Margaret Atwood: Será que eu sou uma má feminista?

Disponível em: https://www.theglobeandmail.com/opinion/am-i-a-bad-feminist/article37591823/?utm_source=meio&utm_medium=email

Tradução: Bruno de Oliveira Rodrigues

Margaret Atwood é autora de mais de 40 livros de poesia, ficção e ensaios, incluindo Conto de Aia (The Handmaid’s Tale).

Parece que eu sou uma “Má Feminista”. Posso acrescentar isso às outras coisas que eu tenho sido acusada desde 1972, como me alçar à fama pisando em cabeças decapitadas de homens (um jornal de esquerda), de ser uma dominatrix determinada a subjugar os homens (agora por um jornal de direita, que adicionou ao comentário uma ilustração minha usando botas de couro e um chicote) e de ser uma pessoa terrível que pode destruir — com os seus poderes mágicos de Bruxa Branca — qualquer um de seus críticos em mesas de jantar de Toronto. Eu sou tão assustadora! E agora, ao que parece, estou empenhada em uma Guerra Contra as Mulheres, sendo a Má Feminista, misógina e apoiadora do estupro que eu sou.

Como seria uma Boa Feminista, aos olhos dos meus acusadores?

Minha posição fundamental é a de que as mulheres são seres humanos, com toda a miríade de comportamentos aceitáveis e inaceitáveis que isso implica, inclusive aqueles criminosos. Elas não são anjos, incapazes de fazer coisas erradas. Se assim fossem, não precisaríamos de um sistema jurídico.

Também não acredito que as mulheres são crianças, incapazes de agir ou de tomar de decisões morais. Se fossem, estamos de volta ao século XIX, e as mulheres então não podem possuir bens próprios, ter cartões de crédito, acesso ao ensino superior, ter o controle de sua própria reprodução ou votar. Há grupos poderosos na América do Norte tentando impor essas coisas, mas eles normalmente não são considerados feministas.

Além disso, acredito que para haver direitos civis e humanos para as mulheres deve haver direitos civis e direitos humanos, ponto final, incluindo o direito fundamental à justiça, bem como para que as mulheres tenham o direito ao voto, deve haver uma votação. Será que as Boas Feministas acreditam que só as mulheres deveriam ter esses direitos? Com certeza não. Isso seria uma inversão ao antigo estado de coisas, onde apenas os homens detinham esses direitos.

Então vamos supor que as Boas Feministas que me acusam e a Má Feminista que eu sou concordam com os pontos mencionados acima. Onde nós divergimos? E como eu entrei nessa confusão toda com as Boas Feministas?

Em novembro de 2016, eu assinei — para que fique claro, como eu já assinei muitos abaixo-assinados — uma Carta Aberta intitulada UBC Accountable, que exige uma investigação da University of British Columbia, responsável pelas falhas no processo de um de seus ex-funcionários, Steven Galloway, ex-presidente do Departamento de Escrita Criativa, e também com aqueles que fizeram outras denúncias ao processo. Essas denúncias apontavam que, há muitos anos, a universidade foi a público na grande mídia nacional antes de haver uma investigação, e mesmo antes de que o acusado pudesse saber os detalhes da acusação. Antes que pudesse se inteirar sobre qualquer coisa, ele teve que assinar um acordo de confidencialidade. O público — inclusive eu — ficou com a impressão de que esse homem era um violento estuprador em série, e todos se sentiram livres para atacá-lo publicamente, já que por conta do acordo que havia assinado ele não podia dizer nada para se defender. Uma enxurrada de críticas duríssimas se seguiram a isso.

No entanto, depois de uma investigação ser conduzida por um julgamento que se prolongou por meses, com diversas testemunhas e interrogatórios, a juíza decidiu que não houve agressão sexual, de acordo com um comunicado divulgado por Steven por intermédio do seu advogado. De qualquer forma, Steven foi demitido. Todo ficaram surpresos, inclusive eu. Os docentes do departamento de Steven recorreram à decisão da universidade e o processo interno ainda está tramitando, mas o relatório da juíza ou a sua decisão, tomada a partir das evidências apresentadas, não poderão ser acessados pelo público até que o caso seja encerrado. O veredito que determinou a inocência de Steven desagradou a algumas pessoas. Eles continuaram a atacá-lo. Foi nesse momento que os detalhes das falhas no processo da UBC começaram a circular, e então a Carta-Aberta, intitulada UBC Accountable, veio a público.

Uma pessoa razoável esperaria, então, para culpar o acusado até que a sentença e as evidências estejam disponíveis para a análise pública. Nós somos adultas: podemos tomar as nossas próprias decisões, de uma forma ou de outra. Aqueles que assinaram a Carta sempre assumiram essa posição. Os meus críticos não, porque eles já tomaram a deles. Será que essas são as Feministas Boas e razoáveis? Se não são, só estão alimentando a velha narrativa que sustenta que as mulheres seriam incapazes de ser justas ou de fazer um julgamento ponderado, e estão dando mais motivos aos inimigos das mulheres para negar a elas posições de tomada de decisão no mundo.

Uma digressão: papo de bruxa. Outra questão colocada contra mim é que eu comparei o processo da UBC com os tribunais de caça às bruxas de Salem, em que uma pessoa era culpada porque era acusada, uma vez que as normas do processo eram estabelecias de uma forma que você não poderia ser considerada inocente. As Boas Feministas que me acusam ficaram ofendidas com essa comparação. Elas acham que eu as estava comparando com os jovens que caçavam as bruxas em Salem e chamando-as de menininhas histéricas. Só que, no entanto, eu estava me referindo à estrutura, não aos julgamentos propriamente ditos.

