escrevendo no escuro

Fernanda Fagundes
Nov 3 · 7 min read

(Essa é uma história sobre poder e sexo. Você já leu essa história. Você a lê em todos os lugares. Por que você continua lendo? Por quê?)

Fulana era tão fulana que nem vamos batizá-la. Era branca, tinha um aspecto enrugado, cheirava a protetor solar. Estava sentada do meu lado, cheia de sacolas, os cotovelos me cutucando conforme ela gesticulava ao celular. Que filha da puta. Do outro lado, em pé, um moleque cheio de acne na cara me encarava. Meu deus, como eu odeio esse busão. Desci na minha parada como quem emerge do inferno.

Pelo menos o veterinário estava quase vazio. Só havia uma moça, sentada a umas duas cadeiras de mim. Ela lia um livro, não consegui enxergar a capa, fiquei tentando dar umas olhadelas sem ela perceber. Era do Mutarelli, mas não sei qual, porque quando busquei o título ela levantou os olhos e atravessou direto os meus. Desviei na hora pra qualquer lado. Dei de cara com o cu do gato na caixa que ela carregava. Eu juro por Deus que o cu me olhou de volta.

A televisãozinha da recepção passava algo sobre Pedro II, o imperador. Sempre tive um pouco de dó dele. Era filho de um idiota, como não se identificar. Tinha as feições de um czar, teria se dado bem na Rússia, mas calhou de ter que tocar um (suposto) império tropical. Pensei no Svonko, que fugindo da guerra na Iugoslávia veio parar meio sem querer no Brasil. A curiosidade inicial foi virando desconfiança, depois ódio e desprezo. Morreu aqui e ninguém nem pensou em manda-lo de volta para a sua terra, que pra ser sincera hoje em dia ninguém sabe onde é. A Iugoslávia não existe mais, o Império Brasileiro não existe mais, Svonko e Pedro II estão mortos. A história se conta pelos acasos e pela maneira que você os engole ou não.

Bartô está vivo, pelo menos. O veterinário me chama e explica que correu tudo bem na operação, mas vamos ter que continuar monitorando para ver se não surgem novas pedras no rim. Ele precisa beber mais água, comer uma ração especial, etc etc etc. Vou anotando enquanto meu coração aliviado se enche de amor de novo por esse gato gordo e grogue que vejo através do vidro. A gata da minha tia Nolívia havia morrido na semana anterior por um problema parecido. Considerei isso um mau presságio. Mas ei-lo aí, só um acaso não engolido.

Pego um uber para voltar pra casa — o gato merece conforto. No rádio toca um desses popzinhos dançantes e tristes ao mesmo tempo. A garota canta sobre como precisa ficar chapada o tempo todo pra não sentir saudades do fulaninho (ou fulaninha?). Ela vai no puteiro, vomita na banheira, xaveca uns pais nada a ver no playground. I make it fast and greasy, I’m numb and way too easy. Puta merda, esse estado de tristeza letárgica me deixa com muito tesão. Penso que deveria falar sobre isso com a minha analista, e como nunca vou fazê-lo.

Isso foi uma coisa que me broxou no Fernando Pessoa. Era um cara triste com metafísica demais e tesão de menos. Perambulava sempre pelos mesmos lugares com as mesmas pessoas. Lisboa inteira aos seus pés e ele enfiado quieto numa tabacaria tirando sarro do coitado do Estêvão, condenado para sempre na literatura sem direito de defesa. Pessoa precisava trepar. Pelo menos algum dos heterônimos trepa? Taí um projeto de doutorado.

Chego em casa, acomodo o gato e volto pro meu livro. Estou escrevendo sobre minha infância, porque afinal o mundo inteiro precisa conhece-la. Na minha história sou uma espécie de Mogli criado por vultos. Eu vou crescendo entre as sombras, passando de relance pela vida das pessoas. No começo escrever foi gostoso, como aquele xixi depois de horas apertada. Agora parece mais esfregar o embaçado que a névoa da noite deixa nos vidros do carro. Dói o braço, o pano é sujo, o resultado sempre fica meio porco. Só o frio resolve.

O periquito do vizinho começa a gritar e é a desculpa que eu preciso pra me emputecer com outra coisa que não eu mesma. É meu Estêvão. Coço o nariz com raiva, o mesmo gesto que meu pai fazia. Talvez ainda faça, há anos nos limitamos às gentilezas convencionais. Vou para a cozinha, único lugar nessa casa onde há sombra, para fazer um café. Do lado da prateleira onde fica o pote de pó há um azulejo com uma impressão bem vagabunda de um gato dentro de um coração e a frase: “lar é onde o gato está”. Uma tia me deu de Natal e uma versão mais bem-humorada minha colou aqui. Agora essa merda não sai sem arrancar o reboco da parede junto. “Que bela metáfora sobre escrever”, penso, enquanto não escrevo nada.

