Amor de pica e traição

Paeni Ribeiro
Jul 21, 2017 · 4 min read

Ficar com os boys que namoram não é uma possibilidade pra mim. Posso estar falando da água que não bebereis e morrer seca, posso até me afogar. Pode ser que um dia eu mude de ideia, mas pra quem eu sou hoje não funciona.

Eu tento ser dona de mim, embora eu ainda não saiba muito bem o que fazer comigo. Eu tento exercitar a empatia em todo contato que tenho com outros seres humanos, nem sempre consigo, eu sei. Mas eu não vou conscientemente entregar a minha alma por causa de um pinto gostoso. Também não vou entregar meu coração e meus princípios pra quem não cuida dos outros.

Eu sou feminista, isso não faz de mim uma santa e nem alguém especial. Isso faz de mim uma mulher que tem consciência do seu lugar no mundo, e eu não quero esse lugar. Eu quero o mundo todo pra mim e pras minhas irmãs. E quero sem as disputas e comparações que aprendemos que são naturais do nosso gênero.

Disputar um espaço já ocupado e servir de arma contra quem é igual a mim também me machuca e desmonta tudo que é tão difícil construir todos os dias. Eu não preciso colaborar com isso. Também não preciso de um cara machista do lado, mas aí a gente perde um pouco o filtro quando é só por uma noite. É difícil ser a mulher que eu quero porque cada minuto é de luta e às vezes a gente só quer gozar em paz.

O problema é o amor de pica. Ele vem e a gente joga confete em piada infame, finge que não ouviu a objetificação e dependendo do tamanho do amor (ou da pica) até dá um pouquinho sem camisinha se o teu instinto de preservação não for lá essas coisas. O amor de pica faz a gente perdoar o nosso erro antes de cometer ele, deixar acontecer porque rir enquanto transa dá outro gosto pro sexo que era só casual e se abraçar pelado as 15h de uma quinta-feira vale a confusão pra encontrar um atestado fajuto.

As picas sabem disso, vão naturalizar o falocentrismo até a gente acreditar que cada centímetro delas merece a nossa dedicação. Que relações monogâmicas não têm futuro ou que na verdade ela é ex, só não entendeu ainda. Isso se não entrarmos na gama de desculpas do tipo “ela não me faz feliz, mas é dependente de mim”.

Eu não sei quando o amor de pica deixa de ser só de pica, mas eu sei claramente quando ele começa e é ali que ele tem que parar. Não vou correr o risco de machucar outras pessoas por causa de mais um romance que nasceu pra morrer. Qualquer relação heterossexual já vem embalada pelo patriarcado e as que são compostas por feministas e esquerdomachos nos mostram claramente a dor que escolhemos ignorar. Não quero intensificar essa dor em outra mulher.

Namorei quase a vida toda e talvez por isso seja mais fácil de entender. Já me encantei por um cara casado, já tivemos aquelas conversas do tipo “se as coisas fossem diferentes…”, mas eu sempre quis manter uma distância segura por mais que sonhasse em arranhar aquelas costas bronzeadas. Eu não queria que ele sentisse que era fácil machucar a mulher que dividia a rotina com ele, porque pra ele até podia ser, mas pra nós duas seria bem difícil. Enquanto ele ia se sentir duplamente desejado, duas mulheres se sentiriam incapazes de merecer dedicação integral.

Evitar homens comprometidos mais do que sororidade é autopreservação. Pra algumas pessoas a traição funciona e ok, sei que não é por maldade ou vontade de destruir boas famílias cristãs, mas eu torço pra que nenhuma mulher precise disso para se sentir amada. Na dúvida escuta a tua amiga, a tua mãe, a tua referência feminina. Ela vai fazer tu se sentir capaz de receber um amor que seja inteiro e não só alguns centímetros.


Renan só quer uma amante, tadinho.
Bah, sério? Sério, Renan. Eu fico é chocada de tu te surpreender.

Paeni Ribeiro

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Publicitária, feminista e de esquerda. Eu tento fazer sentido, mas a vida não ajuda.

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