Entrevista | Nata de Lima (Manger Cadavre?)

Os desafios, conquistas e atuação política, de ser mulher no front duma banda!

1 | Nata, qual o seu posicionamento político? Ele se converge com o posicionamento dos outros integrantes da banda?

Meu posicionamento político é anticapitalista, ou seja, de extrema esquerda. No campo ideológico, estudo o marxismo e suas correntes, como o maoísmo, leninismo e comunismo libertário (ainda há muito o que aprender para que possa definir qual é a vertente com a qual mais me identifico). Busco sempre fazer a análise material da nossa realidade, para que o posicionamento não seja estritamente teórico e possa ser combativo. Os demais integrantes da banda também se identificam como de extrema esquerda, seja na marxista ou anarquista (esquerda libertária).

2 | Como surgiu a sua ligação com o Hardcore?

Na infância cresci ao som de rock progressivo, como Pink Floyd, e também de clássicos, como Beatles. Meu irmão mais velho, por sua vez, era fã de algumas bandas de metal e de hardcore, como Iron Maiden, Sheik Tosado e Raimundos. Na pré-adolescência conheci os clássicos do punk como Ramones, Sex Pistols, The Clash… Já na adolescência fui buscando referências de bandas em programas como o Auto-Falante e Musikaos (ambos da Tv Cultura) e em cópias de fitas K7 e VHS que trocava com amigos. Na era da internet discada, uma amiga baixava, por meio de blogs, bandas feministas nacionais e gringas e fazia cópias nos cd´s (que revolução!). Nisso, conheci muita banda boa. Minha amizade com o Marcelo Kruszynski (batera do Manger) na época, foi o que mais me estimulou a conhecer produções nacionais tanto de hardcore quanto de metal (já que ele sempre foi um colecionador de cd´s e lp´s). Com isso, veio a paixão pelo underground, e o “faça você mesmo”.

3 | O Manger está na estrada desde 2011. Gostaríamos que você falasse sobre os desafios e dificuldades duma mulher estar no front de uma banda, ainda mais numa cena majoritariamente masculina?

Acredito que o maior desafio seja conseguir convencer uma pessoa a dar o play e conhecer o seu trabalho.

Quando veem uma mina no vocal, ou mesmo tocando, o inconsciente do machismo estrutural já deprecia o trampo como de baixa qualidade.

Não a toa lemos em certos blogs que bandas com mulheres são “mais bonitas de se ver que audíveis”. Sempre que uma banda com mulheres na formação — APÓS O TRIPLO DE ESFORÇO — consegue algum destaque, há sempre os comentários que a objetificam, transferindo o êxito ao fato de ela supostamente estar se relacionando com algum homem influente, isso quando não publicam que “aquela puta” roubou o lugar de determinada banda composta só por homens. Há questões que podem ser subjetivas ou não (fica a discussão!), de organizadores de festivais e shows em geral dificilmente incluírem bandas com representatividade feminina no lineup, alegando que as mesmas não possuem público, enquanto abrem espaço para as recém formadas bandas mal tocadas de amigos homens. Para que uma banda com mulheres criem um público, é preciso tocar, e é preciso tocar em festivais, em rádios, ser resenhada em blogs e zines… pois só assim as pessoas prestarão atenção e as ouvirão. Há muitas problemáticas que eu poderia levantar, como assédio e violência, além da falta de apoio, críticas ou mesmo o fato da escolha por invisibilizar, fingindo que essas bandas não existem… mas seria uma dissertação de monografia. rs

4 | E de 2011 pra cá, o que tivemos de progresso contra o machismo e contra a intolerância em geral no HC?

As minas estão mais produtivas e combativas! Estamos sempre alertas para denunciar e boicotar ações misóginas e trazer a consciência em relação ao “ser mulher no mundo e no underground” para outras mulheres. Dos caras, uma parte tomou para si essa e outras pautas progressistas, alguns apenas no intuito de estar dentro da onda, outros por ter entendido seu lugar na opressão de gênero, o machismo estrutural e institucional e realmente desejar combate-lo. Vejo boa vontade.

O que percebo algumas vezes, e me incomodo muito, é o “apoio e respeito às minas”, mas somente enquanto elas são o público, meras expectadoras que dão suporte ao trabalho deles.

