Poema de despedida para um potro recém-nascido

Tão frágil como uma pipa
 nasceu Luchín, em dia amanhecido
 imenso e já com cascos
 o céu acinzentado.
 Findou-se a espera
 sentimos:
 já era tempo de exercer o amor

Fechamos os olhos em sonho
 para o potrinho recém-nascido
 porque tudo o que nasce
 carrega consigo nota doce
 é potencial
 e vontade de que o mundo seja outro

Tudo o que existe
 explode em luz
 atravessa cada partícula
 cada átomo do corpo
 a vida alarga
 desboca em abismo e deixa
 a gente pendurado sem medo
 de olhar para baixo

(faz a gente confiar em galhos
 e nas pontas dos dedos)

Luchín só conheceu 
 o que é o sol poente
 o dia findou
 e quando Luchín anoiteceu
 tudo anoiteceu com ele.
 Havia choro do céu, da terra com titica
 da minhoca, da ave do escuro

Até o bambu se dobrou em respeito
 e as moscas zuniram mais baixo
 as aranhas em jejum observaram
 os cachorros não latiram
 e o riacho suspendeu seu curso, por alguns segundos
 gelando a espinha dos peixes

Em silêncio a égua ninava
 o corpinho desfalecido
 Luchín, breve feito estrela cadente
 descolou seu corpo do mundo
 para ser linguagem

Para doer em mim.

Perto de sua costela
 nascerá uma flor, espero que rosa
 amarela ou branca. 
 Para que tudo o que nasça
 deixe rastro doce
 de ser potencial e vontade
 de que o mundo seja outro.

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