Samanta, a louca!

Ela estava quase de cócoras, quase sentada no vaso sanitário do banheiro úmido do seu quarto. Nas mãos, o celular – e as redes sociais na tentativa e erro de esvaziamento.

No quarto vazio só uma cama velha com lençóis rasgados e alguns livros empoeirados do seu antigo parceiro que a abandonara há 8 anos. Da parede embaçada do banheiro podia-se observar memórias líquidas, porém mortas, onde Samanta assistia escorrer do seu trono lembranças pelas quais ainda não conseguia digerir. Samanta rezava, sentada, ainda que cética. Samanta era muito racional e tinha um corpo rígido, assim como suas convicções. Samanta, quase de cócoras.

Aqueles minutos pareciam intermináveis e entre parede e celular, Samanta contorcia seu abdômen na tentativa de se livrar de tudo aquilo, meu deus, por que guardo tanto lixo dentro de mim?, pensou num breve momento de respiro.

O sino da igreja do bairro soou 18h. Lá fora o dia estava cinza e frio e, do banheiro de Samanta, ouvia-se buzinas que deflagravam a hora do rush de mais um dia útil enquanto ela, Samanta, a louca!, como alguns chamavam-na, rendia-se dentro de um redemoinho sem que a massa de resíduos fétida de um passado penoso pudesse percorrer livremente por seu tubo intestinal e ser definitivamente expelida pelo seu ânus. O intestino estava cheio e Samanta estava presa em um casulo jogado ao mar, você deve estar prendendo seus sentimentos, lembrou da observação que outrora seu psicólogo havia feito.

Samanta tem o intestino preso.

Seus instintos também são.

Samanta, sentada, quase de cócoras, ouviu o caminhar da vizinha no andar de cima enquanto a mesma berrava com o marido e pensou, só espero que ela não lance esse salto alto nas fuça do coitado; crianças chamando mamãe, estou com fome, quero comer!; barulhos de talheres e louças sendo postos numa suposta mesa de família. Olhou para o relógio do celular: mais de 18h30. E então.

Samanta se borrou inteira. O banheiro foi tomado de bosta.

Samanta levantou-se da posição que a subordinara como prisioneira de si mesma e, depois de escorregar no próprio barro lamacento que acabara de defecar, parou, limpou seu rosto e braços com um gesto forte e, num ataque de pura lucidez, se lavou inteira no chuveiro com água fria.

Samanta limpou o banheiro.

Samanta limpou o quarto.

Samanta limpou a casa toda e jogou toda a merda que não servia mais na lixeira do seu prédio.

*******************************

Às 8hs da manhã, Samanta, depois de mais um banho longo e perfumado, sentou-se na cadeira de balanço da varanda do seu quarto; deixou que o sol acarinhasse sua pele amarelada e gasta; acendeu um cigarro e esperou.

Samanta esperou que o caminhão de lixo dobrasse a esquina da sua rua, parasse em frente ao seu prédio e levasse a sua tralha embora.

Finalmente levantou-se da cadeira quando o caminhão estacionou, sorriu, acenou e sussurrou: Antes só e louca do que acompanhada de tanta bosta.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.