Existem, atualmente, três formas de falar em “bruxas”. 1) Chamar alguém de bruxa, como fizeram muito com Hillary Clinton durante a eleição presidencial mais recente. 2) Usar a expressão “caça às bruxas” para dizer que alguém está procurando por uma coisa que não existe. 3) A estrutura dos julgamentos por bruxaria em Salem, em que você era culpada porque estava sendo acusada. Eu estava me referindo à terceira forma.

Essa estrutura — culpado por ser acusado — foi aplicada em muitos outros episódios na história da humanidade além de Salem. Ocorreu durante a fase do “Terror e da Virtude” das revoluções — alguma coisa dá errado e, por isso, deve haver uma limpeza, como na Revolução Francesa, nos expurgos de Stalin, na URSS, o período do Exército Vermelho, na China, o governo dos Generais na Argentina e no início da Revolução Iraniana. A lista é longa, e tanto a esquerda quanto a direita se serviram dessa estrutura. Antes que a fase do “Terror e e da Virtude” acabasse, muitos caíram no esquecimento . Perceba que eu não estou dizendo que não há traidores ou qualquer que seja o grupo-alvo; basta que, em tais ocasiões, as regras normais das evidências sejam ignoradas.

Coisas como essas são sempre feitas em nome de em um mundo melhor. Às vezes elas conseguem isso por um tempo, vale dizer. Outras vezes, elas são usados como uma desculpa para impor novas formas de opressão. Assim como a justiça pelas próprias mãos — condenação sem julgamento –, que começa como uma resposta a uma falta de justiça — seja porque o sistema é corrupto, como na França pré-revolucionária, ou porque ele simplesmente não existe, como no Velho Oeste —, e então as pessoas fazem as coisas com as próprias mãos. Mas a justiça pelas próprias mãos compreensível e provisória pode se transformar em um hábito linchador culturalmente cristalizado, em que a forma de justiça que temos é jogada no lixo, e estruturas de poder extralegais são estabelecidas e mantidas. A Cosa Nostra, por exemplo, começou como uma resistência à tirania política.

A movimento #MeToo é um sintoma de uma falência do sistema jurídico. Frequentemente, mulheres e outras pessoas que denunciam abusos sexuais não conseguiam estabelecer um julgamento justo pela via institucional — incluindo aí estruturas corporativas –, então elas usaram uma nova ferramenta: a internet. Estrelas caíram do céu. Essa estratégia vem sendo muito eficaz, e tem sido vista como um gigantesco alerta. Mas, e agora? O sistema jurídico pode ser reparado ou a nossa sociedade poderia jogá-lo fora. As instituições, as empresas e os ambientes de trabalho podem fazer essa limpeza, ou eles podem esperar mais estrelas caírem do céu — e também um monte de asteroides.

Se o sistema jurídico for jogado fora, já que ele é visto como ineficaz, o que vai ficar no seu lugar? Quem serão os novos detentores do poder? Não serão as Más Feministas como eu. Nós não somos aceitas nem pela direita nem pela esquerda. Em tempos de extremos, os extremistas vencerão. A ideologia deles se torna uma religião, qualquer um que não engula os seus pontos de vista é visto como um apóstata, um herege ou um traidor — e moderados, nesse cenário, são completamente destruídos. Escritores de ficção são particularmente suspeitos, porque eles escrevem sobre seres humanos, e as pessoas são moralmente ambíguas. O objetivo da ideologia é eliminar a ambiguidade.

A Carta Aberta à UBC também é um sintoma — um sintoma do fracasso da University of British Columbia e seu processo incorreto. Este deveria ter sido um assunto abordado por organizações como a Canadian Civil Liberties ou pela B.C. Civil Liberties. Talvez agora essas organizações irão se manifestar sobre o assunto. Desde que carta se tornou um problema de censura — com tentativas de apagar o site e as muitas palavras atenciosas dos seus escritores — talvez organizações como a PEN Canada, a PEN Internacional, o CJFE e o Index on Censorship também possam pensar sobre o assunto.

A Carta afirmava, desde o início, que a UBC cometeu erros tanto em relação à acusação quanto em relação aos denunciantes. Eu gostaria de acrescentar que a instituição também errou e tem que se explicar em relação aos impostos públicos, que financiam a UBC com o montante de 600 milhões de dólares por ano. Nós gostaríamos de saber como o nosso dinheiro foi gasto nesse caso. As pessoas que fazem doações à UBC — que recebe bilhões de dólares em doações privadas — também têm o direito de saber.

Em meio a todo esse imbróglio, escritores têm sido colocados uns contra os outros, especialmente depois que a carta foi distorcida pelos seus detratores e difamada como se fosse uma Guerra Contra Mulheres. Mas, neste momento, eu chamo a todas — tanto as Boas Feministas quanto as Más Feministas como eu — para deixarem de lado as suas briguinhas estéreis, unir forças e direcionar os holofotes onde ele deveria ter sido colocado durante todo esse tempo: na UBC. Duas das pessoas que prestaram queixa agora estão se colocando contra a postura da UBC nesse caso. Por causa disso, elas devem ser agradecidas.

Quando a UBC abrir uma investigação independente sobre suas próprias ações — como a realizada recentemente na Wilfrid Laurier University — e comprometer-se a fazer que essa investigação seja pública, o site da UBC Accountable terá cumprido o seu objetivo. Esse objetivo nunca foi o de oprimir as mulheres. Por que prestar contas e atuar com transparência são formas que vêm sendo tratadas como contrárias aos direitos das mulheres?

Uma guerra entre as mulheres, em oposição a uma guerra contra as mulheres, é sempre interessante para aqueles que não desejam o bem às mulheres. Este é um momento muito importante. E eu espero que ele não seja jogado fora.