O que sonhavam os neandertais?

Pacha Urbano
Jul 21, 2017 · 4 min read

Outro dia me peguei pensando nas espécies de hominídeos que antecederam a nossa, Homo sapiens sapiens, e me dei conta que várias delas estiveram muitíssimo mais tempo na Terra do que nós. Daí fui pesquisá-las e a que mais me fascinou foi a dos homens de Neandertal (Homo neanderthalensis).

Ao contrário do que pensa o senso comum, conseguiam ser bastante complexos. Tinham linguagem falada, talhavam pedras, esculpiam e elaboravam ferramentas em madeira, conchas e ossos, cozinhavam alimentos animais e vegetais, cuidavam dos seus feridos e enfermos e realizavam cerimônias funerárias, mostrando avançado conceito do simbólico, da vida e da finitude, não muito diferente de nossas populações indígenas atuais. Regina Navarro Lins no primeiro volume de O Livro do Amor, levanta a hipótese de que através de uma ossada de uma mulher neandertal, encontrada em Portugal, descobriu-se que havia sido severamente ferida na infância e que crescera com as marcas desse acidente. Teria sido descartada então a ideia de que esses seres seriam primitivos ao ponto de abandonar seus feridos. Ao contrário, o fato dessa mulher ter crescido com um braço defeituoso seria prova de que recebeu cuidados especiais e portanto afeto.

A prova de afeto mais antiga que temos registro.

Como ocupavam grande parte da Eurásia, dependendo da região poderiam viver em grutas e cavernas, mas também se assentavam em tendas construídas perto de córregos ou rios. Possuíam diferenças étnicas segundo à região de origem e muito provavelmente se reconheciam e trocavam conhecimento, como aprender novas habilidades e novas línguas, lendas e relatos heroicos, geracionais.

Alguns teóricos acreditam que compartilharam com os primeiros Homo sapiens experiências culturais, tecnológicas e mesmo sexuais. Não se sabe como foram extintos há 28 mil anos, mas muitos atribuem não só às vicissitudes do ambiente, mas à sua baixa natalidade e tempo de gestação de seus bebês (suspeitam ter sido de 12 meses) e também pela expansão demográfica, dominação territorial violenta e absorção dos homens de Neandertal através de uniões interespécies com Homo sapiens que migraram da África para a Eurásia, onde predominantemente habitaram. O esqueleto de uma criança, batizada de “Menino de Laredo”, encontrado em Portugal, é prova desta teoria, por mesclar traços cromagnoides (de homens de Cromagnon) e neandertalenses, além de vestígios funerários pertencentes à cultura neandertalense.

Cientistas dizem ter mapeado os genes do homem de Neandertal e poder clonar um indivíduo, mas até hoje não conseguiram quem financiasse tal ação, além das questões éticas que circundam a questão. O que a maioria concorda é que, se existissem atualmente, poderiam misturar-se entre nós e passariam despercebidos, e alguns, se devidamente escolarizados, chegariam ao ensino médio, dadas as proporções do seu cérebro em comparação ao nosso, relativamente menor que o deles.

Fiquei muito tempo pensando a respeito disso. Inúmeras gerações de homens e mulheres de Neandertal povoaram a Terra antes de nós. Multidões de homens e mulheres se relacionando, se ajudando, se ensinando e aprendendo, se defendendo, se digladiando, estabelecendo vínculos parentais, tribais, colaborativos. Formaram famílias e grupos de indivíduos em inúmeras conformações. Poderiam ter sido comunidades poliândricas, totêmicas, ateístas, beligerantes, matriarcais, multiculturais, aglutinando diversas dessas formações, com indivíduos neandertais de várias partes da Eurásia, de várias gerações.

O que será que os mantinha unidos em grupos nucleares? Seriam os afetos desenvolvidos para além da vida prática tribal? Me pergunto se se admiravam com as coisas boas que lhes aconteciam, se se sentiam tristes com seus fracassos e perdas. Se sim, conseguiriam exprimir esse pesar com os seus? Seus sonhos seriam como os nossos, misturando reminiscências do dia, fantasias, desejos reprimidos? No fundo de uma caverna, à luz fantasmal de uma fogueira, coberto de peles e de receios, conseguiriam dormir tranquilos? Descansariam suas cabeças nos ombros dos seus e conseguiriam mergulhar em paisagens mentais fantásticas como nós? Conseguiriam simbolizar seus sonhos e fazer uso deles no mundo da vigília? Como seriam suas risadas? De que ririam? Teriam comidas favoritas? Pessoas favoritas? Apreciariam a beleza uns dos outros? Sobre quais critérios? Quais seriam os gestos mais comuns que usariam para se expressar? O abraço existiria? O beijo?

Nações neandertais podem ter sido erigidas e derrubadas pelo tempo, com leis basilares, tabus, conceitos, simbolismos e superstições. Cerimônias de iniciação, funerárias, de união, de declaração de guerra, de fecundidade. Podem ter havido indivíduos invejosos, ambiciosos, perversos, benevolentes, tranquilos, pacientes, criativos. Habitaram a Terra por cerca de 170 mil anos, o que é muito mais tempo de existência do que nós Homo sapiens sapiens temos sobre o planeta. Quantas haveriam sido as gerações? Quantas tribos? Quantos povos? Quantas teriam sido as lendas? Seriam os seres mitológicos da antiguidade personagens de relatos neandertais passados de geração em geração e sendo por fim compartilhado entre nós humanos? Seriam eles os anjos caídos?

Olhando hoje para a Lua no céu, penso que há milhares de anos um homem de Neandertal teria se espantado com seu brilho, a forma como paira num imenso vazio escuro, projetando sombras na noite, e me pergunto se teria suspirado também, se sussurraria alguma canção, se choraria com saudades de alguém, se se perguntaria sobre o amanhã.

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Pacha Urbano

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