
Infinito
A origem das crianças era incerta. Sabia-se apenas que elas já nasciam grandes, com sete ou oito anos de idade. Elas tomavam consciência de si mesmas com os olhos ofuscados pela luz do sol. À frente delas, e à razoável distância, havia uma muralha vermelha de dimensões tão monumentais que não era possível ver onde ela começava e acabava. Ao olharem para trás as crianças viam uma brancura infinita como se alguém tivesse esquecido de pintar aquela parte da realidade; qualquer criança era repelida levemente ao tentar alcançar aquela paisagem. O único jeito era ir à muralha.
Os arredores do paredão eram dotados de certa vida. Havia algumas árvores e pássaros, grama e borboletas também. E mais crianças. Diversas delas habitavam nas sombras da muralha em abrigos rudimentares de folhas e gravetos. Os olhos delas eram encovados e de expressão febril; nos rostos expressões que variavam da apatia ao terror.
Havia diversos cadáveres das mais diversas idades e etnias humanas no chão onde monumento e solo se encontravam. As crianças recém chegadas não entendiam o que viam e achavam que as pessoas estavam dormindo. Inúmeras escadas ladeavam a muralha; escadas em ziguezague, caracol, outras em que era necessário utilizar mãos e pés para utilizá-las, com ou sem corrimão, em perfeito estado de conservação ou decrépitas - até mesmo escadas rolantes. Cada criança subia em uma escada.
Frestas, janelas, fendas, sempre havia algum modo de ver o que havia do outro lado; as aberturas estavam dispostas a alturas irregulares, permitindo a algumas crianças observar a paisagem com mais frequência. A primeira coisa que viam era bem limitada - poderia ser uma casa, a parte de uma floresta, um lago, mar. As crianças observavam a cena com grande interesse e só se lembravam que estavam subindo escadas quando queriam ver o mundo que lhes era apresentado mais do alto. Cada degrau avançado representava uma passagem de tempo para a criança. Ela poderia envelhecer segundos e até meses entre um passo e outro, e enquanto envelheciam e observavam, aprendiam os costumes, amores e ódios, das civilizações que suas vistas alcançavam.
As crianças mais abastadas, as das escadas rolantes e de janelas largas, gastavam seu tempo em contemplação. Olhavam maravilhadas cenas de profunda beleza. Viam banquetes, criaturas extraordinárias, natureza belíssima. Já as mais miseráveis, de escadas enferrujadas, escorregadias ou quebradiças, e de aberturas não maiores que buracos de fechadura, avançavam a duras penas. Seu físico era o mais requisitado para se manterem vivas; o desenvolvimento da força em detrimento do intelecto. Muitas delas desistiam e se lançavam para a morte, outras sucumbiam ao ceder de suas forças.
Num determinado ponto todas as escadas se encontravam num mezanino; era um patamar que dava acesso a todas as escadas. Os indivíduos, agora em sua juventude, poderiam se encontrar pela primeira vez após o início de suas jornadas. Os abastados destruíram o acesso às suas escadas. Os mais sofridos ali habitaram por mais tempo que uma simples parada para descanso e também aqueles que pulavam para o abismo, pois não suportavam o que tinham visto. Mais alguns se digladiavam uns contra os outros apenas porque eram diferentes e não estavam dispostos a se entenderem; era o que tinham aprendido ao observar aquele mundo. Também havia os mais equilibrados; eles compartilhavam seus conhecimentos, observavam a si próprios e aprendiam uns com os outros mais do que tudo aquilo que poderiam ter visto. Estes eram o que melhor avançavam na jornada.
Após o descanso a subida continuava e os indivíduos podiam ver mais daquele mundo. Um homem já idoso olhou para cima e viu o topo da muralha. Era o último patamar de sua escada e a janela estava fechada. Ele subiu com dificuldade, apoiando-se no corrimão. Quando chegou ao topo ele inspirou e fechou os olhos. Pensava que naquele instante que ele veria toda a existência, teria todo conhecimento diante de seus olhos. Ele abriu a janela e viu um molhado e infinito mar de nuvens.
