O Crime dentro do Crime: três anos do rompimento da barragem do Fundão

Por Marina Praça, educadora popular e coordenadora do Instituto Pacs

Próximo às 16h do dia 05 de novembro de 2015, o desespero começava a se estabelecer como sentimento permanente e profundo na população de Bento Rodrigues, de Barra Longo, dos arredores de Mariana em Minas Gerais e por toda a Bacia do Rio Doce que deságua no litoral do Espírito Santo. Nesse dia, nesse horário, ocorreu o rompimento criminoso da Barragem do Fundão, onde acumulava-se há quase 9 anos os dejetos da produção de minério de ferro da empresa transnacional propriedade da Samarco/Vale/ BHP Billiton.

Três anos depois, no mesmo 05 de novembro, percorremos junto a Léa*[1] e seu tio Paulo* a comunidade, hoje sem vida, de Bento Rodrigues. Ela nos diz: “Somos um monte de mortos vivos”. Por ordem das forças naturais, o dia foi inteiramente choroso, cinza e frio. Passamos as horas em pleno novembro — período já de sol e calor nessa região do país — debaixo d’água. As ruas de terra lamacentas e contaminadas de Bento Rodrigues estavam ainda mais frágeis e fragmentadas pelas águas que corriam. Para os que não sabem ao certo o que ocorreu nessa região no novembro de um passado nunca esquecido, um mar de lama correu desde Bento Rodrigues passando por vários povos na beira do Rio Doce, matando 19 pessoas. A lama passou por cima de casas, acabou com vidas, formas de viver, plantações e tudo o que aparecia pela frente. Um mar de lama tóxica varreu uma comunidade inteira e impactou muitas outras. Um crime sem proporções e sem questionamento para quem vê, sente e ouve as lembranças vivas desse acontecimento que segue matando cotidianamente as pessoas e seus sonhos de viver.

A partir dos movimentos de resistência local e de apoio à luta nos territórios, estamos sempre pendentes para não chamar esse evento de ACIDENTE, evitar falar que foi uma TRAGÉDIA no sentido novelesco do termo. Firmarmos em uníssono e repetidamente que foi um CRIME cometido pelas empresas Samarco/Vale/BHP e legitimado pelos Estados de Minas Gerais e Brasileiro. Essa barragem apresentava problemas desde o primeiro ano de funcionamento, já estava evidente que chegava em seu período de desuso, além de estar localizada em um local de alto impacto e não possuir um sistema sentinela (uma sirene obrigatória) para aviso de riscos à comunidade. Como tanto descaso pode não ser considerado um crime de responsabilidade de uma empresa desse porte e com esse tipo de produção?

Percorrendo o vale que forma Bento Rodrigues vamos vendo outras barragens sendo construídas nos dias de hoje, lagos que foram “surgidos” por conta da produção mineira, e observamos o local onde será realizado o reassentamento de mais de 200 famílias abaixo de um aterro sanitário em período final de fechamento e com monocultivo de eucalipto de diversos anos no entorno. A plantação dessa cultura gera empobrecimento total do solo. São muitos anos de cuidados com a terra, com práticas agroecológicas e agroflorestais, para a recuperação após o plantio de “desertos verdes” de eucalipto. Planejava-se que o projeto de reassentamento estivesse em fase de finalização em outubro de 2018, mas, por hora, ainda está em momento de supressão florestal e terraplanagem. Estão previstos 200 dias para a conclusão dessa etapa inicial. A gravidade da situação é ainda maior quando se salienta que a comunidade de Bento Rodrigues é uma região de cultura tradicional que sobrevivia da agricultura familiar e também do trabalho na mineração.

Cidade em ruínas

Partindo do centro de Mariana, depois de passarmos por estes territórios, chegamos à cidade em ruínas e em estado de morte: Bento Rodrigues. Percorremos as ruas estreitas, o ambiente melancólico, vimos as primeiras casas (não atingidas pela lama) em pedaços por conta de roubos posteriores à desocupação obrigatória declarada pela defesa civil e os restos ainda marcados ou submersos pela lama na região engolida pelo crime. Nosso ponto final do dia foi a Capela de São Bento, que existia desde o século XVI e fazia parte da Rota do Ouro. Nota-se que era uma construção em processo de restauração precário, pois só o que vemos atualmente são pedras, restos de paredes e ruínas sem sinal nenhum do antigo exemplar da memória histórica da região.

Foto: Marina Praça

Por lá, nos juntamos em mais de 40 militantes, solidários, investigadores, de mãos dadas na luta contra a mineração na América Latina, para ouvirmos a fala final de Léa, que expunha sua necessidade de GRITAR, de buscar as brechas de vida e resistência possíveis dentro desse contexto de desumanidade, desastre e descaso. Falava a importância da irmandade, das mãos dadas e dos ombros colocados lado a lado por tantas e tantos que estão presentes nessa luta. Nossa empreitada por Bento terminou com um momento de oração, vindo de dentro de cada um que trazia consigo a dor e a revolta por tudo que pode ser sentido (além de sabido) naquele momento, e com a coletiva expressão que afirmamos hoje mais que nunca no cenário neofacista que se monta no Brasil: “Ninguém solta a mão de ninguém”.

