Estamos mal e precisamos falar sobre isso


Se em algum momento você já conversou comigo na faculdade, você deve ter me ouvido falar que adoro calouros (as) porque são pessoas que tem um brilho no olhar, uma empolgação, uma vontade de mundo que é de fazer inveja em dinossauro (categoria na qual eu me encaixo e com uma certa vergonha — já explico porque), e ao contrário da gente — que perdeu o brilho no olhar e a energia de ser feliz às 7h da manhã — eles ainda não perderam a sanidade.

Entrar na UFMG ou em qualquer federal é um processo desumano, mas sobreviver a elas também. Existe a pressão de ser grato por estar onde você está, porque as pessoas matariam pra estar no seu lugar. Existe a pressão de manter o RSG na média e cumprir todos os prazos absurdos e ler textos em idiomas que você não domina — mas deveria, porque no fim das contas você está em uma universidade federal e muita gente mataria para estar no seu lugar. Você vai pra aula do jeito que dá, e toda aula é uma missa de corpo presente. Você se sente culpado por não conseguir ler todos os textos e se sente extremamente desconfortável na própria pele porque não se encaixa bem naquela turma, porque se sente incapaz de aprender ou formular uma frase naquela linguagem fria e técnica — mas acadêmica. Você quer ser assim.

Aí vem a pressão de conseguir um estágio e montar um currículo é uma tortura. Ali, naquela folha A4 constam seus dados pessoais e o lugar onde você estuda e é isso — as vagas pedem fluência em inglês, domínio do pacote Adobe, experiência em fotografia, edição de vídeo e imagem, domínio do Office, proatividade, fome de aprendizado, devoção, paixão, tesão pelo trabalho, por menos de um salário, você cumprirá as funções de um profissional graduado, mas tudo bem, nós temos um lifestyle cool e fazemos tudo em nome da família. Cada entrevista de vaga é uma sessão lenta e excruciante de um filme ruim que você não quer ver e muito menos fazer parte. Você já não tem forças pra ler os textos e faz os trabalhos pelas coxas — e se sente culpado por isso. Chega um momento que a zona de conforto não existe e estar desconfortável is the new black. Mas você estuda em uma universidade federal — uma das melhores do país — você tem um estágio, você não tem motivos pra ficar mal. Você só estuda.

Até que você surta. Você sente sufocar, afogar fora d’água e respirar é difícil. Você se sente perdido de você mesmo, se isola das pessoas que te amam e passa a questionar sua razão de existir — e deixa eu te contar, nessas horas a cabeça da gente é um lugar perigoso de estar sozinho. Você passa noites em claro porque a hora de ir dormir é uma tortura à parte, já não tem mais forças pra ir às aulas, fica deitado na cama sem dormir; sem vontade de viver pra falar a verdade — sem energia pra fazer as coisas que ama, que te tornam você. Seus amigos dizem que “você é incrível” e você duvida com toda convicção. E junto vem a culpa de estar preso na cama por amarras invisíveis e muito apertadas. Seus pais não entendem e dizem que é preguiça, você não tem coragem pra falar nada daquilo pra ninguém. Seu namorado te diz “da próxima vez que isso acontecer, posso não estar aqui por você quando você resolver voltar” e aquilo te mata aos poucos, mas por algum motivo você continua. Seus amigos ficam chocados ao descobrir que você toma remédios controlados e temem que você fique viciada — e você só dá graças por estar bem (dentro das possibilidades).

Você percebe que seus amigos não estão bem também, que não tá sozinha — a verdade é que as únicas pessoas que eu conheço que ainda estão bem são calouros (as) — e pelos seus amigos você percebe que precisa de ajuda. Mas ajuda é cara e a universidade não colabora e só exige mais, ela é um dementador que não se contenta com as memórias tristes, ela quer as felizes, ela quer minha alma. Dói ver seus amigos na mesma, ver pessoas incríveis definhando, mas o que você pode fazer?

Você fica melhor — não 100%, mas melhor. Você se conhece mais, e começa a evitar alguns sofrimentos — não todos; se força a sair da cama e tenta forçar seus limites só um pouco, porque no fim do dia eu não sou minha depressão. Cria mecanismos de defesa e passa a conversar mais sobre isso e com quem precisa conversar também e uma conversa entre duas pessoas danificadas vira uma terapia (não uma profissional, mas qualquer coisa é melhor do que ficar sozinha).

