Do moinho viemos,
Ao moinho retornamos, sempre.
Eu morei fora do Brasil duas vezes: no Canadá, aos 16 anos, e na Bélgica, aos 21. A estadia foi curta (seis meses, em ambas as vezes) mas longa o suficiente para me fazer querer voltar desesperadamente.
Não que a coisa lá fora fosse ruim. No Canadá tive a liberdade que meus pais preocupados com segurança — e com toda a razão, afinal já fomos sequestrados — nunca haviam me dado. Na Bélgica, uma estrutura muito superior à da USP, embora a universidade de lá nem se compare com a daqui em termos de relevância.
Mas nada disso foi suficiente para aplacar a atração que o Brasil exercia sobre mim. Lá fora era como se me faltasse contexto. Eu só fazia sentido aqui.
Agora já não sei mais se aqui faz sentido para mim.
Muito do que eu acreditava me atrelar ao Brasil — sem dúvida com uma boa dose de idealização — foi desmoronando. Em parte porque foi abandonado, em parte porque seus alicerces sempre foram frágeis.

As fronteiras que sobram desse processo demarcam um novo (velho?) território onde eu não posso sentir-me outra coisa que não estrangeira.
Eu não entendo que língua um candidato à presidência e seus seguidores falam. Eu desconheço quais valores têm aqueles que atacam venezuelanos, que encarceram uma mulher com seu recém nascido. Eu achei que soubesse quais normas regiam as instituições, ou ao menos que haviam normas. Eu acreditei que havia algo profundo que todos compartilhássemos, nem que fosse apenas a fé em um futuro conjunto melhor.
Nossa história começou a entrar em combustão muito antes de domingo. Apagadas as chamas, o que resta é a estrutura violenta e autoritária que há séculos sobrevive ao seja lá o que for que tentemos jogar sobre ela. Me vem à cabeça os moinhos dos senhores de engenho, triturando cana e gente para adocicar a vida alhures.
Muita coisa mudou, mas essa engrenagem nunca parou. Não sei dizer ao certo o que isso sustenta, mas certamente não é um país.
