Entrevista | Rodrigo Lima (Dead Fish)

Na nossa primeira entrevista exclusiva, falamos sobre política, polêmicas e influências com o vocalista de uma banda há 25 anos na estrada.

1 | Rodrigo, qual o seu posicionamento político? Ele se converge com o posicionamento dos outros integrantes?

Meu passado nos bancos da escola e universidade sempre me deram um norte marxista, desde as conversas dentro de casa até muito do que escolhi estudar e ler na minha adolescência e idade adulta. O que não quer dizer que tenha me fechado nisso. O hardcore/punk me levou pra muitos desvios dentro do que estudei. Conheci as ideias anarquistas, e dos filósofos alemães já do meio da faculdade pra frente, em zines, fazendo amigos na estrada e igualmente lendo, ouvindo e conversando com essas pessoas e até namorando. Se é que posso me rotular sendo o que sou hoje, um vocalista de banda, posso dizer que sou um libertário que ainda acredita no Estado, um anarcocomunista paradoxal que curte skate, vai saber… O que sei é que acredito nas ideias da esquerda como progresso para todos os povos, todos os animais, para o planeta e para todos os indivíduos em suas peculiaridades e também como força revolucionária tanto micro como macro politicamente.

Não sei se os outros rapazes da banda convergem para o que penso, no mínimo aceitam algumas de minhas ideias.

Trata-se de uma banda, de hardcore e assim sendo, a ideia é ser contestadora e radicalmente progressista além do musical. Quem estiver nessa por algum outro motivo esta completamente equivocado.

Obviamente temos questões internas e talvez eu seja o que argumente mais nesse aspecto político, mas tenho muito orgulho de ter os caras com quem toco comigo, gosto deles de verdade. Um moquense que cresceu no meio dos galpões das fábricas antigas de SP no mínimo sabe as histórias do seu próprio bairro, um São Caetanense que viveu sua vida inteira na linha do trem e apesar da postura boboca de direita da sua cidade, entende o que é ser classe trabalhadora e um negro capixaba que perdeu seis trabalhos por causa de sua escolha musical e esta aqui do nosso lado pra tudo, tem que ser pessoas boas. Acredito muito nessa formação da banda, nunca tive uma formação tão boa de se estar junto.

2 | E qual a sua opinião sobre esse período político que passamos no Brasil?

Acredito que estamos numa ditadura da era da pós verdade, onde um golpe foi dado com ares de legitimidade. Nossas elites sempre foram muito criminosas, estão habituadas a serem assassinas e ladras desde Cabral, a mídia e suas 4 famílias ri da nossa cara, usa geral de massa de manobra desde antes da ditadura, isso esta bastante claro pra todos, não vê quem não quer, em qualquer classe. O mais grave é a psicopatia fascista dos servos né? Ter comprado tão barato esse golpe com quem o articulou os torna tão criminosos quanto qualquer Aécio, Cunha, Temer, Globo, Grupo Abril e bancada BBB da vida. Vejo dessa forma. Estamos numa encruzilhada histórica nesse país, não vejo muita saída reformista a vista. Vejo uma ruptura grande dentro das classes, das instituições e até das famílias, pode até ser que uma guerra civil declarada seja a intenção das elites, do Moro ou da Lava-jato, guerra é lucrativo pra essa rapaziada, tanto quanto a miséria.

O que eu sei é que nunca mais, enquanto existir o país Brasil seremos os mesmos, muitas coisas ficaram muito claras desde o pobre de direita até o comprometimento do judiciário, raras exceções, com o golpe. Não vejo uma saída simples nem pacífica pra isso tudo, mesmo com toda a passividade do povo brasileiro.

3 | Como é completar 25 anos de banda? E como é completar 25 anos de banda nesse momento de crise política no país?

Com o perdão do trocadilho, é uma Vitória. Estar fazendo o que eu quero fazer por 26 anos é um privilégio enorme, ter o meu trabalho e poder dizer o que eu digo aqui e no palco me faz muito feliz. O Dead Fish era Stage dive quando do impeachment do Collor, e em um dos protestos quase fomos linchados pelos metaleiros que odiavam skatistas, não é um país simples de se entender/resolver. Crises virão e crises passarão é importante saber disso. Quero estar aqui como banda depois da revolução que já esta acontecendo, mesmo com todo esse fascismo vigente por todos os lados.