O que pudemos ir percebendo nas conversas com Léa, Paulo e algumas outras pessoas que estiveram conosco ao longo desse dia e dos seguintes é que, em algum nível, o crime da barragem do Fundão trouxe para Samarco/Vale/BHP a possibilidade de ocupar sem grandes impedimentos todo o território onde antes vivia a comunidade tradicional de Bento Rodrigues. A expansão já estava nos planos das empresas. Enquanto há uma política de postergação quando se fala dos direitos das moradoras e moradores, das comunidades, ao mesmo tempo, há a construção de novas barragens e outros artefatos para produção mineral na região, que seguem em processo intenso de estabelecimento e sem atrasos.

Nesse momento, a empresa não está em funcionamento, mas há pouquíssimas esperanças de que ela não volte a operar. Isso parece só uma questão de tempo. E seguindo as contradições da vida, do ser humano e suas coletividades, há um movimento de parte da população de Mariana de apoio à empresa. As atingidas e atingidos que vivem hoje em casas temporárias são hostilizadas e hostilizados por parte da população local como os grandes culpados pelo fechamento do empreendimento, apontado como o principal espaço de trabalho na cidade. Então, gritar hoje “Fora empresas” não é algo comum, pois a necessidade de ser aceito por seus vizinhos faz parte dos desejos dos que já foram negados de viver suas vidas onde nasceram e construíram história e laços.

Loucos de Bento

Um tempo depois da total exclusão de vida de Bento Rodrigues, os que são hoje denominados “Loucos de Bento” começaram a entender que sua sanidade estava totalmente vinculada àquele território, a pisar aquela terra, a se ver novamente em seu lugar de acolhimento. Viam a necessidade afetiva, política e comunitária de ocuparem suas terras. São alguns, não muitos, incluindo famílias e amigos, que, de tanto em tanto, aos sábados, nos fins de semana, quando buscamos estar “entre os nossos”, “descansar”, “rir” e viver” vão para Bento, ocupam alguma das casas em ruínas, as mais inteiras, as primeiras com menos risco, levam gerador, comida, fogareiro e um pouco de tudo para se sentirem BEM e lá desenvolvem e reconstroem seus laços de pertencimento a Bento.

Outubro, 28
As loucuras de Simón
Hoje nasceu em Caracas, em 1769, Simón Rodrigues.
A Igreja o batizou como párvulo expósito, filho de ninguém, mas foi o mais lúcido filho da América hispânica.
Como castigo para sua lucidez, era chamado de O Louco. Ele dizia que nossos países não são livres, embora tenham hino e bandeira, porque livres são os que criam, e não os que copiam, e livres são os que pensam, e não os que obedecem. Ensinar, dizia O Louco, é ensinar a duvidar.
Eduardo Galeano, no livro ‘Os filhos dos dias’, 2ª edição, L&PM Editores, página 34

América Latina Grita: NO a MINERIA!

Nós, as andarilhas e os andarilhos por justiça, lutadoras e lutadores pela vida, fazemos parte de uma coletividade construída para acompanhar esse ambiente de morte por sermos também loucas e loucos pela afirmação da dignidade de territórios espalhados por toda a América Latina. Um grupo composto por 50 militantes e representantes de organizações de treze países, dentre eles: Argentina, Colômbia, Equador, Peru, México, Nicarágua, El Salvador, Bolívia, Chile e de mais de 10 estados do Brasil estiveram acompanhando no marco desta data, de 5 a 8 de novembro, um Ciclo de Atividades organizado pelas seguintes instituições: Articulação Internacional das Atingidas e Atingidos pela Vale, Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, FASE, Movimento pelas Serras e Águas de Minas (MovSAM), Observatório de Conflictos Mineros de América Latina (OCMAL) e Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA).

Foto: Marina Praça
Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!
Fernando Sabino

Os dias junto a toda essa comunidade de luta foram de ENCONTRO no mais bonito que esse termo traz. Foi caminho, dança, escada, ponte e, enfim, Encontro. Se conhecer, se imbricar na história e resistência da outra e do outro, se fortalecer, se RECONHECER no melhor que a companheira/o traz de suas terras e potencializar a luta na criatividade e na força para encarar as mais diversas estratégias de exploração. Em cada um desses países e regiões do Brasil, a realidade vivenciada a partir dos conflitos com a mineração é de descaso, violações, crimes e desumanidade, situações duras de ouvir e de sentir ao ser falado por quem, em pouco tempo, se torna parte de quem somos fruto desse encontro.

Entender o que se passa em cada um desses países e regiões é entender que a história é sempre construída por movimento e que, por mais duro que a realidade possa se mostrar, ou piorar — como tem sido para nós militantes ao longo dos últimos anos no Brasil — a força dos encontros regados pelo corpo que sente, sofre, mas ri, troca afetos, se alimenta da força da natureza entrelaçada com a força humana que nasce dos encontros de sujeitas, sujeitos, lutas e sonhos.

