O fetinho nosso de cada dia

É a última vez que você vai ouvir falar do problema de planejamento familiar? É a última vez que você vai discutir sobre o direito ao aborto? Claro que não!

Você vai perceber que eu sou a favor de não haver essa restrição e esse texto é para tentar mostrar para quem está aberto a discussão que existem razões para essa proibição trazer mais malefícios que benefícios. Aos que tem essa proibição como dogma pessoal ou religioso, por favor, pare por aqui porque existe coisa melhor para você fazer com seu tempo.

Antes das coisas que você precisa saber, você precisa entender que homem não fica grávido, ou seja, por mais que a opinião dele possa parecer importante, ele não corre risco de morrer num aborto. Ele não tem a menor noção dos sentimentos psicológicos e biológicos de gerar um ser humano.

A primeira coisa que você precisa saber é que no BR o aborto só não é considerado crime em alguns casos. Nessa página tem um resumo bem esclarecedor. Assim, a discussão não tem sentido nos casos em que não é crime. E por que existe a discussão? Porque existem pessoas, e não são poucas, que não concordam com essa imposição do Estado.

A segunda coisa que você precisa saber é que não é um pensamento de ateus. As religiões tratam o assunto de forma diferente. A religião católica condena, porém os protestantes, judaicos e islâmicos são mais flexíveis a esse respeito embora em uma coisa todas elas são unânimes, a mulher sempre está em segundo plano. Sim, cristão, judeus e islâmicos, que acreditam no mesmo deus, tem visões diferentes. Logo, Deus realmente não deve estar tão preocupado com isso.

A terceira coisa que você também precisa saber é que ninguém é a favor do aborto. Ninguém sai por ai engravidando só pra dar uma abortadinha maneira, postar foto de aborto no Instagram, fazer competição e dar medalhas para quem já abortou mais. O problema é um real dilema tanto na vida da mulher quanto na vida do pai, quando ele está presente, é claro.

A quarta coisa que você precisa saber é que não existe um argumento que irá convencer uma pessoa a não fazer um aborto. Ela sabe que é ilegal e na maior parte das vezes ninguém fica sabendo que ela ficou grávida, no máximo alguém mais íntimo ou só o próprio pai. Algumas vezes a mulher quer ter o filho mas é forçada a fazer um aborto por pressão da família ou do pai que não quer ter o filho. Na maior parte das vezes em que a mulher anuncia a gravidez é porque já está decidido que ela não quer o aborto.

A quinta coisa importante é que existem estudos sobre os casos de aborto no mundo todo, aqui tem um sério pra você consultar. Abaixo um gráfico da conclusão do estudo para entender porque é importante a discussão.

Relação entre número de abortos e criminalização
A tendência mostra que quanto mais as mulheres vivem em um lugar onde a lei não condena o aborto, menor é o número de abortos.

Abaixo tem uma tabela também retirada desse estudo para ver como variam os números em cada região.

A última coisa que você precisa saber é que a lei se baseia em uma questão científica para determinar o que é vida e o que não é, tanto para nascer quanto para morrer. Temos que usar esse argumento porque estamos num país laico, caso contrário poderíamos determinar que a vida é quando Deus, ou o líder religioso mais influente, determinar o que é. Nesse sentido, cada vez que os cientistas avançam em seus aparelhos de medição, mais conseguimos ser precisos no aspectos que escolhemos para determinar a vida. Antes tinha a ver com escutar a batida do coração, hoje tem a ver com atividade cerebral.

Nesse site tem um mapa interativo para você ver os países que proíbem mais e os que proíbem menos para você saber as pessoas pensam diferente em lugares diferentes por motivos diferentes.

Nesse link também tem um texto de uma estudante de direito sobre a questão com alguns pontos importantes baseados em artigos acadêmicos.

Em resumo para não alongar esse texto, talvez você perceber que a discussão gira em torno de dois pontos.

O primeiro é quando um conjunto de células passa a ser um indivíduo e nesse momento o Estado entende que ele tem direito sobre esse conjunto de células mesmo que ninguém consiga determinar se as células se tornarão um individuo realmente. Hoje isso é determinado pelo conhecimento da concepção. Se, por exemplo, a mulher tiver um aborto espontâneo nada vai acontecer. Uma “vida” será gerada e será descartada da mesma forma, mas como ninguém ficou sabendo, então não era uma “vida” válida. Existem algumas questões relacionados à cientistas que trabalham com fecundação in-vitro e sabem as chances de alguns óvulos fecundados vingarem e outros não e nesse caso não há crime. Outros casos de gestação múltipla, a lei pode liberar o médico a fazer o aborto de um ou mais fetos. Como você pode perceber, não é uma questão realmente cientifica e sim de interpretação dos fatos, pelos humanos que tem seus interesses em cada caso.

O segundo ponto é em relação a proibição. Os estudos mostram que descriminalizar diminui a quantidade de abortos. Proibir tira a chance de educar as pessoas sobre o tema. Como é proibido, a pessoa que quer abortar prefere esconder para não ser punida e perde a chance de mudar de ideia. As pessoas que realmente estão determinadas a abortar irão procurar uma forma e como é proibido não irá encontrar serviços seguros. Os dados mostram, pela quantidade de mortes de mulheres que é um problema de saúde mais do que um problema moral, científico ou religioso.

Finalmente, o melhor é o Estado desapegar e deixar aqueles que precisam decidir sobre isso em paz para poderem decidir melhor.

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