4 | O DF sempre foi uma banda que politicamente se posicionou. Em algum momento desses 25 anos, a banda passou por algum tipo de censura, seja na gravadora, mídia ou festival?

Sinceramente não me lembro. Acho que existem tentativas de censura que conseguimos driblar de forma inteligente.

5 | Qual a importância, além do viés musical, o Hardcore cumpre na sociedade?

Ele já se segmentou demais pra ter poder pra algo. Posso até ser leviano com a afirmação, mas acho que o rock e uma parte do hardcore vem de uma formação muito de classe média e seus vícios e preconceitos, me incluo nessa, e isso tornou nosso nicho cultural e musical muito conservador. Tivemos nossa oportunidade de nos tornarmos maiores e mais relevantes como o samba ou o forró, mas e agora vemos o rock se tornar completamente irrelevante num país que precisa de uma postura forte diante de tudo que esta acontecendo.

6 | E como você enxerga o desserviço prestado por bandas que propagam mensagens de ódio, homofobia e machismo na cena underground? E qual a melhor maneira para reprimir esse tipo de comportamento?

Por mim essas pessoas nem seriam ouvidas, só tem relevância por que alguém da uma resposta pra eles continuarem.

7 | Dando o exemplo da letra “MST”, que foi lançada no álbum “Sirva-se”, em 1997, e que fala sobre um dos maiores movimentos sociais do mundo, mas que é massacrado diariamente pela grande mídia e por setores reacionários, o que mudou de 20 anos pra cá? O que de progresso tivemos, e o que ficou estagnado ou piorou nessa luta?

MST esta de volta ao set, e isso não é o melhor dos sinais. A esquerda e os caras do PT tem que fazer uma reflexão por não ter feito uma reforma agrária em 14 anos no poder. O acordo de governabilidade deles excluiu fortemente a reforma agrária que é urgente desde sempre. Somos o único país da América do Sul que não conseguiu fazer a sua. É vergonhoso e trágico ao mesmo tempo. Mesmo com essa decisão os governos do PT foram mil vezes melhores que todos os anteriores, mas não resolveu. Agora vemos um retrocesso e uma criminalização, novamente, do movimento. A sorte é que o agronegócio é tão descaradamente filho da puta de violento, venenoso e dizimador de índios que aqui em SP vejo parte da classe média apoiando o movimento por se propor a produção orgânica. Pode ser um caminho… Mais pautado nas necessidades de consumidores. Que seja um meio pra se alcançar um fim e não um fim em si.

8 | A música “Anarquia Corporation”, também lançada em 97, virou um hino nos shows, mas ela lida com uma questão um tanto quanto polêmica, pois vocês criticam “grupos” e “organizações” anarquistas que acabam sendo tão ditatoriais quanto o que eles querem combater. Assim, você acredita que o público conseguiu ter a interpretação correta da mensagem? E em algum momento, vocês tiveram problemas ou discórdia com Punks ou outro movimento dessa frente ideológica?

Eu acho essa letra equivocada hoje, apensar de ter uma razão de ser naquele tempo. Foi depois da treta gigante do Junta Tribo no show do Garagefuzz. Só que acho que fiz uma crítica muito generalista do movimento, e acho que hoje não existe razão de ser pra essa letra, fora que a música é muito chata. Hahahaha.

Já tive problemas com amigos anarquistas por conta dessa letra, e na época não vi a crítica como algo relevante. Hoje vejo que estava errado.

09 | Em 25 anos de banda, algum ex-integrante não concordou com alguma causa defendida nas letras?

Não me lembro. Não acredito que tenha acontecido.

10 | Qual o seu processo criativo? O que você gosta de ler, assistir, escutar para sintetizar as suas opiniões e elas refletirem nas letras?

Eu escrevo textos grandes sobre vários assuntos, redações mesmo ai vou filtrando com a base da música. Nos dois últimos álbuns tenho conseguido produzir junto com o som, mas preciso do Ric aqui pra dar uma mão.

