O motorista do Uber
É hoje. É hoje, pensei. Agora, quando lembro, consigo entender que a sensação do corpo chacoalhando foi um exagero do medo. No máximo deve ter ido de um lado para o outro, do jeito aquoso de quando se está em uma piscina. Mas na hora senti até capotar, rezei para não estourar a mureta e cair no Rio, rezei não sei pra quem, é mentira. Não rezei não. Mas dava um gelado na coluna quando íamos para a faixa da esquerda na marginal e dava para ver o brilhinho da água por conta da iluminação. Primeiro eu pensei que as plantas desacelerariam o carro e ninguém ia cair na água, mas logo depois lembrei de uma conversa que eu tive em uma aula de yôga, sobre o assoreamento dos rios e das pessoas que trabalham recolhendo as coisas que estão no fundo e que acham, acham sim: carros e motos e corpos. Impressionante e impressionável. Às vezes só vão achar o braço lá na frente, que nem a cabeça da Nossa Senhora Aparecida que deve ter sofrido um acidente de barco, ninguém joga a rede sem esperar um milagre. Sem contar que foi melhor não seguir no mapa, ir no assopro de quem foi buscado no Jardins e queria voltar para a borda. — Você conhece? Não conheço. A gente te ajuda. Obrigado, assim não gasto internet. Você dirige há muito tempo? Não, eu trabalho em obra, dirijo de fim de semana para garantir a pizza das crianças. Falou que o atraso da obra não era culpa dele, nem dos colegas. A gente sabe que não, é culpa do governo que quer suspender um transporte que anda no meio fio com um terço do total necessário de pessoas. Pessoas que precisam ainda dirigir de fim de semana se quiserem comprar pizza, garantir a faculdade do filho mais velho pra não ter que fazer o que faz o pai, comprar comida dos passarinhos, da tartaruga. É culpa do governo e de seus dirigentes que pessoas que não dirigem direito tenham que fazê-lo a 90km na via de 60, tem radar ali na frente.Tem radar. A culpa é do governo? André eu sei nadar, sabia? Tentei dizer por telepatia, deitando minha cabeça em seu ombro. A culpa não é sua, isso com certeza. A culpa não é de ninguém que está na rua e ache que é bom dirigir para conhecer outros lugares além de Grajaú-Santo Amaro. E a Lapa, a estação de trem. Pizza é um troço caro, lembrei da minha irmã que fazia pizza de pão no forno quando meus pais existiam sem mim. O pior momento foi a ponte (a hora que minha cabeça afundar eu tenho que lembrar de fazer bolinha). Dizia telepaticamente para o André que o Pinheiros era um rio-serpente como a serpente dos muitos mitos que ele me conta , como aquela postura do yôga e o movimento que eu faço no braço quando danço e o que enrola no bastão do símbolo da medicina. A do Éden tinha pé, não conta. o André não é lá muito telepático. Eu disse: o nome da sua filha é lindo. É mesmo lindo. O do filho não gostei muito não. Naquele hoje ele voltaria para casa, éramos sua última corrida. Não viraria a noite, já tinha o que precisava, mesmo as taxas da empresa sendo altas como o diabo (eu não sei a estatura do diabo mas deve ser algo respeitável, ou pelo menos vistoso). 8h-12h de trabalho, 7 dias na semana para garantir o necessário. E uma pizza. Pirituba é longe do Grajaú, mas ainda assim ele conseguiu dizer que era bonita, a Mutinga. Sorri. Daria para ver do retrovisor, mas desconfio que o cansaço não deixa a gente enxergar muito bem às vezes, espero que ele tenha enxergado todas as placas para voltar e que, depois de um dia de trabalho, atum não seja a pizza favorita de ninguém.