Sobre viver o tempo que se mata

Para os procrastinadores compulsivos, boa parte da vida é gasta sem querer. Evitando. Fazendo qualquer coisa menos o que supostamente deveria ser feito. Bebendo chá, ouvindo indie e olhando o céu azul em um fim-de-manhã/começo-de-tarde de sábado ensolarado, em lugar de escrever artigos que têm prazo em duas semanas, por exemplo. Tempo que se mata, sempre acompanhado pela culpa do assassinato, sempre clandestino, sempre perdido.

Desde a minha epifania de aniversário, eu resolvi parar de matar tempo. Parar de jogar pela janela esse recurso que já é tão escasso e incerto. É uma promessa que eu estou muito determinada a cumprir, não porque eu vá magicamente parar de procrastinar, mas porque eu vou começar (já comecei) a fazer as coisas de propósito, seja o que for.

Tempo que se gasta de propósito, não importa como, não é tempo que se mata — é tempo que se vive. E aqui, no oitavo andar, com os pés pro alto, olhando pela janela que só mostra um céu azul e várias outras janelas, ouvindo música boa no volume perfeito misturada com o trânsito lá embaixo, ignorando sumariamente o livro da biblioteca que me encara em cima da mesa, eu senti que eu estava vivendo com intenção. E eu não não vou me sentir culpada por estar vivendo. Não vou mais me sentir uma assassina dar vida à vida.

No domingo mais niilista até o momento do meu vigésimo quinto ano de vida, eu cheguei à conclusão de que — se vamos todos morrer mesmo e o objetivo da vida é ela mesma — não importa o que se faz e sim, como. É esse elemento de intenção que diferencia a vida da existência. Não importa se você está rabiscando um pedaço de papel, varrendo a casa ou tomando banho. Ou divagando, ou lembrando, ou projetando o futuro. Uma parte do seu ser precisa estar com os pés firmes no aqui e agora, nesse minuto em que a vida está de fato acontecendo, sendo atravessado pela sensação ativa da passagem de cada segundo. Cada segundo que é único, efêmero e uma vida inteira em si mesmo.

Alguns anos atrás, na época do hype de As vantagens de ser invisível, a ideia de se sentir infinito foi algo que falou muito forte comigo. É um conceito intraduzível em palavras — um sentimento, pela própria definição do termo. Algo inexplicável, mas imediatamente reconhecível por qualquer um que já tenha se sentido infinito alguma vez na vida. É um sentimento tão dominante e pleno e absoluto que não dá para confundir. Um sentimento que eu já tinha sentido algumas vezes antes e até então não sabia definir. Um sentimento que até então eu só tinha experimentado em momentos tão grandiosos que me seguravam pelo cabelo e me forçavam a estar inteiramente ali. Um sentimento que vivendo de propósito é possível se criar de uma maneira mais estável e constante e duradoura. O que é maravilhoso, porque não existe sentimento melhor do que se sentir infinito.

Não é questão de só fazer o que se quer, o tempo inteiro. É questão também de, às vezes, descobrir uma forma de querer o que se tem que fazer. Saber dosar os momentos de vontade espontânea com aqueles mais banais, mas que são uma das muitas peças de algo maior, ou que são simplesmente necessárias. É aprender de alguma forma a estar presente e se realizar em momentos banais, tanto quanto em Grandes Momentos. Ressignificar a rotina, apreciar as coisas pequenas, médias e grandes. Jogar uma espécie de jogo do contente para ver o lado positivo do que é inevitável.

O objetivo não é se sentir infinito o tempo todo, porque infinito o tempo todo é sinônimo de nunca infinito. O objetivo real é viver todos os momentos da melhor e mais consciente forma possível, na espera daquele sábado de manhã aleatório e perfeitamente banal em que você vai reconhecer o potencial para a infinitude. E vai mergulhar nela, enquanto durar.

“And in that moment, I swear we were infinit.”

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