E se eu escrevo é para (me) transbordar

Existe um binômio que fundamenta as quase mil páginas dos dois volumes dO Segundo Sexo, da Simone de Beauvoir: imanência/transcendência. Esse binômio, somado com o binômio Um/Outro é o instrumento principal para usado para descrever a posição que a mulher ocupa na sociedade e a forma mais profunda em que a nossa humanidade é negada.

Para Simone, a natureza humana está no impulso de transcendência. Extrapolar as próprias barreiras físicas, ser maior do que se é, construir algo que seja independente do nosso eu imediato. Mas às mulheres o ato de transcender sempre foi negado. Nosso trabalho sempre foi existir, em especial existir em função dos homens, e existir está no campo da imanência. Nos negaram a possibilidade de construir algo maior, algo que nos represente no mundo, algo que seja um pedaço de nós e ao mesmo tempo tenha vida própria.

Quase setenta anos se passaram desde Simone e talvez esse binômio específico não seja mais tão útil para explicar a posição das mulheres na sociedade a não ser pela perspectiva histórica. Se hoje nossas criações ainda não são tão valorizadas quanto as dos homens, pelo menos nós temos uma possibilidade maior de criar, de transcender, e isso nos torna um pouco mais humanas.

À parte de toda a discussão de gênero, eu acho muito bonita a ideia de que a natureza humana é a transcendência. Essa ideia de que estamos sempre buscando ser algo além do que nós somos, tocar coisas e pessoas que estão além de nós, deixar nossa marca. Para mim, a ideia de transcender tem uma relação muito profunda com a questão da mortalidade. O corpo morre, e com ele morre tudo o que é imanente, tudo que tem uma relação direta e indissociável da nossa existência enquanto indivíduos. E é por isso que transcender tem relação com criar algo que seja independente de nós, que possa continuar vivendo mesmo quando nós não estivermos mais.

Augustus Waters não é o único que tem medo de ser esquecido. Acho que todo mundo que para para pensar na própria mortalidade tem, em algum nível, esse mesmo medo. A imanência em si é cansativa e desafiadora demais para que seja possível ficar em paz com a ideia de que, depois de todo esse esforço, depois — literalmente — do trabalho de uma vida, nós todos vamos morrer e imediatamente começar a cair no esquecimento. Que nós caímos diariamente no esquecimento mesmo estando vivos. Que para milhões de pessoas vivendo no mesmo mundo que nós ao mesmo tempo que nós, nós simplesmente nunca existimos.

Produzir qualquer coisa é um esforço consciente ou não para lembrar a alguém que nós existimos e que estamos aqui. Se eu escrevo é porque eu espero que alguém que esteja do outro lado, lendo, possa reconhecer minha presença nesse mundo. Porque o desejo de ser lido vai muito além de uma questão de ego e validação, é uma questão de reconhecimento. Reconhecimento atual e reconhecimento futuro, além dos limites da vida.

Imortalidade, para mim, é mais do que um conceito temporal. Uma pessoa cuja existência me é completamente desconhecida não está, para mim, existindo. Sob algum aspecto, a própria existência pode ser um conceito relativo e intrinsecamente dependente da atividade constante de transcendência. Se eu passasse o resto da minha vida em um quarto que ninguém conhecesse e todo mundo que um dia me conheceu morresse, eu ainda estaria existindo? Existir de forma exclusivamente imanente não me interessa. Eu quero ser imortal e infinita, mesmo que só por hoje.

Eu escrevo porque escrever é como gravar meu nome em um muro por onde uma quantidade razoável de pessoas passa e eu tenho fé que alguém vai ver, e em troca esse alguém vai se sentir mais vivo e existente no mundo porque eu — adivinhando a sua existência — deixei esse recado em algum lugar onde ele poderia ser encontrado. E juntos nós vamos transcender um no outro. É por tudo isso que eu escrevo.

Escrever para mim é esse ato essencial de conexão com o outro que, no processo de leitura, descobre que eu existo. E pode ser que seja um fenômeno instantâneo que dura enquanto dura o texto, ou pode ser que uma ligação mais forte se forme e ela ou ele passe o resto do dia pensando em uma frase que saiu de mim. E pode ser que daqui a uns meses ou anos alguém tenha uma vaga lembrança que leu algo em algum lugar sobre alguma coisa que marcou de alguma forma, mesmo que não lembre exatamente o que, quando ou onde, nem que quem escreveu fui eu. Assim como eu lembro que alguns anos atrás uma amiga escreveu que todas as histórias são sobre nós mesmo que eu não lembre mais nada desse texto específico, porque eu achei essa frase muito real e ela fala por si mesma. Porque tudo isso marca a minha presença no mundo, ainda que não me fixe na minha individualidade, porque eu não sou só esse indivíduo específico que agora escreve tudo isso.

O ato de escrever tem para mim muitos significados que se misturam e se separam. Ao prazer puro da ação de apertar as teclas com as pontas dos dedos e ouvir o ritmo da música que se forma se soma o prazer derivado de cada pessoa que aperta suas próprias teclas para dizer que entende e sente também. E esses prazeres se fundem nesse processo assim como nos fundimos eu e cada uma dessas outras pessoas nesse momento e para sempre só porque no ato de escrever e ler nós nos tornamos conscientes de que estamos aqui e existimos mutuamente. E existimos um pouco mais a cada vez que transbordamos nossos próprios limites.


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