Era um dia ensolarado, tudo acordava calmo e seguia seus caminhos. Havia um passarinho que voava. Quem olhasse para o céu, conseguia ver aquele animal cheio de vida, de cor. Ele fazia planos pro dia, pegava o primeiro voo para acordar as asas, estava só começando. Foi ai que tudo ficou escuro e na queda, o passarinho pensava em tudo que tinha feito e o que não deu tempo de fazer. Tudo que fugiu dos seus olhos e se perguntou o porquê. É que ele não viu quando lhe apontaram a arma nem quando dispararam. Voava tão longe que nem sequer ouviu o ruído. E foi assim.

Foi assim que eu me senti. Posso ser dramática e utilizar demais dos recursos criativos até ficar exaustivo, mas foi assim pra mim. Quando tudo que aconteceu e o que poderia ter acontecido se tornaram cinza e triste.

Eu me pergunto o que fazer com essas coisas que eu sei. Como quando eu fazia cafuné na sua cabeça e você a inclinava pra trás, como eu sei exatamente como é a disposição das cores do seu olho, como eu conheço sua risada e seu cheiro até de olhos fechados. Com todo espaço dessas informações que eu decorei, eu poderia hoje saber de cor a Ilíada ou qualquer outra coisa que tivesse qualquer utilidade pra mim. Eu nem acredito que eu tive forças pra fazer piada agora, sendo que eu estive em prantos desde ontem. Desde que eu saí correndo da sua casa porque eu não aguentava mais segurar o choro.

Era pra ter sido tão bom, eu juro que se você deixasse eu seria aquilo que você disse, eu seria alguém para recorrer, uma âncora, não sei. Só sei que eu poderia ter sido. Eu queria. Agora eu tenho um relicário de coisas suas e infelizmente não dá pra apagar tudo da minha cabeça. Poxa, o dia poderia ter sido tão bom, fazia sol, porque tiveram que matar o passarinho? Tinha tudo pra ser, morreu tão cedo. despencou do céu e agora repousa no chão frio, esperando algum motivo, alguma esperança, mas não há.