As próximas palavras são melancolia, passado, outono e chuva. Dá pra escrever uma música inteira do Sandy e Junior, mas proponho nos pouparmos dessas platitudes. Volto para meu texto, o da infância, e neste momento descrevo o dia em que fiz xixi na calça no prezinho. Releio o parágrafo, ficou bonito, usei até a palavra “empapuçado”. O mais importante nesse trecho é o veredito da professora, cujo olhar de dó em vez de nojo me sentenciou ao lugar de coitada, e não de ridícula.

Provavelmente nada disso é verdade, que criança de seis anos tem capacidade de fazer uma leitura simbólica dessas, ainda por cima estando mijada. Percebo que não botei no texto que nunca contei isso para a minha mãe. Quando cheguei da escola com outro uniforme falei para ela que alguém tinha derrubado refrigerante em mim, e ficou por isso mesmo. Não sei dizer se fiz isso por vergonha de contar para ela o que tinha acontecido ou se por necessidade de protegê-la de saber que havia algo de errado comigo.

Não aguento mais tanta primeira pessoa, não aguento mais essa overdose de mim. Ninguém vai querer ler isso, o que que eu estou fazendo. Futucar os detalhes do passado, muitos nem sei se reais ou sonhados, é ir se encontrando com o diabo. Quando a gente vive, tem tantas outras coisas se sobrepondo que é fácil desviar a atenção, mas se você olha pra trás, pum, dá de cara com ele. O diabo é o cu do gato que olha de volta.

Por que tornar público esse lenga lenga? Pergunto isso agora, enquanto escrevo, e tenho certeza que me pergunto de novo agora, enquanto leio em voz alta (quantos agoras nós temos). Escrever é partilhar, eles disseram, e com razão. Encontrar no outro algo de você, ou algo de você no outro. Havia esquecido que comecei a escrever porque lia, e lia porque vivia em solidão. Perdi de vista esse caráter de encontro, de pertencimento, e fiquei presa numa via de mão única onde corro sozinha em círculos.

Meu trabalho talvez fosse outro se minha pena tivesse sido de ridícula em vez de coitada. Não aguento mais ficar vomitando tanta autopiedade. Numa psicologia barata é necessidade de chamar atenção, a criança-vulto sempre atrás de reconhecimento. Num Freud em liquidação, é medo da morte. Não tem muito para onde ir a partir daqui, então olho pro gato grogue. Ele dorme profundamente, seu dorso subindo e descendo como se por obra de um motorzinho. O rabo passa por baixo da perna e dá bem na cara dele. Será que não pinica? Não tem como, isso deve pinicar, mas talvez ele esteja tão acostumado com o incômodo que nem incomode mais. Que pena que a próxima palavra não é casamento.

Eu releio que o que já tenho e sinto um misto de orgulho e desprezo. Isso dá pra falar pra analista. Acrescentando o medo da perda do gato com a cirurgia, fechamos a pauta da próxima sessão. Detesto chegar lá sem saber o que dizer, é aí que o bicho pega. Por isso, mantenho uma espécie de museu mental das memórias e sensações admissíveis, tours abertos todas as terças às 11h da manhã.

Merda, estou descambando para o desleixo, o relógio está correndo, chega por hoje.


O texto acima é resultado (bom, metade do resultado) de um exercício de escrita de um curso com o Lourenço Mutarelli. Primeiro, víamos uma apresentação powerpoint com imagens aleatórias, escrevendo o que desse na telha. Depois, a ideia era produzir um texto conectando essas palavras soltas. Aqui minhas palavras: poder / sexo / branca / enrugado / solar / cotovelo / acne / busão / parada / veterinário / Mutarelli / cu / Pedro II / Rússia / Svonko / Bartô / gordo / Nolívia / tristeza / tesão / Pessoa / Lisboa / desejo / vulto / névoa / periquito / nariz / sombra / coração / melancolia / passado / outono / chuva / empapuçado / mãe / escola / diabo / público / solidão / trabalho / ridículo / medo / morte / solidão / desprezo / perda / museu / desleixo / Savron / feminismo / voo / selfie / patricinhas / sol / tortura / nojo / vela / cinema / internet / atenção / sem graça / amor / Rússia / primavera / charlatão / morte / amor / ternura / infância / paint / enfrentamento / dor.

    Fernanda Fagundes
    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade