Fahrenheit 451; Distopia ou metáfora sobre a sociedade?

A obra que faz o indivíduo refletir mais do que ele queria a respeito das políticas dentro da sociedade

(Ilustração/ Fahrenheit 451/ Ray Bradbury)

Guy Montag vive em uma distopia na qual a circulação de livros é proibida. Uma obra que narra uma sociedade antissocial, sem pensamento crítico e que contem uma vida monótona. O livro foi escrito pelo norte americano Ray Bradbury, o qual fala que a crítica da obra está voltada para a disfuncional sociedade consumidora da mídia televisiva. Nesse futuro, o bombeiro trabalha com o fogo, e não contra o fogo. São eles quem tem a missão de caçar todos os indivíduos que leem livros, assim queimando qualquer evidência de páginas escritas. Para a queima do livro a temperatura do fogo precisa estar a 233 graus Celsios, transformando em Fahreint, 451 graus, dai o nome da obra.

Apesar de Bradbury não falar diretamente que sua obra está ligada a censura, esse movimento é claramente visto na narração da história. O cidadão do universo fictício tem sua rotina completamente moldada pelas tecnologias e pelos chefes empresariais. Fahreint mostra uma sociedade anestesiada com a politica aplicada, uma sociedade com pensamento estagnado e acomodado no monótono vivido. Porém mesmo com a forte manipulação, ainda há aqueles os quais se incomodam e saem do tradicional pensamento. Surgindo os rebeldes, aqueles que iam até os livros, corriam risco de vida, se escondiam entre becos e câmeras. O protagonista Montag revela o seu descontento com a ideologia aplicada e se rebela em meio a tanto autoritarismo.

A primeira versão cinematográfica

Em 1966, o cineasta François Truffaut dirigiu a primeira adaptação da obra de Bradbury para o cinema. O filme já inicia a temática da distopia no momento em que os créditos iniciais são narrados, e não escritos. Truffaut mergulhou naquela realidade ficcional e não fez feio. Montag foi interpretado pelo austríaco Oskar Werner, enquanto que sua esposa, Linda Montag, e a sua vizinha, Clarisse, aquela que despertaria o olhar crítico do bombeiro, foram interpretadas por Julie Christie — sim, duas personagens, uma atriz, outra ótima sacada do diretor, que eleva o papel crítico do telespectador em torno de Montag.

Guy e Linda Montag (Ilustração/ Fahrenheit 451/ François Truffaut)

Partindo da época do lançamento, criou-se o olhar de que Fahreint 451 foi uma fortíssima crítica para o Nazismo. Além da própria censura, que havia na Alemanha de Hitler com a implantação de um Ministério para as propagandas que circulavam, muitos livros foram queimados naquela época. A exemplo da marcha na primavera de 1933 na Alemanhã, quando pilhas de livros foram levados a rua e queimados em público. Assim como no filme, pessoas assistiam a cena com olhares vidrados, igual à realidade nazista. Montag também via ao seu redor indivíduos que “marchavam” em prol do sistema político daquela realidade. Linda e suas amigas criam momentos de lazer com conversas vazias e sem sentimentos. Não há raiva, não há risos, não há medo, eles só dialogam como robôs.

“Você nunca leu os livros que queima?”, foi uma dos questionamentos de Clarisse para o bombeiro, que o fez desperta para a quebra da sua monotonia. Logo depois uma senhora se entrega junto a seus livros, e queima abraçada a eles dentro de sua própria casa, nisso, Montag se desprende de seu papel e busca uma lógica para tudo aquilo.

Vale destacar também a visão de futuro que Truffaut junto a toda produção conseguiu implantar no filme, quebrando aquela ideia de carros voadores e objetos com formatos muito anormais. A fidelidade com o presente é mais verdadeira.

O futuro repetirá o passado?

(Ilustração/ Fahreint 451/ Ramin Bahrani)

Nesse ano de 2018 houve o lançamento de Fahreint 451, direção de Ramin Bahrani. Com Michael B. Jordan fazendo o novo papel de Guy Montag, a população que vive sem livros agora está mais frenética. Aquela sociedade passiva do filme anterior agora grita. “Felicidade é verdadeira! Liberdade é escolha! Ego é força!” e esse é o grito do grupo de bombeiros que Montag trabalha, e que ecoa e é estampado em toda esquina da cidade.

O filme já faz forte alusão aos regimes autoritários da história quando mostra crianças uniformizadas ouvindo todo o discurso dos bombeiros. Há também a imagem do herói, aquele para ser visto como exemplo, e este seria Guy Montag. Uma grande diferença entre o filme de Truffaut e o de Bahrani é a reação dos rebeldes (os que faziam o uso de livros). Nesse filme de 2018, as pessoas estão mais agressivas, os rebeldes buscam resistir a perca de seus livros, consequentemente os bombeiros também trabalham com mais violência.

Nesse filme a visão crítica da censura aos livros é associada à Segunda Guerra Mundial. O Capitão Beaty dos bombeiros fala a respeito da pretensão da queima de livros, em querer uma sociedade sem opinião pública, ausente de indivíduos com ideias críticas a política. E para a vigilância desta, o filme põe a presença da Inteligência Artificial de Yuxie, uma câmera robô presente na casa da maioria dos cidadãos. Os rebeldes se vinculam a aqueles que são os corretos da história, porém que precisam se ocultar em meio a todos para não serem condenados. Além de que em seus esconderijos, eles guardam justamente o que é o objeto proibido, livros.

O conhecimento é pecado, e essa visão não está tão longe assim do mundo atual. Além dos regimes autoritários, muitas vezes grupos sociais são malvistos só pelo fato de possuírem uma ideia oposta a da maioria. Seja por religião, política, culturas ou ideologia, a violência deve ser reprovada. Para alguns a obra Fahreint 451 trata de uma distopia extrema da realidade, porém talvez nela possua uma proximidade com o presente que ao refletir, assusta e muito.