É importante ressaltar sempre que, a partir do momento que os caras se entenderam como opressores e assumem querer combater isso, eles terão que ser vigilantes consigo mesmos para o resto da vida, pois isso é algo tão intrínseco no cerne do homem, que eles poderão ter ações machistas sem perceber. Por outro lado, o chamado “hardcore ogro” ou “sem frescura” (credo) tem proliferado muito discurso conservador, e, consequentemente machista. No balanço geral, houve conquistas, mas também retrocessos.

5 | Além da música, sua atuação política acontece em outros projetos. Como surgiu a ideia da comunidade “União das Mulheres do Underground”? Quais são os objetivos, e o reflexo do que foi alcançado até agora?

Anos atrás, quando vi um certo blog debochando de bandas com mulheres, tive a ideia de montar um blog especializado em bandas com minas na formação. A preguiça venceu. Tempos depois, a desculpa de que “não tem banda com mina” era muito utilizada por produtores. Ainda assim a preguiça venceu. Eis que há pouco tempo, vi um post de uma brasileira que está na gringa, perguntando sobre quais eram as bandas com minas que as pessoas mais gostavam… uma pessoa marcou o Manger e por isso cheguei até a publicação e fiquei LOUCA DE RAIVA. Geral dos caras “da cena” brasileira só indicaram bandas gringas. Quando vi caras com discurso pró-feminismo, não tendo a coragem de indicar UMA banda nacional, espumei. No final das contas, o “faça você mesma” continua sendo aplicado pela gente mesma. Não dá pra esperar as esmolas deles. Nisso, chamei amigas de todo o Brasil e de várias vertentes de som e montamos a página, que é uma forma prática e rápida de fazer a divulgação do trampo das minas. Curiosamente, elas também tinham as mesmas insatisfações com o underground. Hoje somos 11 administradoras. Além de mim, há a Sirlene Farias, Priscilla Silva, Eliane Matos, Aline Braga, Carolina Morais, Viviane Oliveira, Cely Couto, Daniella Moura, Ana Luísa Flores e a Danielle Nunes. Algo que nasceu da raiva, se tornou MUITO positivo e posso dizer (acho que falo por todas) que estamos muito felizes em conhecer tanto trampo foda e fortalecer umas às outras. Essa página existe há apenas 3 meses e já tem mais de 5 mil pessoas que curtem. Ainda é pouco, mas é fantástico ter esse retorno sem investimento algum em anúncios no Facebook. O objetivo é um só: ajudar a divulgar toda a produção independente feita por mulheres do nosso underground.

www.facebook.com/uniaodasmulheresdounderground

6 | Qual a força e auxílio da internet na luta de causas DIY como essa? E o contrário, o que de ruim ela pode promover?

O acesso a internet possibilitou que você se conecte com gente do mundo todo. Encurtou barreiras e deu a possibilidade da fala e divulgação de trabalhos. Na contrapartida, apoio restrito a internet não significa nada. É o mesmo que ter 100 mil views e shows vazios. É uma ilusão, se não for conciliado ao mundo real.

7 | E fora da internet, quais sãos os seus mecanismos de atuação e panfletagem?

No campo ideológico, é o bom e velho trabalho de formiga: Conversar com pessoas, colocar pontos e estimular questionamento para a tomada de consciência de classe. Participar de congressos, greves, manifestações, organizar eventos, contribuir com produções independentes. Fazemos o que está ao nosso alcance, visto que fazemos parte da massa de trabalhadores que mal possui tempo para descansar.

8 | A música de abertura do disco “Revide”, “Abril Vermelho”, lançado esse ano, fala sobre o massacre da polícia militar contra o movimento sem-terra de Eldorado dos Carajós em 1996. O que deu de errado no nosso país para esse tema ainda ser atual e recorrente?

Paralisia da reforma agrária e criminalização dos movimentos sociais. Há muita terra improdutiva em nosso país que não foi redistribuída. O latifúndio agropecuário, paralelo à mecanização da agricultura contribuíram para eliminar as pequenas e médias unidades de produção agrícola e concentrar a propriedade da terra. Isso, somado ao modelo de ocupação implantado pela ditadura, gerou o êxodo rural. A população campesina foi para as cidades e acabou marginalizada. Diante disso, nasceram os movimentos de luta por moradia, como o MTST, e pela distribuição de terras, MST. A nossa burguesia e a elite econômica não desejam essa distribuição. Logo, ações de represália, assassinatos, reintegrações de posse de forma violenta continuam sendo utilizadas.

