Como subir o Pico da Bandeira - o terceiro maior pico do Brasil

Pico da Bandeira é a terceira maior altitude do Brasil e só perde por 100 metros para o primeiro lugar, Pico da Neblina. Com quase 3 mil metros, o Bandeira se encontra entre Espírito Santo e Minas Gerais e se você deseja se aventurar é preciso dirigir-se para a pequena cidade Alto Caparaó, na região mineira. É possível fazer o caminho iniciando pelo Espírito Santo, mas esse é nível heavy, então, deixe para quem tem muita experiência.

Vou ser meio classe média e contar que ir de carro é bem melhor, junte a turma e divida a gasolina. Chegar de ônibus em Caparaó é complicado (pensando em quem parte do Rio de Janeiro) e para alcançar o parque e iniciar sua subida, você também precisará de um carro. Nem pense em fazer o eremita, partir de algum ponto da cidade e chegar até ao parque a pé ou não terá mais pernas para subir o pico. Hospede-se na cidade Alto caparaó um dia antes da aventura e descanse, pois a caminhada deve iniciar bem cedo no dia seguinte, sugiro, no máximo, até as 9:00. Isso porque a média são quatro horas para subir e quatro para descer. Se você começar as 9:00, provavelmente, retornará ao pé da montanha as 18:00 (nem pense em retornar na trilha à noite).

CHEGANDO A ALTO CAPARAÓ

A cidade é bem pequena e tem em torno de 6 mil habitantes, é bem fria e não há muitas opções de pousadas ou locais descolados para você descansar e relaxar. 90% da população da cidade é evangélica e se você também for evangélico não terá muitos problemas! No contrário, você poderá ter alguns inconvenientes sim! A maioria dos estabelecimentos não serve bebida alcoólica e terminando de descer o pico, você vai querer tomar aquela gelada com os amigos! Algumas pousadas têm bíblias dentro dos quartos, mas não têm água e nem cerveja, foi o caso da que fiquei no primeiro dia. O bom é se hospedar e se alimentar na ‘’parte de cima’’ da cidade, caso você não seja evangélico. Ao final desse texto há dicas de onde se hospedar, se alimentar e quem procurar para guia.

