o anjo da história e a sua trilha sonora

Quando aquela beldade cruzou com Silvia na pista, eu não sei explicar muito bem, mas estava tocando Used to being alone, da Azealia Banks. A voz da Azealia rasgava, e a Silvia, trêbada, ficou de joelhos, imitando os gritinhos fervorosos do refrão, braços jogados pra cima, alucinada, jurando amor e tesão e amor e tesão. Ela queria, balbuciante, e ria pros amigos porque era permitido. Queria que deus Baco arrastasse aquela visão de homem de volta pra ela. Pro seu colo, no centro da pista. Silvia, já quadrêbada, gastou a piada um pouco mais do que devia, então, ofendida consigo mesma, resolveu focar em descobrir porque o mundo parecia estar em technicolor de repente. Lógico que não deu em muita coisa.
Já ouviu essa?
A segunda vez foi lá em casa. Foi um susto pra Silvia encontrar logo ele ali no meio de uma rodinha composta por: amigos seus; amigos de uns amigos seus; amigos do Pablo que nunca pisariam na casa se ela não fosse dele também; gringos perdidos, o que a gente chamava de cota multicultural. O de praxe. Àquela altura, Silvia jogaria em qualquer time e até engoliria a cara azeda de tanto privilégio da Luiza. Isso se fosse amiga dele — você vê, até a Luiza ela perdoaria se o gostoso pagasse em espécie com aquela língua, quer dizer, cara, rostinho bonito demais. Cotação altíssima.
Silvia estava trancada no quarto ouvindo o último álbum do Boogarins, e mexia a cabeça devagar pra cima e pra baixo. Levantou da escrivaninha, onde dedicava as horas mais preciosas de trabalho. Ela tonteou ao ficar de pé. O quarto parecia preenchido de matéria psicodélica ativa que empurrava sua vida e a suspendia por forças magnéticas de supernova. Por pouco, Silvia não voou pelos ares. Conhecia aquela sensação, a de ser alimentada pelo umbigo de música. Tinha separado uma graninha pra pedir delivery no sábado à noite, mas talvez não precisasse dela afinal. Ela se sentia cheia, um, de trabalho, dois, de vida. Com certeza uma combinação incomum, exclusiva pra millenials e mujiques. Parecia que os problemas tinham se perdido dela e flutuavam zonzos perto do chão, à procura de um buraco maior pra se enfiar. Ao levantar da escrivaninha, então, tomou cuidado pra não pisar neles. Abriu a porta, cumprimentou a Zana, que saía do banho, e entrou na cozinha.
Os amigos insuportáveis do Pablo estavam fazendo tapioca e, hipnotizados de cansaço, falavam sussurrado, já coçando os olhos. Um deles contava sobre o namorado de alguém que passava por uma barra desde que o pai tinha abandonado a mãe pra ficar com uma novinha do Tocantins. Silvia pediu licença pro dono oficial da fofoca, queria abrir a geladeira. Pegou um copo enorme de água e voltou, checando as linhas torneadas que desciam das costas dele e apontavam pra duas covinhas simpáticas, bem no limite do short. Ele estava sem camisa, é claro, encostado de bruços contra a parede. Não me pergunte por quê. Quando alcançou a porta do seu quarto, Silvia deu um riso curto e cínico, e se lançou de volta na neblina espessa dos sintetizadores. Tinha muito trabalho a fazer ainda. Pôs Taylor Swift pra tocar. A cantora não, a música. Não conhece? Ah, você tem que conhecer, escuta só: