Iara e a lua

Dizem que quando se bate um frio de incômodo que sobe a espinha e espicha os pelos do fundo das costas coisas estão no ar. Eu chamo de coisas estranhas. Minha vó dizia “presença” – ela balbuciava. Com os olhos cinzentos de quem já está lá ela me aparecia em sonhos e dizia isso, seguido do mesmo conselho de sempre: “nunca confie em quem não te olha nos olhos.”.

O teto de casa tem estalado com frequência. E eu tenho lembrado da vó. Bendito, que não para de latir nessas noites, deve ser o responsável por essa barulheira toda. Se não fosse ele eu estaria dormindo. E nem o teto seria pesado o suficiente pra me guardar nessa casa.

Noite passada sonhei – não é a primeira vez – que eu me via numa festa e deitava no chão e olhando pro céu via o universo. Eu via cometas róseos, arroxeados, raios de luz quebrando e redesenhando na escuridão. E sorria tanto mas tanto que foi triste acordar debaixo de um teto. E o meu ainda estala.

Outro sonho recorrente são os debaixo da água. O último foi guiado pelo medo. Eu, numa proa, olhando o mar de um lado e depois para o outro. Eu nem estava aqui. É claro que estava lá. Se bem que era muito realista pra ser tão lá. É claro que era muito mais aqui. E eu lá sei onde é lá? Só sei que toda vez que as estrelas se embrenham pelo céu e ele cai em noite escura de universo é quando a lua se enche de latidos. Não consigo dormir, Bendito fica eufórico, estala a vizinhança inteira.

Minha vó roceira contava lendas pra minha mãe quando criança. Não ouvi nenhuma de sua boca. Mas herdei o gosto.

Se demorasse pra dormir por causa dos calafrios na espinha espichada – e isso foi recorrente na adolescência – eu me demorava em fechar os olhos pra poder lembrar de alguma delas. A mais estranha, e que por algum motivo tem me perseguido nos últimos dias, era a da Iara, a princesa índia que virava lua. Coisas de gente mal resolvida. Que amor transformaria uma mulher apaixonada em lua? Quem inventaria tamanha crueldade às custas desse corpo longínquo, gravitando luz e perfeição contra tanta pequenez, vida humana frágil margem sopro e arrepio de eternidade desconhecida?

Nos meus olhos azuis minha vó já reclamava pelos dela, o traço familiar “presença da minha gente em você!”. A minha vó me deixou de herança sua espinha delicada pra sentir presenças de quem mergulhou e se afogou, de quem estala tetos alheios, assusta cachorros. E marcaram essa gente sensível com olhos de lua, branco azulados. Não vó, não nasci pra ser princesa, como os seus. Nasci numa casa antiga, de alguma era distante de um lugar-lá, do meio do fundo da água. Deve ser por isso que eu sou tão assim, meu corpo estalando ao menor toque de suas lembranças, esse rastro suave de peixe, de quem deita no céu pra mirar os olhos do mar.