“Aquilo que chamávamos de escuro”, de João Pedro Liossi: uma geografia singular, uma poética errática

por Bruno de Oliveira Rodrigues

Poesia, afazer
de afasia.
(Augusto de Campos)

Entendo que, para João Pedro Liossi, escrever é entrar num ritmo-novo, num fluxo-outro, numa cadência-embalo-singulares. É lutar contra a própria sombra, abrir portas secretas a partir da precisa combinação espelhada entre a articulação de palavras, sons e sentidos. Escrever, para ele, ao que parece, deve ser como tocar um instrumento antigo ou falar com doçura uma língua morta, em que a um só tempo se consegue envolver o leitor em uma atmosfera hipnótica e deixá-lo um tanto boquiaberto e surpreso com um certeiro, embora afetuoso, golpe-nocaute na mandíbula da sensibilidade estética.

Mesmo que os versos de “Aquilo que chamávamos de escuro”, seu primeiro livro, fossem sorrateiramente desorganizados de sua estrutura por algum terrorista poético qualquer, não seriam de maneira alguma prosaicos: em literatura (isto é, na verdadeira literatura), ao contrário do que podem dizer os especialistas, a prosa não existe. O que há neles é uma construção poética inerente, inata, que demonstra uma difícil capacidade de, enquanto escritor, se metamorfosear em um surfista e não surfar A onda, mas sim COM ela.

Sua escrita se sustenta a um só tempo em um vôo em queda livre e, também, numa respiração catártica que não se separa em momento algum do pulsar de um coração despedaçado cujo eu-lírico supõe ter sido por vezes arrancado à força, mas que persiste e que insiste com toda a sua leveza, com toda a sua naturalidade, com toda a sua potência de seguir vivendo. Liossi parece escrever com as mãos e com um um plexo solar. Arrisca-se por lugares e por sendas que não são fáceis de entrever, que dirá serem fáceis de chegar. Estamos, vale dizer, diante de uma literatura que não acaba, que não se repete, mas que surpreendentente se renova a cada novo sintagma. Da vastidão de um mundo-outro e de seus acontecimentos erráticos que se mostram fluindo como sangue escarlate pelas veias abertas de cada palavra.

Liossi parece ter compreendido, já em sua primeira publicação, que a criação literária implica em aceitar que é a surpresa que define as nossas vidas, que o desconhecido não é um grito que ecoa distante, mas um paradigma tão próximo quanto o infinito. Sua escrita é límpida e cria imagens claras, que seduzem, e que em que cada um dos seus versos parecem plantar uma dúvida concreta e existencial que se encarregará de precisar de respostas, que em algum momento precisaremos colher frutos e extrair o seu sumo, e que fazem com que consigamos e com que sigamos, iluminados, como quem morde a massa macia de um pão recém-saído do forno que, no fim das contas, acabará nos induzindo a contemplar um pouco mais de sabedoria, dessa sabedoria que por vezes nos falta para lidar com os problemas prosaicos do nosso dia a dia.

Trata-se de um livro que, por mais difíceis que por vezes sejam os seus temas e o tratamento que a eles é dado, é como uma caixinha de música antiga tocando uma canção cheia de neologismos, de uma escrita que se desenrola numa espécie de matrioshka, na qual cada nova camada revela um novo universo possível — e, sobretudo, desejável — de significações. Trata-se de observar as emoções por dentro, de se olhar com todo o corpo e, inclusive, de encarar a dor e o sofrimento com certa voluptuosidade, já que eles podem ser motores da criação. Seus versos são, por vezes, erráticos e movediços, e parecem projetar todo o coração ao cruzar cada rua, cada esquina, cada novo quadrande. Em cada voz lírica distinta, observamos a união entre superfície e profundidade, que constroem novos cenários que parecem se observar metalinguisticamente a si mesmos e, ao mesmo tempo, permitem que o leitor seja sacudido e saia de sua comodidade e de sua zona de conforto para perceber o estremecimento que implica o belo, a surpresa de um trabalho estético bem detalhado, bem talhado e bem amarrado.

A literatura de João Pedro Liossi, em “Aquilo que chamávamos de escuro”, funciona como um convite para se olhar com intensidade, para se estar efetivamente aqui e agora e cultivar o presente do envolvimento consigo mesmo e existir poeticamente, fazer da vida uma obra de arte e descobrir de novo nossa própria face frente ao espelho ao nos darmos conta de que se escreve e se lê justamente para se nascer de novo, para pufificarmos e contrabalancearmos os nossos pensamentos mais profundos. Sua literatura é como uma bandeira apátrida que, hasteada num dia de intensa ventania, faz de cada movimento de seu tecido um pano de fundo de emoções que nos ensinam uma vez mais que, para se chegar ao centro do autoconhecimento, não existem estradas previamente demarcadas e o caminho não é uma reta, que dirá apenas um. Que, pelo contrário, somos nós quem, diante dos obstáculos (mesmo dos obstáculos da linguagem e seus interditos, da língua e suas incapacidades, e seus tabus), criamos as formas de traçar nossos próprios caminhos, por mais tortuosos que sejam — e, portanto, somos nós que aprendemos a nos imaginar. A literatura de João Pedro Liossi certamente nos servirá para mantermos as mãos em volta do fogo em que ardem as nossas dúvidas e, com elas, quando conseguirmos efetivamente atravessá-lo, seremos capazes de voltar a preencher o mundo com a nossa imaginação.

Escrever para salvar-se, para salvar a todos nós, para que se possa cruzar a terceira margem de um rio turbulento e ir muito mais longe do que a próxima torrente d’água. “Aquilo que chamávamos de escuro” nos apresenta uma literatura para que passemos a nos comprometer efetivamente e cada vez mais com cada palavra que proferimos, e para que o nosso sentir seja a verdadeira pulsão dos nossos atos. Palavras como pedregulhos, poemas como pedradas.