Lembra lá atrás o que eu disse sobre ser dinossauro? Ser dinossauro no curso significa que você tá ali desde antes de muitos entrarem e basicamente todo mundo é calouro pra você. Eu sou um. Selfieanossaurus rex. Entrei na UFMG em 2012 — e era um sonho realizado — num contexto político e mercadológico completamente diferente do que a gente tem hoje. Entrei com grandes aspirações e fui morrendo aos poucos como tá descrito aí pra cima. Eu era a Hermione Granger da minha turma antes de virar estudante na UFMG, lembro que no terceiro ano as pessoas até atribuíam pontos à Grifinória a cada pergunta que eu respondia (ledo engano, eu sempre fui Corvinal e uma tapada em matemática) e de repente eu era uma mistura de Jar jar Binks, Neville e Simas num feat bizarro com Crabbe e Goylle na aula de poções. Isso acabou comigo.

Cinco anos depois as pessoas perguntam o que eu ainda faço na graduação e eu explico envergonhada que o TCC me fez surtar e que os anos depois do surto foram meio complicados — foram anos né? A gente perde a noção do tempo quando tá enlouquecendo. Tento explicar os motivos de me auto-sabotar e meu medo constante de falhar. Falho miseravelmente.

Na faculdade eu aprendi uma coisa importantíssima: todo mundo tá lutando uma batalha própria, por isso seja gentil sempre, tente se colocar no lugar do outro — a famigerada empatia. Eu sou, tenho sido e tento ser. Tento ser sensível ao mundo ao meu redor pra ser uma pessoa melhor, mas isso é difícil, beira o impossível. Apelo pra músicas que me acalmam, para letras que falam comigo, pra monólogos de late shows, qualquer coisa serve.

Não consigo ver um jornal sem pedir licença pra poder chorar, não consigo não ficar (fisicamente) enjoada pela política nessa país, nem ficar imune ao sofrimento do mundo. Nem quero. Não quero ser o tipo de pessoa incapaz de chorar a morte de uma pessoa — seja uma criança no show da Ariana em Manchester ou na favela pelo fuzil de um militar. Mas eu admiro muito quem se sente tocado e consegue seguir em frente. Eu chorei a morte daquelas pessoas em Manchester, como eu chorei a do Eduardo, de 10 anos, morto pela polícia; e da Eduarda, morta na escola, pela arma de um policial. Chorei todas essas mortes mas a faculdade não me deu tempo pra ficar de luto por elas. Chorei a noite toda enquanto escrevia minha monografia, porque tem dois anos que eu tô presa nela e preciso terminar pra ter alguma paz. Enquanto escrevo esse texto o fluxograma de post-it do meu tcc me encara, me lembrando que “oi, eu estou aqui, esperando você me terminar”.

No meio acadêmico é engolir o choro e seguir em frente. A Enise falou sobre isso essa semana, não existe espaço pra sentir. E minha irmã tá prestes a entrar nesse mesmo ciclo.

Você deve ter ficado sabendo dos casos de suicídio de estudantes da UFMG, mas não de todos, a situação é muito mais alarmante e o denominador em comum é ninguém tá bem. A UFMG mata e a regra é fingir que nada aconteceu, num silêncio sepulcral sem o mínimo de consideração pelos que foram e pelos que continuam lutando os próprios demônios todos os dias.

Você respira fundo e tenta não encarar demais a janela do quinto andar, deseja uma vida diferente — uma em que você está emocional, social e financeiramente estável, com relógio biológico ajustado, sem crises de ansiedade na hora de ir dormir.

Se você me conhece mas não tinha noção disso, bom, agora você sabe. “Mas não parece! Você, com depressão?” Ter depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno mental não significa que você não possa rir e fazer piadas ou se sentir bem com a vida, é tudo uma questão de um dia de cada vez.

Se você estiver passando por isso, tá tudo bem, cê não tá sozinho(a). É okay procurar ajuda, é okay sentir e falar a respeito. Sei que não parece, mas a sua saúde é mais importante que a UFMG, que tcc, que aquele professor que não entende.

Respira fundo e fica bem.

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