Caju do sertão

Eu não cabia no tamanho daquelas descobertas. E por mais que os galhos pendessem até o chão, eram braços de menos pra tanta folia, quebrando as canelas, gravetos de sabiá pulando e gritando pelos troncos.

A minha casa é onde eu moro as minhas saudades. Não tenho hora pra chegar e sento na terra, me desarrumando as paredes, pendurando quadrinhos luminosos, com espelhinhos e fitas. Eu a encho de chiados, de palavras, e pela força da beleza descubro os quartos, jogo no ar os lençóis bordados de sons e melodias. O recreio dos grilos a hora comum a voz de longe, cantarolando baixinho enquanto caminho assoviando porta afora. Vai indo longe esse rodopio...

Eu sentia e via no silêncio daquele chão árido as tantas flores brancas que brotavam dos espinhos. E o meu ouvido na terra era pra escutar o sussurro dos anjos, dos menininhos e menininhas que não suportaram a fome a falta as ausências o olho seco do sol.

Eu não cabia naquele sertão. O meu lugar era virado pro céu que me obrigava a crer nos feitos divinos, na finitude dos pesos mais pesados da vida, na minha finitude instalada naquele corpinho. As linhas do cajueiro me desviavam do caminho que mamãe queria. E eu, com tanta fome e sede, andava era pra água, e só olhava pro céu. Eu atirava pedras pra ver transbordar ecoar as ondinhas pelos lagos amarelos, lisos de nuvens.

Do fundo dos meus sentimentos mais violentos aflorava em mim a luta pra continuar. Não permaneço porque prefiro ventar. Dos veios só permanece a água do meu rio, jorrando, impassível, decepando as raízes que apodrecem quando a inércia fecha o movimento. A gente do sertão silenciosamente quebra o não-ser, a criatura ressequida e teimosa sobre a vida.

Vivo em exuberante alvoroço.

A gente teima por força da espécie, e se lança na trilha. Eu relampeio e fraturo o céu. Me rasgo a pele fina, as cordas da voz se incham e o coração pulsa, baixinho. E entre rochas e ervas eu renasço, que nem um par de asas. Me abro e floresço no aca-iú. E a cada floração desse acaju eu me farto no tempo, e quem me olha sabe a idade que tenho. O acaju resiste a seca e finca sua fragilidade por todos seus enormes galhos. Eu durmo e me encolho nas vestes desse jardim, desviando, de repente, do meu rumo.

Pra minha própria surpresa durmo passarinho, amanheço mesmo menino.