Eu gosto de ler de tudo. Tenho lido o livros dos meus amigos ultimamente o “tudo errado” do Kindim (Rafael Erichsen) e o “então vírgula” do Marcelo Viegas. Ganhei de um amigo um livro chamado “Dunas vermelhas” sobre a primeira revolta comunista do Brasil, que foi exatamente em Natal, um livro divertidíssimo com um humor de cordel nordestino, e outro que estou lendo no momento que é “A política sexual da carne” que estou absolutamente aprendendo muito. No momento ouço Danzig, o novo do Merda e Kendrick Lamar, um pouco de Rincon Sapiência. Filme voltei a ver com mais frequência, vi moonlight esses dias, achei uma sapatada. O que eu escrevo reflete todas essas coisas que disse ai em cima.

11 | Nesses 25 anos, você já se arrependeu de alguma canção ou atitude do passado?

Vejo tudo como aprendizado, todo dia, cada dia é um dia. Arrependimento é uma palavra difícil pra mim, sou meio marrento e nada cristão pra admitir algumas coisas, mas se for pra me arrepender de algo que seja da minha violência que por tanto tempo convivo com ela dentro de mim, e por um tempo bem longo sempre tive como um pilar da minha existência. Sabe como é, venho da classe média, infância na ditadura, gangue de skatista, não me lembro de não ter saído na mão com alguém por mais de uma semana na minha infância. Fora Estado super violento. Sempre vi minha violência como uma resposta direta e justa diante de tanta violência por todos os lados, eu achava uma troca justa. Ainda não me sito que me arrependo de ter sido tão violento minha vida inteira, mas já pedi perdão pra algumas pessoas.

12 | Qual a importância do Hardcore na sua vida? Ele ajudou no seu processo ideológico?

Eu digo que o punk e o Hardcore é mais relevante que a minha faculdade, eu aprendi muito sobre tudo lendo zines, conhecendo bandas e conversando com gente fora da minha bolha mediana capixaba, o punk sem dúvidas me ajudou a me tornar um cara fora da manada de telespectadores do jornal Nacional. Se não fosse o punk/hardcore provavelmente não seria nem vegetariano hoje. Conheço pessoas que não estão mais envolvidas com o hardcore em suas vidas cotidianas, mas tem atitudes e o jogo de cintura que o hardcore deu pra elas.

13 | Quais bandas do HC mais lhe influenciaram nessa construção ideológica? E quais bandas e artistas além do HC lhe influenciaram também?

Foram muitas, de Cólera, passando por Dead Kennedys e até o Fugazi, que conheci antes do Minor Threat. Ouvi muito do punk californiano também Agent Orange, TSOL e até Red Hot Chilli Peppers até o Mothers Milk, Bad Religion pra cassete, Bad Brains muito, e mais rap brasileiro e americano dos 80 e 90.

14 | Para finalizar, gostaria que você falasse do novo lançamento do Dead Fish, um CD e DVD ao vivo: Como surgiu o interesse de marcar esse momento da banda? O que ele tem de diferente dos outros registros? E os porquês das escolhas da cidade de São Paulo e desses convidados especiais no show?

Foi um projeto que surgiu via André Pastura e o Derick Borba que dirigiu o clipe de Sausalito, já tínhamos um registro de 20 anos legal, mas surgiu e a gente resolveu fazer, gosto bastante do resultado, muito mesmo. Foi um show grande pra gente e num formato meio diferente do que fazemos, mas ficou demais na visão do Daniel Ferro, o som também esta muito melhor que todos outros registros ao vivo.

São Paulo é onde vivemos desde 2004, também é nossa cidade, eu amo essa cidade coxa do cassete! Pra mim foi perfeito. Os convidados foram todos muito debatidos, queríamos ex integrantes e eles estão lá, gostei demais de ver o Murilo e o Phil e gravar a parada com eles. O Vitor e o Gustavo são caras que admiramos suas obras e suas atitudes e eles deram um brilho muito legal nas músicas que participaram, fora a Michele Escoura, nossa doutora, que fez um texto lindo pra MST. Enfim, estou bem feliz desse trampo ter saído. Em breve teremos o documentário.


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