O QUE LEVAR

  • Casaco/ segunda pele para partes superior e inferior do corpo: de noite pode chegar a 16 negativos no inverno e durante o dia, na caminhada, você vai retirar todos os casacos, mas logo quando chegar ao pico enfiará toda a roupa de volta no corpo! É muito frio lá em cima!
  • Luvas: leve luvas! É sério! As mãos congelam na volta, pois a temperatura vai estar bem mais baixa com o Sol se pondo.
  • Capa de chuva: as bem baratinhas servem e elas não pesam na mochila. É necessário, pois garoa o tempo todo e se a sua roupa ficar úmida te garanto que será um sacrilégio a combinação roupa molhadinha + frio
  • Bota de couro com sola tipo exterminador do futuro: você pode até tentar um tênis, mas ele vai molhar e seus pés ficarão alagados! O lugar é alto, frio e a todo momento, como já expliquei, há precipitação de água. Há muitas partes encharcadas no terreno, por isso, o ideal é couro e com uma sola de tentáculos. Eu utilizei uma bota bem antiguinha com solado já gasto e não preciso dizer que caía feito um quiabo a todo momento e em uma dessas poderia ter me machucado feio.
  • Cajado: a ideia de ter um cajado é até poética porque transmite aquele ar de eremita, mas, sinceramente, não rola muito não! Já observei, de outros carnavais (trilhas) que esse tipo de equipamento é para solos menos acidentados, pois você finca ele no chão e ganha sustentação. Mas o caminho da Bandeira é completamente acidentado, todo pedregoso e com muita pirambeira. Se você tem menos de 1,70 de altura, provavelmente, da metade para cima da estrada terá que ir quase engatinhando, pois suas pernas não terão altura para subir de uma pedra para outra. Os últimos 800 metros eu fiz quase escalando.
  • Lanterna: leva a lanterna! É SÉRIO! Mesmo que você acredite que vai chegar antes do Sol se pôr, não subestime! Começa a anoitecer muito cedo e rápido e é quase impossível terminar o caminho sem uma lanterna. Não confia na do celular!
  • Comida: são quase 9 horas de viagem e você vai gastar muita energia! Leve chocolate, barras de cereais, lanches leves que não pesem e nem tomem muito espaço na sua mochila e, novamente, não subestime sua fome e muito menos a subida.
  • Papel higiênico: não há banheiros pelo parque e o único sanitário é bem sujo e está sem luz elétrica. Isso porque ele está abandonado e os poucos funcionários que restam fazem o possível para manter, além de voluntários como guias e apaixonados pelo local que zelam e ajudam como podem.
  • Garrafa de água: leve a sua água e não jogue a garrafa fora, você precisará enchê-la nas cachoeiras para ter mais água.
  • Protetor solar: sério! Leva! Eu esqueci de passar o meu nas costas e me queimei feio. Lembra que é alto e quanto mais perto do Sol mais terrível é a queimadura
  • Óculos escuros: se você tem fotossensibilidade é legal levar óculos escuros, foi o que me salvou de uma enorme dor de cabeça
  • Remédio para dor de cabeça: a gente da cidade grande perdeu um pouco de contato com os fenômenos da natureza. Aí você vai para esses lugares e descobre que seus olhos são fotossensíveis, que a sua sinusite piora com o vento (venta muito lá em cima!), com o frio, que sua cabeça dói com tudo isso!
  • Um pequeno kit de primeiros socorros: eu não levei e me arrependi. Eu colocaria um rolo de protetor de calçado, daqueles que parecem uma fita crepe e uma tala (a maior galera vira e torce o pé).
  • Um serviço de guia: a gente acha que não precisa, mas olha, ajuda muito! Na ida eu fui sozinha com meu amigo e até que nos viramos bem, ele me apoiou muito, pois a subida foi bem desgastante para mim. Na volta, os dois estavam exaustos e ele já não tinha mais condições de me ajudar, além de tudo, tivemos medo de nos perder. Havia um guia com um outro grupo, o Jardell (a página dele está no final do artigo) e pedi para voltar com eles. Foi muito melhor! Além da ajuda, a despreocupação mental em não errar o caminho é uma mão na roda, pois você tem que se manter focado em fazer seu corpo aguentar o caminho de volta. Com tudo, ter descido com um grupo maior tornou o retorno menos entediante, cada um respeitando o caminho e silêncio do outro, mas se ajudando. Formou-se um laço de solidariedade e esse é um dos lances mais bonitos que ocorrem nas trilhas.
  • Se você não tem o costume de fazer trilhas sozinho, leve um amigo! Eu não indico o Pico da Bandeira como um primeiro desafio a se fazer sozinho! Há outras trilhas no Brasil que podem ser percorridas solitariamente, de boas, inclusive no próprio estado de Minas, como Ibitipoca, por exemplo. Bandeira apresenta terreno arredio, perigoso em muitos pontos e como já informei, infelizmente, não conta com muitos funcionários no momento.