A criminalização dos movimentos sociais, muito difundida pela nossa mídia, tem fortalecido ainda mais a violência contra os trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Recentemente, 10 pessoas, que eram integrantes do MST, foram assassinadas por PM´s na fazenda Santa Lúcia no estado do Pará. Nenhum policial ficou ferido. O fato é: aparentemente, são poucas as pessoas que se importam.

9 | Qual o seu processo criativo? O que você gosta de ler, assistir, escutar para sintetizar as suas opiniões e elas refletirem nos seus atos?

A parte instrumental é feita totalmente pelos meninos. Eu faço as métricas e escrevo as letras em cima. Eu gosto de ler muito sobre sociologia, é o que me ajuda a entender a realidade e, consequentemente, escrever sobre ela.

10 | O Manger sempre foi uma banda que cantou em português? Perguntamos isso, pois é extremamente comum uma banda de Punk/Crust/Hardcore acabar cedendo ao inglês. O que você acha disso?

Apesar do nome em francês (RISOS E LONGA HISTÓRIA), queremos nos fazer ser entendidos. A nossa mensagem é para as pessoas daqui, que sofrem o mesmo que sofremos, por isso as músicas são em português. Obviamente tenho que dizer que não queremos nos render nesse aspecto ao imperialismo estadunidense (MAIS RISOS).

11 | Como surgiu o “Soco na Fuça Produções”? E quais os próximos eventos organizados?

O Marcelo Kruszynski, que é o batera do Manger, um belo dia no finado Orkut encontrou membros de uma banda que gostamos, o Jason do RJ. Ele enviou uma mensagem perguntando como era o esquema pra eles tocarem em São José dos Campos. Nosso susto foi que ele só cobraram a gasolina e pedágios. Organizamos o primeiro fest em 2005 e estamos em atividade recorrente desde então. O próximo show contará com a tour Reação de Resistência das bandas Desalmado (grindcore) e Surra (hardcore crossover), no dia 16 de julho, na Hocus Pocus.

www.facebook.com/snfucaprods

12 | O quão importante é o intercâmbio e parceria entre as bandas do underground para a cena continuar?

Bandas precisam apoiar umas às outras, e não se apoiar nas outras. Splits, selos, tours, organização de eventos, zines entre outras ações são o que ajudam a divulgar produções. A cooperação deve ser mútua para fazer esse material circular, logo, fortalecer o cenário independente.

13 | Para finalizar, gostaríamos que você falasse sobre o novo clipe lançado, da música “Bruxas da Noite”. Qual a inspiração para a letra? E como foi o processo de produção (roteiro, escolha do cenário, mensagem, etc.)?

A base desse som foi feita pelo nosso baixista, Jonas, que montou o escopo com o batera, e os detalhes com o guitarra. Desde o primeiro momento que ouvi o Jonas tocar, antes mesmo do som estar finalizado, eu disse que era som de bruxa pela melodia e as batidas. A letra fala sobre um grupo aviador soviético composto somente por mulheres, que foi muito importante na luta contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, o 588º Regimento de Bombardeio Noturno, que ficou conhecido como “Bruxas da noite”. A letra conta exatamente a estratégia utilizadas por elas, que, com poucos recursos, conseguiram fazer uma análise crítica, planejar e executar voos e bombardeios que despertaram o terror do nazis, a ponto de criarem superstições, acreditando que elas voavam em vassouras e que elas recebiam injeções de soluções que as faziam enxergar no escuro, tipo gatos.

O clipe, por sua vez, foi feito pelos nossos amigos Walter e Aline da Head Label, de Guaratinguetá. Queríamos que ele fosse totalmente em preto e branco, com dança e bem simples. Convidamos a Carol e o Lucas, que criaram e executaram a coreografia e o roteiro e a arte da edição em si, foi totalmente pensada pelo Walter (HL), dentro daquilo que queríamos. Os cenários foram: pavilhão do Parque da Cidade de São José dos Campos e o Estudio Wasabi, com tecido preto para criar o fundo infinito. A Head Label criou algo muito além do que nós esperávamos. Só tenho agradecimentos eternos por essa parceria.


Para saber mais sobre a banda, acesse:

www.facebook.com/mangercadavre

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