Nesse encontro, ouvi de uma companheira da Colômbia, de uma organização chamada Amigos de La Tierra, que a região de La Guajira, que sofre da exploração de carvão há muito anos, é uma terra indígena do povo Wayuu que se alimenta de sonhos. Para esse povo, os sonhos são significantemente importantes, eles visualizam sua realidade desde o significado mítico da vida. Para os Wayuus, os sonhos falam, permitem a comunicação com os ancestrais e o conhecimento futuro.

Que sonhemos próximos aos Wayuus e sigamos sonhando nossas terras e territórios, assim como a La Guajira.

Crime dentro do Crime da Samarco/Vale/BHP: Fundação RENOVA

Na caminhada como pesquisadora, militante, educadora popular, mulher, fui aprendendo com o tempo como a ressignificação das coisas vem de uma necessidade humana intrínseca a todos os seres humanos de dar conta de seus desejos de manutenção ou transformação das práticas, desde os mais ambiciosos aos mais solidários. A FUNDAÇÃO RENOVA, criada pelas empresas responsáveis pelo crime de Mariana, é um ótimo exemplo disso desde as classes empresarias capitalistas da pior categoria. Mesmo tendo cometido um crime dessa proporção, eles não assumem seus erros integralmente e ficam criando estratégias para que seu crime e a continuidade dele se torne propaganda, lucro, capital rodando em seu benefício. Enquanto isso, centenas de famílias encontram-se sofrendo e resistindo na luta contra o apagamento de sua história e por justiça.

A revolta ao ver o crime se tornar lucro é quase incontrolável. A revolta da apropriação de nossas pautas, de nossas bandeiras e lutas. De ver espalhada pela cidade a “Escola da Renova”, a “Creche da Renova” e tudo mais. Explicita a tentativa de transformar dor, choro e tristeza em lucro. O desejo de manutenção da riqueza construída em bases sólidas de injustiça, desigualdade, desumanidade e dor se mantem vivo e ressiginificado. Criaram literalmente uma forma de Renovar o crime.

Pedagogias de luta feministas

Por fim, não poderia terminar esse breve relato e olhar construído por meio da abertura a essa caminhada e encontro, sem colocar em destaque o lugar das mulheres nessa luta pelos vários cantos de resistência de nossas terras latino-americanas. Principalmente as mulheres lutadoras de Minas que por lá falaram:

“Seguimos em resistência para podermos (re) existir e a minha dor tem sido escola para mim.”

Estivemos, nós mulheres, em roda, trazendo as questões que atravessam nossos corpos-territórios em situações de enfretamento aos megaprojetos extrativistas de morte. As mulheres vivem em múltiplas esferas esses projetos que se amparam na expropriação e exploração dos recursos naturais e das vidas humanas, principalmente, dos corpos femininos negros e indígenas. As mulheres vivenciam essa exploração desde suas várias moradas. Primeiro em seus corpos, depois em suas casas e por fim no impacto em sua família e comunidade.

“Quando escuto a explosão em uma mina da Vale que fica ao lado de minha casa eu sinto meu corpo sendo atravessado por uma angústia que saí do centro do meu peito e explode. Ou eu grito essa dor ou vou adoecendo.” Ouvi isso de uma companheira parte do Movimento Movimento pelas Serras e Águas de Minas (MovSAM) que luta contra a Mineração da Vale na região da Serra da Gandarela próxima a Belo Horizonte em Minas Gerais.

A Red Latinoamericana de Mujeres Defensoras de Derechos Sociales y Ambientales formada por organizações de vários países da América Latina ainda sem representação do Brasil esteve presente em nossa caminhada coletiva e trouxe a força das lutas coordenadas entre as mulheres do Peru, Bolívia, Chile, Uruguai, México, El Salvador, Colômbia e Equador para evidenciar e resistir aos impactos que afetam diretamente as mulheres gerados pelos projetos de mineração. Compartilhou conosco suas práticas e formas de ver e de REXISTIR. Esta, como palavra sensibilizadora que recolhe o sentido da resistência histórica dos povos e das mulheres frente ao modo de vida capitalista, patriarcal e os efeitos de destruição socioambiental gerados por esses modos.

Em Minas, no caso do Crime da Samarco/Vale/BHP, o que mais podemos gritar no âmbito dessas resistências é o absurdo que coloca apenas os homens como sujeitos de direitos de reparação, apenas os “Chefes de família” são os que recebem o dinheiro de indenização temporária e os que respondem aos processos. Gritemos!

Para saber mais:

https://www.redlatinoamericanademujeres.org/ e http://ejatlas.org/featured/mujeres — Mapeamento das afetações sofridas pelas mulheres em contextos de atividades extrativistas e das alternativas construídas por elas

[1]* Nomes fictícios para garantir a segurança local.