar o pote. Depois fica lá me olhando. Parece gente.

— Às vezes parece gente mesmo. E ele sabe disso, dona Antônia. Vai se aproveitar da senhora porque ele sabe que a senhora acha isso dele.

— Ele já me conhece. Fica me olhando lá da sala e vem todo manhoso me receber.

— É um manipulador, dona Antônia, não facilite pra ele não, viu.

— Pode deixar. Não gosto de encarar ele não. Dá nervoso. Hihihihi.

— Entendo a senhora. Aquela cara dele é estranha.

— Ai, num fale assim dele, o pobre. Tome aqui tome. Depois me diz se as bermudas ficaram boas.

— Muito obrigado, dona Antônia. Tenho certeza que ficaram ótimas. Boa tarde aí pra senhora.

— Boa tarde, meu filho. Deurroproteja.

E as bermudas ficaram mesmo ótimas.

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