Sobre querer atender bem

Rio de Janeiro, 18h30, cafeteria no Aeroporto Santos Dumont.

Olho em volta e me aproximo de um rapaz que está limpando uma das mesas.

— Boa noite.

Ele continua o que está fazendo.

— Boa noite. Posso fazer o pedido a você?

Ele vira o rosto pra mim, como se fosse uma cabra olhando para outra cabra, e aponta para o balcão com o queixo.

Deduzo que é para eu fazer o pedido ali.

Aguardo numa pequena fila. O rapaz à minha frente ainda tentava guardar o seu troco quando a moça do caixa grita “próximo”. Ela tinha visto que eu a olhava, sabíamos que eu era o próximo a ser atendido, que não havia mais ninguém atrás de mim, e ainda assim ela grita (grita!) “próximo”.

— Boa noite.

Não recebo contato visual e nem resposta.

— Boa noite — insisto, em alto e bom tom.

Como não recebi resposta, continuo:

— Por favor, eu gostaria de um cappuccino.

— Só isso? — ela respondeu.

— Pensando bem, quero um espresso.

Ela fez uma careta de reprovação e deu uma bufada, como se eu fosse uma criança inconveniente.

— Cinco reais e noventa. — e na sequência, vira para uma colega e grita — Café normal.

Entrego o dinheiro, ela digita alguma coisa num monitor. Tudo isso sem olhar para minha cara. Peço:

— Olha, poderia colocar num copo descartável, por favor?

— Não tem copo descartável. Só xícara.

A outra moça coloca entre nós dois um copo descartável, destes de isopor, com meu café espresso (morno) dentro.

Agradeço, dou boa noite e saio dali.

São Paulo, madrugada adentro, parada rodoviária no meio de nenhures (estava ansioso para usar esta palavra).

Me aproximo do balcão da lanchonete e olho para os salgados e sanduíches expostos nos mostradores. Entro na fila.

Uma moça que estava ajeitando os pães de queijo, repara meu interesse e olhando para mim diz:

— Boa noite, senhor. Acabaram de sair. Quer uma porção?

Respondo que apesar de estarem com uma cara ótima, ainda estava em dúvida do que pedir.

— Fique à vontade — disse.

E de fato fiquei.

Chega a minha vez e me debruço no caixa, apoio a plaquinha magnética com meu número de atendimento, típico destes lugares.

— Boa noite, senhor. Já sabe o que pedir? — disse sorrindo para mim outra moça.

— Boa noite. Olha, estou interessado nesse croissant, mas aqueles pães de queijo estão tentadores…

— Saíram agora.

— Então vou de pão de queijo.

— Algo mais? Quer um café para acompanhar?

— Quero sim. Quanto dá tudo, por favor?

— Oito reais, senhor.

Passo a ela o dinheiro e ela me devolve o troco.

— O senhor é do Rio?

— Sou sim. É este chiado, né?

— É… — e riu. — Boa noite e tenha uma boa viagem.

— Boa noite ou bom dia? Nunca sei quando é de madrugada.

— Tá de noite é boa noite, né?

— Boa noite então. Tchau.

— Tchau.

Exponho estas duas situações que me aconteceram recentemente porque acho que tem algo muito errado com o atendimento aqui no Rio de Janeiro. Às vezes justificamos mentalmente a forma como somos maltratados nos estabelecimento por causa do volume de trabalho, do horário de pico, da vida dura das pessoas, mas acho que no final das contas se trata de falta educação e treinamento.

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