Enéas e o círculo

Enéas, ser humano razoavelmente comum a caminhar pelo mundo, certo dia se assombrou perante um círculo. A básica geometria aprendida durante o ensino médio não foi o suficiente para torná-lo devido conhecedor (para além da média), das formas do mundo (((apesar de nunca haver presenciado qualquer ângulo reto em uma árvore))). Talvez, só talvez, por falta de atenção ou falta de vontade, pois já lera em algum lugar sobre as estalactites e os cristais e certas pedras de rio que com o tempo se desgastam e se tornam macias ao toque, tenha deixado passar. O mundo é mesmo um grande mistério, mas até então um mistério ignorável, imperturbável, coadjuvante diante de tudo o que se revela e se faz visível; também lera sobre a importância de dar visibilidade às coisas, a exatidão necessária das palavras para poder ser a linguagem das coisas, e não só um arroto de gramática, isso que evoca o mal cheiro quando nos colocamos diante de. Mas, também não fora um gênio no estudo de línguas e suas funções cotidianas fizeram com que lhe fossem usurpados, aos poucos, alguns corpos de seu vocabulário, fazendo com que afirmasse assim, irresponsavelmente enquanto mergulhava o mindinho em um copo de cerveja, que o que não tem nome não existe: como bebês que nunca nasceram, como um ser genérico e inapresentável que se alcunha Deus. Então, perante a gravidade das coisas Enéas se acostumou a pairar feito pluma, se fez assoprado para as circunstâncias, mas aquele hoje não era dia de vento e a promessa da secura do verão fez com que pousasse em leve desgoverno perante essa forma arredondada: perfeita em seu perímetro, idêntica em todas as suas ausências de ângulos. Na sua busca por simetria comprou determinado número de piso quadrado para encaixar em sua sala circular (como as que vemos em alguns filmes de várias naturezas) e, na hora de calcular a área desse círculo surgiu esse específico número quebrado que não cessava de continuar, esse que desafia o tempo, e corpo, e o espaço, seguindo incansavelmente inalcançavelmente irremediavelmente imensurável(mente), adiante. Perante tal acontecimento, pensou Enéas, como seria possível preencher uma sala baseado em um número sem fim, para ter então a medida exata do corte, do rejunte, do removedor? Euclides, o pedreiro, não entendeu o problema. Disse que assim como esse número que não acaba, as retas, os segmentos de retas também se prolongam no espaço até o infinito, e apontou o indicador em uma diagonal para o céu (((((surpreso ao perceber o pelo branco no dorso de sua mão))))). Mas que, mesmo assim, as casas acreditam em sua fundação e ignoram a sua continuidade para o vizinho e estratosfera, essas linhas que, sem que vejamos, escapam do vértice e se esticam a buscar seu par no espaço…sideral?(só não sabemos o ponto exato em que há o encontro porque nenhum projétil escapa da gravidade), e que é por isso que os pássaros se atrapalham em suas rotas, é essa trama do céu, toda recortada por retas: os confunde em um imenso tabuleiro: é o fim dos tempos, disse enfim. Enéas, ainda assim, insistiu na procura de onde estaria essa ausência mínima, esse vazio de coisas eternas, pensando que, talvez, fossem dois ou três invisíveis grãos de rejunte a solução do problema: uma bolha; um pedacinho milimétrico de cerâmica que escapou do piso. Não pode deixar de ouvir o som abafado do número continuando perto da porta, essa serpente que come o próprio rabo depois da vírgula.

Todos os dias Enéas passou a visitar o espaço para observar a sala circular, incapaz de terminá-la. Mediu, deitou no piso, contou o material, despejou, retirou. Atento, atento ao momento em que esse vazio se faria visível, no instante: um pequeno vácuo, essa matéria negra no mundo, demonstrando enfim que não houve erro em suas contas: a sala era interminável, assim como a circunferência de seu estômago sempre protestando seu lugar da fome; assim como a terra que gira em seu próprio eixo suspensa no espaço sem derramar uma gota (mesmo de irregular superfície); assim como esse ciclo eterno do encontro da vida com a morte que acontece na busca por um sentido, e não pelo fato de que exista algum. Acabou por concluir que alguns problemas matemáticos exigem soluções particulares, já que uma reta de 2 cm somada a uma reta de 5 cm nunca poderiam ser soma já que o ponto A e B de cada uma nunca se encontraram de fato. Sua sala era uma pequena reza: encarar o espaço inabitável com medo de ser sugado por essa fresta invisível e ser derrubado nos pólos, o medo sincero de ralar as costas na queda.

Como explico, Enéas, que nossa carne é inadmissível no salto que nos joga ao infinito? Nós, seres cronológicos, que evitamos esse movimento do eterno entre às 18:14 e 18:15, na eterna divisão do tempo dos minutos em segundos, dos segundos em milésimos e assim por diante, só pela necessidade de ver o dia seguinte?