Domingo em Bogotá

Texto escrito em Fevereiro de 2015. Estava num caderninho de viagem. Lendo agora o Caicedo e seu “Viva a Música”, me deu ganas de publicar.

O roteiro era quase certo. Descer a 27, virar na Quinta e seguir. Se perder um pouco e achar outro tanto.

Até agora Bogotá havia sido para mim bares caros, uma ladeira tortuosa e desmontada e um labirinto de concreto asséptico que chamam universidade. Não ia bem, tampouco ia mal.

Bogotá era uma cidade incerta e difícil. Depois deste Domingo me veio a certeza de sua severidade. Virando a Carrera 5, o Domingo pareceu deserto. Olha-se sempre para trás, cautela. Imaginava que não parecia estrangeiro, inocente vontade de quem quer bacorejar sub-americano. Mirando sempre algumas dezenas de metros a frente para não parecer desorientado nas horas em que é incerto que rumo tomar. Cruzando a ponte, logo após o parque da Independência, após ver três Pitbulls soltos levando seus donos à passear, um daqueles danados da terra, cruzando um caminho sem escapatória me pede por moedas. “Vá pedir àqueles saqueadores, àqueles que cruzaram o Atlântico com o amarelo do El Dorado ou àqueles que os reservam dentro do Museu”, pensei agora que deveria ter pensado na hora. Pedi perdão, como bom católico de Santa Fé e segui meu rumo.

Desci a Rua 24 e percebi um segurança na frente da fechada biblioteca nacional. Tomei a esquerda na Sétima e o então tudo começou. Do carrinho que assava milho saia um cheiro de bacon e do que vendia manga, de Cervo assado. Foi um dia de pura confusão de sentidos, a mais plena experiência estética.

Toda vez que lia o nome de Gaitán um pouco de coragem bate a porta da razão. A entrada do teatro tomada por finos tecidos cheios de bugigangas feitas a mão ou não. Entrando num sebo, não pude garimpar a seção latinoamericana pois um senhor branco havia resolvido sentar num banquinho e calmamente dedilhar a parte de música erudita, infelizmente alocada logo acima do meu locus de interesse. Sem mais o que fazer, retomei a Sétima em direção ao Sul.

Antes de virar para o Ocidente ainda houve tempo de lamentar sobre as figuras de princesas da Disney, Buzz LightYear e Wazowsky, que reinavam brancas e imperiais no espaço que servia para crianças colorirem. “Por Que não pintam uma fantasia mais próxima deste real?”.

Saí da Sétima em direção as lojas de livros universitários, usados e novos, já prevendo a infelicidade que me tomaria em assegurar-me da pobreza das edições em português dos livros sobre América Latina.

Na candelária, um relaxado negro me perguntou sobre o “88,1” estampado em minha camiseta. Minha pressa estrangeira não me permitiu mais que um “Radio Libre”. O colonial das casas não me era estranho assim como não o era o cheiro de Maconha que saiu de uma porta repentinamente aberta.

Depois do almoço a estranha sensação de estar no não lugar, aquele inverso da utopia. A livraria do Fondo de Cultura Mexicano me levava a lugares já visitados em outras urbes.

Já no caminho de volta, cruzo de novo com um desgarrado, quase índio, quase negro, com cara de quem não pertencia ao Reino de este mundo. Minha sobrancelha fechou, na rua quase deserta, numa tentativa de mostrar qualquer sinal de estranheza. Passou por mim incólume, mas não deixou de abordar um casal colombiano mais bem vestido do que eu, um negro e uma branca, que vinham logo atrás. Inversamente, malvestido como estava, recebi uma encarada amarga de dois policiais conforme me aproximava. A mensagem em seus rostos só se inverteu quando meu sotaque brasileiro soou junto com a dúvida do pedestre. Nessa hora, para o turista, parecer Colombiano é o azar.

O que parecia de longe uma manifestação em vermelho ideológico era um celebração do Santa Fé, clube local. Sempre cuidadosamente, com a prudência dos receosos, sacava o celular do bolso seguro para fazer fotos. Mal fechado o inexistente diafragma ouço um “hola hermano”. O dono da frase era um negro de grandes rastafáris, unhas sujas e cara de boa gente. Iniciei a conversa antes que ele me oferecesse uma das últimas pulseiras que faltavam sair do suporte para ele fazer seu dia. Disse-me ele que era da costa. Perguntei se Atlântica ou Pacífica: “Isso já não sei. Perto de Cartagena”, sentenciou. Íamos na mesma direção e nos três minutos juntos ainda me perguntou se eu conhecia o grupo “muita treta”, de rap do Brasil.

Em mais um momento em que me senti não tão não Bogotano, caminhei em direção a aqueles policiais, rua vazia, que quando me notaram fecharam a cara para as amizades. Sem sorriso, num olhar pronto e antipático. A minha pergunta com sotaque abriu a simpatia hipócrita da autoridade que respeita o turista. Com a devida amabilidade me mostrou o caminho mais rápido de volta à Sétima.

Primeiro os espetáculos de rua, depois o Sr. Fredricksen. Abaixo, os desenhos de pedra no asfalto, que por vezes eram Che Guevaras e por vezes personagens de Mangás feitos por crianças. Cruzei Stevie Ray Vaughan encarnado num jovem Bogotano de cabelos lisos e longos e um Fidel Castro em cadeira de rodas e fala embargada que cobrava mil pesos por foto. Em poucos metros substituía-se a música Afro-Caribenha pelo Jazz fácil, depois o Blues era engolido pelo romântico latino e finalmente o Didjeridu eletrônico abria-se para o hip-hop.

Me restou narrar Bogotá aqui na varanda do Hostel, cerveja aberta, para que atestasse e fixasse que o que vi e senti, foi real.

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