Abimbola encontra o mar

Porque Abimbola nasceu rico e fez o que todos nós já pensamos em fazer sem conseguir: saiu de casa e não olhou para trás, nunca mais. Sua trajetória foi uma linha reta de encontro com o mar porque Abimbola tem o sopro divino que faz do barro homem, mas nunca pertenceu à terra. Não levou nada que não fosse si, foi largando as roupas pelo caminho, incomodou a vizinhança com a sua desmedida, sua aparente loucura; Abimbola incomodou os vizinhos pela sua existência apertada, pelos entremeios de suas relações, pelas estripulias de suas palavras proféticas lançadas com a irresponsabilidade meio criança meio xamã, os olhos sem fundo certo e que fazem com que a gente pare na porta com medo de tropeçar para dentro, esse medo que Abimbola nos visse e brincasse com a nossa superficialidade para achar a brecha do oco e ver se a gente descobre o sem fundo que é o fundo da gente. Pele que absorve o sol, Abimbola que nasceu rico foi deixando tudo para trás sem perceber que era água de lastro e que ninguém passa sem deixar bagunça, sem deixar perguntas, sem o espaço incômodo da ausência, mas como Abimbola nunca foi daqui não se importou com os buracos que deixou aberto, nem com os ditos que mal entendemos e quis mais que a gente se virasse deixando meia dúzia de seres balbuciantes com um quebra-cabeça de polígonos de lados incertos, com a culpa de uma adequação enfadonha, psiquicamente moral e dias encardidos de coerência e sem jornada, o Abimbola que era rico e arcano de tarô, que nasceu mil vezes em um único dia diante dos olhos de quem vive uma vida única e não desdobra em eus por medo de quem eus pode ser, mas Abimbola que nasceu rico e muito esperto sempre se referiu a si como nós, e ele com tudo o que era ele um dia abriu a porta de casa e saiu em linha reta em direção ao mar, atravessou paredes e telhados porque o Abimbola não era daqui, descalço, leve e em um rebuliço de mosca na superfície do vidro encontrou o mar. E foi adiante.

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