DIA DA SUBIDA

  • Acorde cedo, se alongue, mas não adianta querer fazer alongamento olímpico caso nunca se exercite. Só vai piorar a situação! A verdade é que seria muito bom se você tivesse se preparado uns meses antes.
  • Tome um bom café da manhã, mas não se encha muito!
  • Lembre-se de iniciar sua subida até, pelo menos, às 9:00. Caso você não esteja de carro particular, nas próprias pousadas eles indicam serviço de jeep (ida e volta)
  • Comece a sua viagem em paz, respeitando o seu tempo, abra passagem para quem está em um ritmo mais forte que o seu.
  • Tente sempre perguntar para quem já está voltando (muitas pessoas dormem na base da montanha — local chamado de Tronqueira — para subir de madrugada e conseguir ver o Sol nascendo lá do cume) como estão as condições da subida.
  • No meio do trajeto você alcançará o Terreirão, que é o único local com banheiro (sem luz e em péssimas condições — lembro que não é culpa dos funcionários!). Este era o único ambiente para acampamento, mas ele está fechado também por falta de funcionários. Se quiser acampar terá que ser na Tronqueira.
  • Do Terreirão para cima o desafio piora, a instabilidade do terreno e as pirambeiras se iniciam e você vai precisar de muita estabilidade emocional. Vá no seu tempo, mas lembre-se que se precisar parar, que sejam pausas curtas para não deixar o corpo esfriar e para não diminuir seu horário. Pense que ainda tem toda a volta e o ideal é que não avance pela noite.
  • Pronto! Chegou no cume! Provavelmente a primeira coisa que irá fazer é sentar! Muitas vezes o topo está tomado por névoa e você não conseguirá ver absolutamente nada lá embaixo, mas não importa! O que vale mesmo é a satisfação de chegar e saber que está o terceiro lugar mais alto do seu país.
  • Faça o seu lanche, tire suas fotos, respira aquele ar maravilhoso, mas não demore muito porque a volta te espera! Tente retornar com grupos que estejam lá em cima também.
  • Muito importante: lixo vai, lixo volta! Nada de deixar seu lixinho pelo caminho! Leve uma sacolinha na mochila para isso.

NA VOLTA

  • Salompas/ gelol: não vou mentir não, vai doer tudo! Compra salompas, pelo menos, para a região do joelho. Toma um banho e já coloca logo. (não há farmácia 24 horas, a principal fecha às 19:30)
  • Tente alongamentos leves e veja se está tudo bem com o seu corpo

COMO APROVEITAR O DIA DE DESCANSO

No outro dia, sugiro ficar pela região, descansar as pernas e ir visitar o sítio de café NINHO DA ÁGUIA. Ele é só o melhor café do Brasil e já ganhou dezenas de prêmios. Você será recebido pelo simpático seu Aides em uma legítima cozinha mineira. Ele vai te levar em um pequeno tour que se torna uma agradável viagem sensorial através do café. (Eu sou sinesteta e depois vou escrever um artigo só sobre essa experiência).
Seu Aides

ONDE FICAR

  • Eu fiquei na pousada Serra do Caparaó. Hospedei-me em uma antes desta (não vou citar nomes) e foi uma péssima escolha: suja e atendimento deixou a desejar. É notável como fui maltratada por não ser evangélica e essa questão realmente pesa muito na cidade, não são todos, logicamente, mas essa perceptível antipatia em alguns estabelecimentos só prejudica o turismo da cidade. A pousada Serra do Caparaó é bem limpa, tem uma bela vista e é a última antes de chegar no parque do pico.
  • Algumas pessoas de confiança também indicaram a Pousada de Rui. Parece ser uma pousada simples, mas também limpa e administrada por alguém agradável.

ONDE COMER

Além do maravilhoso cafezinho que você pode tomar com seu Aides lá no Ninho da Águia, os melhores três estabelecimentos para se alimentar na cidade ficam um ao lado do outro:

SERVIÇO DE GUIA

  • Ventos do caparaó — com o guia Jardell, que foi quem me acompanhou na volta e ainda veio ajudando dezenas pelo caminho. Super de confiança e conhece bem toda a região.
  • Guia da pousada Serra do Caparaó — na própria pousada em que me hospedei também tem um ótimo serviço de guia.

ONDE COMPRAR

Se ficou faltando algum equipamento ou roupa de frio, vá à loja Fruto da Terra, lá eles têm tudo o que você precisa e o dono da loja é uma simpatia e dá muitas dicas para a subida.

Boa viagem!

Euzinha no Pico da Bandeira, em 11 de julho de 2017.
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